A arte da 3ª edição

Estou escrevendo uma resenha tamanho monstro do Player’s Handbook da 4ª edição para o D3system, e no começo falo um pouco sobre a arte da 4ª edição. Saiu algo mais ou menos assim:

As ilustrações são bastante coloridas e possuem um estilo mais próximo da fantasia clássica que as vistas na 3ª edição, o que considero uma pena. Os artistas no geral fizeram um bom trabalho, mas algumas imagens deixam a desejar, e algumas não passam à sensação de aventura e dinamismo com as quais estávamos acostumados graças a caras sensacionais como Wayne Reynolds e Todd Lockwood.

Bem não tem muito como falar da arte da 4ª edição sem voltar ao que vimos na 3ª, em especial em relação aos livros básicos. A arte atual é bonita e bem colorida, algo que me atrai, mas claramente retoma uma pegada clássica e mais conservadora com poses muito estáticas. Já a 3ª edição era bem mais revolucionária, com uma idéia de cenas cheia de movimentação e dinâmicas, além de uma estética mais “suja” onde os personagens aparecem cheios de itens, com armas e equipamentos muito variados entre si. Como se os caras tivessem catado a espada do pai deles, o arco de um aliado de terras distantes, o escudo detonado de um inimigo, e a armadura cheia de remendos depois de anos de pancadas. Isso era bem estiloso, me dá uma impressão até meio punk que eu acho que casa bem com o D&D, e que foi exacerbada em Eberron, meu cenário favorito.

Mas a arte da 3ª edição também tinha algo que nunca havia sido feito no D&D. Desde seu desenvolvimento os escritores e artistas pensaram em suas ilustrações (e claro, personagens icônicos) como etnicamente diversas e com uma representação quantitativa proporcional de homens e mulheres. A um tempo atrás o bom e velho e simpático Monte Cook escreveu um excelente artigo sobre os personagens icônicos e a orientação artística do D&D, e como eles tentaram mudar isso na 3ª edição, só para serem parcialmente sabotados com a inclusão de um intruso de última hora.

A parada é muito boa mesmo, leitura altamente recomendada não só para quem tem interesse na questão das ilustrações, mas na própria história do Dungeons & Dragons, e para ver como os designers da Wizards naquela época, apesar de estarem reformulando o jogo completamente, não tinham nenhuma influência em determinados aspectos, como no marketing. E eu sempre quis saber porque diabos os guerreiros são a única classe com dois personagens icônicos!

Interessante também é ver como os designers e ilustradores (no caso o Todd Lockwood) resistiram a esta imposição maluca por um “guerreiro masculinho branco” como mascote do jogo. Muito bom os escritores pedirem imagens do Regdar apanhando, morrendo e se ferrando em geral, afinal o cara estava lá, mas não exatamente se dando bem.

Outra sacada foi a do Lockwood que tentou ilustrar o Regdar da forma mais ambigua possível, para que ele não pudesse ser definido como de nenhuma etnia em especial. Segundo um post tirado da ENworld, que faz referencia a outro da RPG.net:

Originally Posted by Todd Lockwood
EVEN THOUGH THE R&D BOYS WERE CONVINCED THAT THE ICONIC FIGHTER FOR MARKETING WOULD BE A DWARF, I KNEW THAT A HUMAN FIGHTER WOULD BE ADOPTED FIRST. FOR THAT REASON, I INTENDED HIM TO BE AS RACIALLY AMBIGUOUS AS POSSIBLE–HE SHOULD LOOK LIKE HE COULD BELONG TO ANY RACE, OR NONE AT ALL. TORDEK THE DWARF GRACED THE COVERS OF ALL THE EARLY PRODUCT, BUT REGDAR THE HUMAN FIGHTER MADE THE FIRST APPEARANCE ON STANDEES AND POSTERS. THE DETAIL ON THE RIGHT IS REGDAR AT 5TH LEVEL, IN THE ARMOR THAT DEFINES HIM BEST.

O senhor caps lock ai está falando especificamente do primeiro design do Regdar.

Mas como o próprio Cook descreve no post, á medida que os produtos foram lançados o Regdar foi ficando cada vez mais o guerreiro branco fortão que eles queriam evitar e tomando o lugar do Tordek como o personagem icônico da classe. Ainda assim é interesante ver que a proposta de uma arte mais ousada e menos ligada a uns estereótipos cretinos – afinal a equipe de marketing queria um guerreiro branco por que acreditava que os jogadores de D&D são todos homens brancos, ainda persiste em outras editoras, como na Malhavoc do Monte e na Paizo, que tem ilustrações infinitamente superiores e mais interessantes no seu Pathfinder que as vistas nos livros básicos da 4ª edição.

2 Comentários

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  1. RogerioSaladino disse:

    Particularmente, não gostei muito da arte da 4a edição.
    Existem bons ilustradores, muitos dos quais eu sempre admirei, mas a linha não me agradou.
    Acho que muito do que é divulgado da 4a Edição não condiz com a linha que a arte parece seguir. E se a proposta é realmente outra, porque se reaproveitou um monte de imagens da edição 3,X? Não sou contra a reutilização de imagens, mas já que se malhou tanto a edição 3.X como sendo ruim e etc, e se propagou que a 4a ia ser diferente, é meio cretino usar imagens antigas.
    Admito que pode ser uma opinião extremamente viciada, já que eu não gostei MESMO da 4a edição. Sou um daqueles caras que defende e gosta da 3a edição e do D20.

  2. Barba disse:

    As ilustrações da 4E são super coloridas e só. Algumas delas estão com erros de perspectiva e traço malfeito, tentando esconder a aparente pressa e desleixo do artista sob a pintura.

    Em algumas delas eu tive a impressão de que o artista queria retomar as cenas clássicas retratadas por Jeff Easley, Clyde Caldwell e Larry Elmore, mas não teve o mínimo de competência para tanto.

    Enfim… é triste ver que o Pathfinder, de uma empresa com recursos muito mais limitados, é um produto com um design e uma arte muito mais bem cuidados e agradáveis.

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