Descobrindo Catan

Ontem joguei pela primeira vez meu recém adquirido Settlers of Catan, um jogo de tabuleiro que apesar de nunca ter sido lançado no Brasil, há mais de 10 anos é o boardgame mais vendido do mundo. Criado em 1995 pelo designer de jogos Klaus Teuber, o jogo se baseia na idéia de colonizadores que chegam a ilha de Catan e devem fazer suas civilizações prosperarem, e foi o primeiro dentre os chamados eurogames – que enfatizam a estratégia e cooperação ao invés da sorte e conflito como nos jogos de tabuleiro tradicionais (tipo War e Banco Imobiliário), a fazer sucesso fora da Europa. Até eu, que sou um completo leigo em jogos de tabuleiro, durante anos ouvi inúmeros comentários sobre o jogo, e quando achei um exemplar barato no Ebay decidi arriscar. Então é hora de compartilhar minhas impressões após a primeira partida.

O Settlers of Catan pode ser jogado por 3 ou 4 pessoas (na verdade comprei também uma expansão para 5 ou 6 jogadores, mais sobre isso quando eu realmente aprender a jogar), e meus companheiros de aprendizado eram 2 caras que nunca haviam visto o jogo e outro que já tinha jogado uma vez a alguns anos. Com as lembranças embotas de álcool dele e minha leitura incompleta do manual decidimos começar a jogar usando a composição pré-montada do tabuleiro, que é mais simples. Sim, parte do jogo é montar o tabuleiro!

Isso porque uma das excelentes sacadas do Klaus Teuber foi a de conceber Catan como uma ilha dinâmica, que é montada de maneira um tanto aleatória no inicio de cada partida. Como pode ser visto na imagem do lado, a ilha é formada por 19 regiões hexagonais, divididas em seis categorias – desertos, vales, florestas, montanhas, pastos e plantações, que permitem que Catan se apresente sempre diferente no início de cada jogo, o que certamente é uma das explicações para a enorme quantidade de pessoas que jogam regularmente a parada a mais de 10 anos.

Montado o tabuleiro, cada hex de região recebeu um marcador numérico que vai de 2 a 12, sem o 7. O último passo para começar a partida foi cada jogador colocar 2 vilarejos e estradas no tabuleiro e estávamos prontos para começar de verdade. No início de seu turno cada jogador rola dois dados de 6 faces e todos aqueles que tiverem vilarejos adjacentes ao terreno sorteado nos dados recebe uma unidade do recurso que ele produz. Por exemplo, na imagem acima, se o jogador vermelho rolar 10 nos dois dados, o jogador azul, que tem um vilarejo adjacente ao pasto marcado com o número 10 recebe uma carta do recurso rebanho. se todos os jogadores tivessem vilarejos adjacentes aos recursos identificados pelo número 10 (são dois como vocês podem perceber) todos receberiam recursos. Essa é outra sacada foda do jogo – você pode receber cartas de recursos mesmo no turno de outros jogadores, o que te faz acompanhar a jogada alheia de dados como se fosse a sua e quebra bastante com o lance chato de ficar esperando sua vez para jogar. Além disso, como são 3 ou 4 rolagens de dados por rodada, isso diminui um pouco a influencia do azar, já que é bem mais provável que você receba algum recurso em quatro jogadas de dados do que se só recebe no seu próprio turno.

Estávamos nos divertindo, coletando cartas dos 5 diferentes tipos de recursos e construindo nossas estradas e vilarejos, até que alguém rolou um 7. Não existe terreno marcado com 7 na ilha lembra? Foi ai que descobrimos o saqueador, carinhosamente chamado de malaco na nossa ilha! O malaco é um pino que fica em cima do terreno do deserto (que também não produz nada, quer dizer, nada além do malaco), e que quando qualquer jogador tira um 7 nos dados, todos que possuem mais de 7 cartas na mão devem descartar a metade delas de volta pra “banca”. E não é só! Depois dessa pedrada o jogador que tirou o 7 ainda deve mover o malaco para outro hex, e ao chegar lá rouba uma carta aleatória de outro jogador e ainda impede a produção daquele terreno caso ele seja sorteado nos dados…

As primeiras vezes que rolaram o malaco eu fiquei puto e achei uma regra chata. Para piorar nossas mãos estavam pesadas e o 7 saia toda hora. Foi então que sacamos todos que geralmente ter mais de 7 cartas na mão era um péssimo negócio, e começamos a diminuir a influência do malaco no jogo. Já aqui em casa, viajando sobre essa regra vi que eles podiam ter simplesmente colocado um limite de cartas de recursos na mão, algo tipo “quem tem mais que 7 cartas deve descartar o resto”. Mas não é muito mais divertido poder ter mais de 7 cartas, mas sabendo que existe uma probabilidade de perdê-las? Ainda pior, você perde metade das cartas, logo é uma possibilidade mas um risco maior, afinal se está com 8 cartas e rola um 7 nos dados se estrepa em 4 cartas. Mas tem horas que o risco vale a pena, e você consegue acumular um número legal de cartas na mão para construir mais de uma coisa por turno, ou trocar grandes quantidades de um recurso por outro.

A troca aliás é outro ponto forte do jogo. Ganha aquele que conseguir acumular 10 pontos de vitória, que são adquiridos principalmente através da construção de vilarejos, que valem 1 ponto, e cidades, que valem 2. Mas como cada jogador só tem 5 peças de vilarejo, é praticamente impossível vencer sem dar o upgrade em um vilarejo para que ele se torne uma cidade, e ai é que a porca torce o rabo, pois o processo de construir vilarejos/evoluir para cidades gasta recursos de todos os 5 tipos existentes no jogo. E é muito improvável que você tenha um bocado de todos os 5 tipos sempre, então a melhor estratégia quase sempre é trocar, seja entre os jogaores ou com a “banca”.

Trocar com a banca tem suas vantagens – você não está ajudando um oponente, e de quebra ela quase sempre tem todos os recursos disponíveis. Mas por outro lado cobra caro, muito caro: 4 cartas de um tipo de recurso por 1 carta do recurso desejado. Da mesma forma que na vida real, quem tem mais recursos é o mais pilantra também! Outra forma bem mais divertida é trocar com os outros jogadores, e é muito legal falar “quero uma carta de tijolos, tenho 1 de madeira para dar em troca” e ouvir seu amigo de faculdade que você conhece a mais de seis anos falar na cara dura que vai fazer só se for por 3 cartas de madeira… Sério, na hora da vontade de bater no cara, mas é muito divertido! E sempre tem o 7 na espreita pra mandar o malaco ferrar com ele!

Embora a caixa diga que o jogo leva em média uma hora para terminar, nossa partida durou cerca de uma hora e meia, o que é compreensível já que era a primeira vez de 3 dentre os 4 jogadores. O safado do Mário, único que já tinha jogado, se aproveitou de nossa inexperiência para ganhar o jogo, mas mesmo assim foi excelente! Todos os jogadores avaliaram o jogo muito bem, e mesmo as garotas que estavam por perto (a minha incluída!) ficaram animadas de jogar mais uma partida, mas já eram 2 da matina e o sono bateu mais forte. Acredito que esse seja o grande trunfo do Settlers of Catan – é um jogo fácil de aprender, relativamente simples para começar a jogar, o que interessa aos novatos, mas também tem uma dinâmica um tanto complexa, principalmente para aqueles acostumados com os jogos de tabuleiros convencionais. É o clássico caso do jogo fácil de aprender e difícil de dominar, e isso que faz dele uma excelente porta de entrada para novos jogadores no mundo dos vários jogos de tabuleiros complexos e bacanudos que existem por aí.

O jogo existe em português de Portugal, se não me engano lançado pela própria Devir. Fui curioso dar uma espiada no site da nossa Devir e achei uma página com informações do jogo, mas nada de data de lançamento ou preço. Sei que os custos de produção podem ser um pouco altos, mas o jogo é tipo um clássico e certamente venderia legal, além de dificilmente poder ser importado sem imposto como ocorre com os livros de RPG e miniaturas. Quer dizer até dá para fazer, mas você corre um belo risco!

Enfim, nas próximas semanas à medida que jogar mais a parada vou postar algumas observações e comentários, sempre do ponto de vista do leigo dos eurogames que está entrando nesse mundo de jogos que não acabam com sua vida social como o RPG faz com a minha. Pelo menos não ainda!

14 Comentários

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  1. Bruno Tarmann disse:

    Excelente artigo!

    Eu tinha visto sobre esse jogo mas não tinha sacado a graça dele, mas agora ficou bem claro e achei foda!

    Adoro jogos onde existe a possibilidade de negociar (vide Munchkin)!

    Esse fim de semana joguei pela sexta vez Arkham Horror e foi a segunda vez que vencemos. Aliás, comprei ele por causa do artigo no blog do Ooze. =)

  2. Rey Ooze disse:

    Se não me engano, ele foi lançado pela Devir, mas evaporou rapidamente.

    Eu sou MALUCO pra ter este jogo, mas agora o dolar disparou, terei que esperar…

    Excelente aquisição.

    Abraço.

  3. Garrell disse:

    A Leitura do Pátio Savassi já teve a caixa do Settlers of Cattan por lá, logo que abriu. Não me lembro se estava em português, mas tinha lá com certeza.

    Parece muito foda! Socializa ai o link da loja virtual que você comprou.

    Tô afim de dar uma olhada no Carcassone também: http://en.wikipedia.org/wiki/Carcassonne_(board_game)

    Ótimo post!

    r.

  4. Armageddon disse:

    Nha, fiquei com vontade de jogar agora heehu

  5. Rocha disse: (Author)

    Excelente artigo!
    Eu tinha visto sobre esse jogo mas não tinha sacado a graça dele, mas agora ficou bem claro e achei foda!

    Valeu mesmo Tarmann!

    Esse fim de semana joguei pela sexta vez Arkham Horror e foi a segunda vez que vencemos. Aliás, comprei ele por causa do artigo no blog do Ooze. =)

    O Arkham Horror é outro que ao lado do Carcassone eu sempre ouvi falar muito bem. O tabuleiro então é lindão! Vou procurar saber mais sobre ele.

    Se não me engano, ele foi lançado pela Devir, mas evaporou rapidamente.

    Pô estranho Rey, nunca ouvi falar que a Devir lançou ele aqui, achei que estava em uma lista de futuros lançamentos. Beeeem para o futuro mesmo : )

  6. Toiço disse:

    Rocha!

    Pode passar o Link do Ebay que você comprou ele?
    É uma daquelas lojas internas ou é um vendedor “solo”?

    O Rey já me passou o Link do dele, mas não tinha mais o jogo que eu queria.

    Valeu!

  7. Garrell disse:

    O último comment não apareceu, então vamos lá denovo.

    Quando a Leitura do Pátio Savassi abriu, tinha caixa dele por lá. Sinceramente, não sei se era gringo ou não, mas tenho sérias desconfianças que estava em português. Rolava o Carcassone – ou suplemento dele – também. O problema é que me lembro que eram bem caros, na faixa dos R$80-120.

  8. Michel disse:

    Até onde sei foi lançado pela Devir de Portugal, inclusive tem pra vender na loja online deles (devir.pt).

    Joguei Catan pela primeira vez acho que em 2000. O irmão de um amigo trouxe uma caixa do jogo em alemão (Die Sidler von Catan), assim como a expansão para 5 a 6 jogadores, outra chamada Seafarer e mais dois outros jogos da mesma empresa (Kosmos).

    Durante três anos o pessoal jogou todo domingo, mantendo um ranking atualizado. Outros compromissos não me permitiram ser tão assíduo. mas de quando em vez eu aparecia e levava minha cervejinha, pois sabia que a jogatina era certa.

    Acho que em 2004, outro amigo comprou a versão em inglês, e mais recentemente um dos jogadores do meu atual grupo trouxe uma caixa dos EUA.

    O jogo é muito bom e muitas vezes a habilidade de negociação é mais importante do que a sorte nos dados. Ótima pedida para aquela noite que ninguém está a fim de mestrar.

    Parabéns pelo post.

  9. Rocha disse: (Author)

    Pode passar o Link do Ebay que você comprou ele?
    É uma daquelas lojas internas ou é um vendedor “solo”?

    Parece muito foda! Socializa ai o link da loja virtual que você comprou.

    Comprei o jogo com o seguinte vendedor do Ebay:
    http://stores.ebay.com/Play-Unplugged

    Acho que o Settlers of Catan básico acabou, mas logo o cara deve repor, tem só umas expansões e uns packs gigantes de 4 ou 5 caixas. Mas tem vários outros boardgames que parecem interessantes!

    Lembrando sempre que tem que pedir pro cara enviar com um valor declarado de menos de $50 e mesmo assim ainda corre o risco de parar na alfândega e ser agraciado com 80% de imposto.

  10. julia disse:

    mentiroso!

    a gente foi embora 1hr da manhã!!!

    você é que é muito sonolento! =]

    e quando eu jogar eu vou humilhar!

  11. Nitro disse:

    Arkhan Horror é fantástico. Dá até para jogar solo ou jogar meio rpg/meio boardgame. Tem uma galera no Rio que é viciada nesse jogo. O jogo é um pouco complicado, mas depois de um tempo ele dá um clima totalmente cthulhu.

  12. Rocha disse: (Author)

    Arkhan Horror é fantástico. Dá até para jogar solo ou jogar meio rpg/meio boardgame. Tem uma galera no Rio que é viciada nesse jogo. O jogo é um pouco complicado, mas depois de um tempo ele dá um clima totalmente cthulhu.

    E esse é o terceiro da minha lista de aquisições… no momento tô estudando como conseguir o segundo : )

    O Descobridores saiu no Brasil sim:
    http://www.devir.com.br/estrategia/catan.php
    E em Portugal também:
    http://www.devir.pt/jogos_tab/jtab_catan.htm

    Opa Daniel, eu até linkei essa página na matérias. Mas como não tem nada de preço, nem como comprar na loja online da Devir achei que fosse uma página meio fantasma. Será que alguém tem essa versão?

  13. Marcelo disse:

    Exclente post, depois pode convidar pra jogar :)

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