Uma longa e interessante resenha do D&D 4ª edição

Quando achei o link para a resenha do Dungeons & Dragons 4ª edição feita pelo Justin Alexander, pensei algo tipo “ok cara, você só esta atrasado quase um ano“. Mas decidi tirar um tempo para ler suas opiniões sobre o sistema, e o que encontrei foi uma resenha que, embora seja bem crítica, é extremamente bem fundamentada e que levanta e amarra pontos que foram discutidos do sistema tanto por aqui como em diversos outros blogs e fóruns onde a 4ª edição foi esmiuçada. Para quem se interessa na discussão da nova edição (que nem é mais tão nova), é uma leitura obrigatória, independente de se concordar com ela ou não.

Nosso novo amigo Justin dividiu sua extensa resenha em várias partes, as quais vou comentar rapidamente contrapondo com minha opinião. Já aviso de cara que concordo com muita coisa que ele disse, então estejam avisados! Vamos começar pelos combates da 4ª edição:

Combat is the highlight of the game. It is interesting and dynamic. I was surprised, however, at the lack of a paradigm shift. Although the mechanics have been thoroughly shuffled, combats still largely play out the same way they did in previous editions.

Apesar do que escrevi ali em cima, vou começar discordando – acredito sim que a dinâmica do combate mudou bastante na 4ª edição, principalmente por causa dos poderes. Mais a frente ele faz uma crítica a baixa mudança no nível de mobilidade dos combatentes, e localiza como responsável por isso a regra de Ataques de Oportunidade, mas a meu ver a 4ª edição trás um monte de opções para simplesmente se mover pelo campo de batalha sem ser ameaçado. Houve uma ênfase na 4ª edição no movimento estratégico e manipulação do terreno nas batalhas, que era indicado e feito de forma às vezes difusa na 3ª edição, e esse foco ainda maior na movimentação trouxe sim uma mudança grande nos combates da nova edição.

Em relação ao excesso de pontos de vidas das criaturas e baixo dano causado pelos personagens, essa é uma crítica que tenho visto um bocado, mas que não senti nos meus jogos (talvez por ter jogado só até o nível 6). Não sei como são as coisas em níveis mais altos, mas só de olhar nas estatísticas das criaturas e poderes dos personagens fica visível que os pontos de vida sobem em uma proporção maior que o dano causado pelos PJs.

O Justin faz uma longa exposição sobre a redução do número de habilidades dos monstros em seus blocos de estatísticas, que agora na 4ª edição giram no máximo em torno de 3 ou 4 por criatura. Acho que a medida de reduzir as habilidades dos monstros tem pontos positivos e negativos, realmente torna os encontros mais fáceis de serem preparados e mestrados, mas por outro lado obriga o mestre a dar uma rebolada ao criar aventuras nas quais os mesmos  tipos se repetem, ou improvisar na hora de adaptar um monstro que faz algo mais específico. Ainda assim, um modelo padrão bem amarrado, que aceite inovações com tranqüilidade – e as regras para monstros são bem abertas nesse ponto, me parece melhor que um longo compêndio listando todas as habilidades possíveis daquela criatura, mesmo as mais remotamente usadas. E por mais fã que você seja da 3ª edição do Dungeons & Dragons, é difícil negar que o sistema de criação/alteração de monstros era tranqüilo, assim como a lógica do ECL. Nesse ponto a 4ª edição parece mais enxuta e passível de ser moldada com mais facilidade e rapidez, que é o que eu procuro na hora de criar minhas aventuras.

Sobre os combates, ele conclui com algo que concordo absolutamente:

THE BOTTOM LINE: I was always fairly comfortable with the level of complexity you’d find in high-level 3rd Edition encounters. It took a certain degree of system mastery, certainly, but it’s a level of system mastery that flowed pretty naturally into my blood the first time I ran a group from 1st to 20th.

So, for the most part, 4th Edition combat looks just fine to me. But if you’re someone who disliked the complexity of high level 3rd Edition encounters, you should be warned that this is par for the course in 4th Edition.

I’ll also say that I have little confidence that I would ever get to a point where I would be able to run 4th Edition encounters flawlessly. The multitude of situational buffs and marks are something that I’m likely to get more right than wrong, but I suspect there’ll always be something getting overlooked at some point during a session.

Concordo que o sistema de combate seja mais simples na hora do jogo que a 3ª edição, mas também não acho que sua dificuldade e duração tenham aumentado como algumas pessoas afirmam. O combate é diferente, tem uma lógica bem mais direcionada e rígida que na 3ª edição, mas ainda assim permanece no mesmo patamar de complexidade – um jogador da edição anterior geralmente pega o grosso das mudanças em menos de uma tarde, e acredito que um novato deve aprender as regras da nova edição com a mesma velocidade e dificuldade de aprenderia as da 3ª relativas ao sistema de combate.

Agora especificamente sobre as opções dos personagens, acho difícil encontrar uma linha na qual eu discorde do cara:

RANGE AND FLEXIBILITY: The range and flexibility of the game has been significant reduced.

(1) Although you can now go from 1st to 30th level, the scale of actual power wielded by your characters is significantly smaller than it was in previous editions. Both the low-end and the high-end has been lopped off.

(2) You have far less ability to customize your character.

(3) There is a much narrower range (an almost nonexistent range) of play-styles supported. In “Death of the Wandering Monster”, I talked about how there was a huge difference in previous editions between the ways in which clerics, fighters, rogues, and wizards played (for example). This could lead to “balance” problems if a particular group’s style of play catered to one style of play over another, but it also meant, in my experience, that different players gravitated towards their preferred style of play and, if they got bored with that style of play, they could switch to another style and keep the game fresh.

4th Edition, on the other hand, only offers different gameplay within the context of combat. And, even there, the differences are not as significant as in previous editions.

Isso já foi discutido aqui um milhão de vezes, mas ainda assim, a lógica do equilíbrio supremo – este definido dentro do contexto do combate, gerou classes e habilidade que parecem muito mais limitadas e de certa forma parecidas, embora eu não discorde que um Leader jogue diferente de um Striker. Ainda assim, são variações dentro de um limite muito pequeno e definido, que é o do combate estratégico.

Finalmente ele chega ao ponto que considerei mais interessante da resenha, que são as dissociated mechanics. Não sou um grande perito em teoria do RPG, e talvez por isso ainda não tinha visto essa idéia de forma mais elaborada, embora tenha me referido a algo nesse sentido freqüentemente ao comentar a 4ª edição do Dungeons & Dragons. Resumindo, as dissociated mechanics são mecânicas e regras que são guiadas por algum motivo que não tem nenhuma relação com a lógica do mundo em que os personagens estão inseridos. Não que essa idéia seja perfeita, afinal o próprio conceito de o que é ou não dissociado da lógica do mundo, se falando de fantasia, já é bem discutível. Mas acho que existe um ponto bem tangível, que é onde você só pode responder uma questão pelo equilíbrio do sistema, das classes, dos poderes, enfim, de uma lógica externa que fica claramente evidenciada na 4ª edição. E isso é ruim?

Depende. Eu achei interessante eles tirarem as regras do backstage, e discutí-las em aberto – falar claramente sobre os papéis das classes e dos monstros, e não ficar algo esfumaçado mas que todos dominavam, como a composição core das antigas:  clérigo, guerreiro, mago e ladino. Mas se esse descortinamento das regras e mecânicas torna tudo mais claro, a falta de qualquer outro guia que não a amarração das regras pode dificultar as coisas um pouco para alguns tipos de jogadores e mestres, e tenho sentido que talvez eu me encaixe dentre estes. Nada contra miniaturas ou combates, ao contrário, adoro ambos, mas me irrita um bocado como a lógica do combate que ordena a 4ª edição é falha em quase qualquer outro aspecto do jogo. Isso quando existe, porque o que pode ser avaliado é que muitas opções de jogo que não são diretamente ligadas ao combate foram deixadas de fora dos livros básicos. E não estou falando só das pericias de sempre que todo mundo reclama…

Equipamentos, poderes não combativos, habilidades, enfim, se o sistema de combate antes já o prato principal do cardápio Dungeons & Dragons, agora temos um rodízio de combates, com uma ou outra saladinha. E eu prefiro um pouco mais de variedade no meu prato, que até agora tenho quebrado a cabeça para achar na 4ª edição. Por isso mesmo a melhor proposta que encontrei para curtir a parada foi a de um jogo mais leve, sem muitas expectativas e com uma amarração narrativa bem mais solta que minhas campanhas convencionais.

No fim de sua resenha nosso amigo Justin fica um pouco emocional e rancoroso demais, mas o que vem antes é muito bem argumentado e destrinchado, até a hora que ele concluí que a 4ª edição, embora leve o nomeDungeons & Dragons, não se parece em jogo com o que conhecíamos como D&D. Ai eu já acho forçar a barra, e ele quase me perde nesse ponto. A questão para mim (e pelo que entendi para ele também!) não é essa. Quando o sistema de combate está rolando, e ele rola bastante, o jogo me parece sim com o D&D que eu aprendi a amar – tático, divertido, dinâmico dentro do possível e aventuresco. O problema é o que esta fora dos combates, isso sim não se parece não apenas com o D&D que eu curto. Nesse ponto o jogo parece ser tornar outro, muito menos elaborado, com regras rudimentares e falhas (ei skill challenges!) quando existem.

Ainda assim, eu vou continuar tentando começar um jogo usando a nova edição do Dungeons & Dragons, mas certamente focado nos pontos fortes do sistema de forma a minimizar essas falhas e lacunas que percebo. A resenha do Justin é bacana justamente (sacaram?) por identificar de maneira muito clara pontos polêmicos e o que os tornam problemáticos para alguns jogadores e mestres. E vocês, como têm sido as aventuras com a 4ª edição, em especial fora dos combates?

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