Resenha da Dragão Brasil 122

A Dragão Brasil 122 levantou polêmicas desde o princípio quando foi anunciada como capa a imagem de uma guerreira seminua. Após um bocado de reclamações sobre o grau de nudez da imagem, o Silvio decidiu substituir a capa e muitos ficaram aliviados e comemoraram. Pelo menos até o dia em que foi anunciada a nova ilustração: O Elder Sign de Call of Cthulhu.

Choveram críticas sobre a imagem, e admito que também a achei muito sem graça. Hoje com a revista em mãos a capa parece bem melhor, com um efeito de luminosidade bacana e elegante. Mas mesmo assim é uma capa completamente abstrata, que não diz nada não só a quem não conhece RPG, mas também a quem não conhece o universo de CoC, e que não é mais atraente que qualquer revista esotérica dessas existem às dezenas nas bancas.

Capa

Deixando a capa de lado e entrando na revista, o editorial trata principalmente das referências que mestre e jogador podem utilizar para enriquecer o jogo, pregando uma maior diversidade nas fontes e assuntos abordados pela revista, que nesta edição em especial fala bastante de literatura fantástica. É interessante notar que o editorial é direcionado ao jogador com alguma experiência, aquele que deseja melhorar seu jogo, reiterando a impressão geral de que a nova Dragão Brasil é uma revista focada no jogador veterano.

As matérias começam com a resenha do Complete Scoundrel e um pequeno artigo chamado Seja um Scoundrel! ambos do Tzimisce, que como é habitual mandou muito bem. O artigo merecia um destaque especial com mais uma ou duas páginas para explorar melhor as características essenciais dos malandros, e achei que a diagramação não colaborou muito ocupando metade da página com uma imagem bem menor que este espaço. A impressão final foi que Seja um Scoundrel! era inicialmente uma espécie de Box da resenha que foi alongado em uma página.

Movimento Browniano continua a seqüência de relatos estranhos sobre casos desconhecidos e curiosos de backstage. Desta vez para piorar nem trata de RPG, e sim da visita de Orson Scott Card, um autor de ficção científica que viveu no Brasil por um tempo e depois retornou ao país graças ao empenho de fãs nacionais. É até interessante, mas se nas edições anteriores a Movimento Browniano era chata, nessa ela ainda é totalmente não relacionada ao hobby.

Filho de Maria continua nesta edição, e mantém o bom nível da primeira tanto no texto quanto ilustrações e diagramação. Por outro lado a seção de jogos online se repete negativamente com outra série de descrições superficiais de alguns jogos. Desta vez a matéria esta ainda mais mal escrita, cuspindo expressões técnicas como mounts, quest lines e grindar dentre outras. Ora, se o texto é para quem não acompanhou a evolução dos MMORPG, o autor deveria supor que o leitor não está familiarizado com esses termos não é? Além disso, as análises de porque um jogo pode ou não dar certo são bem estranhas – sobre Age of Conan o autor conclui que ele pode dar certo por ser ambientado em um cenário consagrado, mas que também pode dar errado, pois os fãs do cenário podem se decepcionar. Não ajuda muito não é?

O Chamado de Cthulhu é o destaque da edição, e surge em toda sua glória nas páginas coloridas com uma bela diagramação. A matéria é composta pelo fastplay das regras e pela aventura A Assombração, ambientada em Boston na década de 20. A tradução parece excelente, e a aventura apesar de básica executa muito bem a tarefa de introduzir novos jogadores no clima do universo criado por H.P. Lovercraft. Apesar da qualidade do material fica a dúvida se foi realmente uma boa jogada utilizar 16 páginas (1/4 da revista) com a versão lite de um jogo que ainda que muito cultuado, não é de longe um dos dez mais jogados no país. Não teria sido mais apropriado fazer uma longa matéria com mais informações sobre a ambientação e deixar o sistema de regras, que convenhamos não é dos melhores, de lado? É certo que a matéria deve ter provocado largos sorrisos no rosto de alguns jogadores das antigas, mas não sei dizer se dar tamanho destaque para CoC em uma revista que ainda esta sob a ameaça das baixas vendas foi algo recomendável.

RPG Na Mira trata dos mitos sobre o RPG e a educação, e o autor demonstra ter competência necessária para falar do tema sem ficar martelando o senso comum sobre o tema. Minha única reclamação sobre a coluna foi o espaço gasto para introduzir o assunto – praticamente um terço do texto fala sobre as confusões causadas pela sigla RPG, que também pode significar reeducação postural global ou rocket propelled grenade, uma bobeira que todo mundo já percebeu e que come um espaço valioso da coluna.

Livros dos Mestres fala de três livros que teoricamente tratam sobre mudanças no passado, presente e futuro. Achei o tema da sessão estranho, a relação entre as obras de Philip K. Dick e dos psicanalistas Corso me parece um tanto frouxa, mas no fim pode ser só minha cabeça ruim. Eu gosto muito da proposta desta seção, mas da forma como ela é executada fica parecendo três resenhas mensais bem rasteiras. Talvez a análise de apenas um livro por edição, mas de forma um pouco mais profunda e relacionada ao universo do RPG seja uma opção interessante

Novamente A Forja retorna com um interessante texto de teoria traduzido de Ron Edwards. Eu discordo um bocado do Edwards em suas implicações sobre a importância determinante do sistema, e até onde li dele na internet e na DB não trata de maneira muito convincente grupos que jogam um sistema Competitivista de maneira Narrativista, como por exemplo um grupo de D&D focado nas intrigas políticas e representações; ou o oposto, jogadores de Vampiro: A Máscara que representam verdadeiros massacres urbanos. Nesse sentido acho os textos do Robin Laws melhores, já que ele também foca o sucesso da experiência nas expectativas dos jogadores e sua respectivas correspondências, e não só através do sistema como Edwards, mas principalmente pela composição do grupo e sua dinâmica com o estilo narrativo adotado pelo mestre. Ainda assim é excelente ter um artigo destes traduzido na Dragão Brasil, e me entristece um pouco não ver quase nenhuma discussão a este respeito por aqui.

Minha maior decepção nesta edição foi com Zumbis: Um Guia de Sobrevivência. Os zumbis são meus monstros de terror prediletos, e já protagonizaram verdadeiras obras-primas como a trilogia dos mortos de Romero e filmes legais e espertos como Extermínio. Um texto puramente descritivo sobre o tema não tem como ser chato e minimamente interessante para um amante dos mortos-vivos como eu não é? Pior que tem… A matéria trás somente as informações mais básicas sobre os zumbis, coisas do tipo “eles tender a ser lentos e resistentes” ou a algo sobre a eficiência dos golpes no cérebro contra as criaturas. Fala também da importância de pegar suprimentos e de se virar sem a ajuda do governo, de uma maneira bem seca e própria de um manual. Mas qual o sentido de escrever uma matéria de três páginas falando o mais básico e óbvio sobre o gênero? Qualquer filme de zumbis minimamente decente vai ser muito mais útil que esta matéria, e a trilogia do Romero não só trás tudo isso como também um enfoque muito mais rico e profundo dos zumbis, que nos bons filmes do gênero servem de metáfora para uma aguda crítica social, como a feita em A Noite dos Mortos Vivos.

Se a idéia do autor era fugir de um artigo que abordasse as principais obras do gênero suas e possibilidades no RPG (que acredito que seria o ideal), pelo menos deveria fazer como o Guia de Sobrevivência aos Zumbis de Max Brooks, que é até citado na matéria indiretamente. Brooks também escreveu um manual sobre o tema, mas optou por uma abordagem divertida e recheada de humor negro, que acrescenta muito ao livro. Já a matéria da DB é tão divertida como ler um manual de um processador de alimentos, o que é uma pena. Pelo menos a diagramação ficou bem estilosa, e mesmo as bordas escuras que atrapalham um pouco a leitura acabaram ficando legais.

Mitos e Verdades Sobre Mulheres e RPG também vem cheia de boas intenções, mas não consegue muita coisa. Visando derrubar preconceitos sobre garotas na mesa de jogo, a autora começa atacando alguns mitos e termina fazendo generalizações grosseiras e bobas, do tipo que você esperaria ver em livros tipo Mulheres são de Vênus e Homens são de Marte. O que começou bem acaba em “O que diverte mais? Uma sessão de RPG ou uma ida ao shopping? Garotas levam isso em conta com muito mais freqüência que os garotos”. Hmm ok, fale isso para o Garrell…

Capa alternativaPara piorar, ao falar da estranha procura de alguns grupos por uma jogadora, somos saudados com “A simples distinção entre jogador e jogadora é um tipo de preconceito”. oncordo, mas não é basicamente isso que compõe boa parte do artigo? Pelo menos o último tópico – A sociedade impõe barreiras que dificultam o ingresso de novas garotas no grupo de jogo – trás bons comentários sobre a preocupação dos pais e algumas dicas para as garotas lidarem com o preconceito.

A Outra Guerra do Anel trás de maneira diferente e original explicações sobre o novo jogo de tabuleiro da Devir (essa informação fica faltando no texto), que parece muito bom! Mesclando notas sobre o sistema do jogo com o relato de uma partida, a matéria acaba sendo ao mesmo tempo instrutiva e divertida, até mesmo para um leigo como eu em jogos de tabuleiro em geral.

Finalmente a Daemon continua marcando presença com RPGquest e seu multiverso. Não conheço bem o cenário, mas o texto com descrições dos principais bolsões do Multiverso contou com uma diagramação limpa e atraente. Ao fim da matéria somos saudados pelo anuncio do Seres do Inferno, lançamento da editora Cozinha do Inferno. Quanto inferno hein?

Acho que toda a polêmica sobre o Seres do Inferno, seus anúncios e releases é muito exagerada. Se a questão é sobre a “imagem do RPG” podem ficar tranqüilos, os “inimigos” sempre vão achar algo demoníaco e satânico em nossos livros, afinal já acharam em Harry Potter e Yu-Gi-Oh! O pessoal da Cozinha do Inferno só esta facilitando o trabalho deles, mas convenhamos que os demônios iriam acabar saindo de algum lugar mesmo…

Agora se a questão é qualidade literária e artística, realmente os caras deixam a desejar. O anúncio é feio igual bater na mãe, e se a imagem da demon baby saltando nua em uma posse Homem-Aranha é ruim, as tarjas de censura nos seios e genitália da garota tornam a imagem totalmente hilária. O texto não ajuda, seco e feio, todo em Arial como uma diagramação sofrível, e tem como principal chamariz o excesso de números: Sétimo filho de Satã, 7 outras estirpes, 17 novas estirpes do inferno, mais de 40 raças, quase 300 poderes, 17 estirpes demoníacas rivais, 14 ordens… Me deu vontade de abrir o Excel e tabelar isso tudo. Enfim desejo toda a sorte do mundo para o pessoal da CdI, mas acho que a parada não vai ir muito pra frente se o livro seguir o estilo do anúncio. E se o pessoal que é contra o livro e a editora quer mesmo sabotar o empreendimento deveria dar menos audiência para eles e deixar que a provável baixa qualidade do livro faça o serviço.

A Dragão Brasil #122 acaba com um gosto amargo. Eu realmente quero que essa encarnaçao da revista vingue, e o Silvio me parece um cara ótimo e esperto o suficiente para o trabalho. A existência de duas revistas de RPG nas bancas, cada um com um enfoque distinto seria algo maravilhoso, principalmente se vier sem a companhia da guerra civil que marcou o ano passado. Fiquei com a impressão que a edição 122 veio recheada de boas idéias e propostas, mas que fracassou em cumprir a maioria delas, o que é uma pena. Espero mesmo me surpreender na 123 e daqui uns meses ler isso aqui e ver o quanto eu estava errado sobre os rumos da nova DB. Mas no momento esta realmente muito difícil ver algum futuro para ela.

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