Podcast da Green Ronin sobre publicação digital de RPG

nona edição do podcast da Green Ronin foi gravada em uma mesa redonda moderada pelo presidente da editora, Chris Pramas, que reuniu também Jeff Combos do Exile Game Studio, Erik Mona da Paizo, Donna Pryor do Flying Lab e David Stansel-Garner do Catalyst Game Labs, para discutirem a publicação digital de livros de RPG em formato eletrônico, além de temas relacionados como a pirataria, comunidades de jogadores, e claro, a decisão da WotC de encerrar a venda digital de seus livros.

Não dá para resumir bem a parada sem perder muito do conteúdo, já que quase toda a conversa, com cerca de 58 minutos de duração é bem informal e dinâmica, com os interlocutores indo e voltando em pontos que circundam a questão da venda eletrônica de livros de RPG. Mas vou tentar fazer algo nesse sentido para quem está sem saco para escutar uma hora um bando de nerds falando de RPG:

Os primeiros 3 minutos: comentários introdutórios do Pramas, falando do contexto em que foi feita a gravação e dos seus problemas técnicos.

03:00 – 10:00: apresentação dos participantes da mesa. Início da discussão com relatos de como era a publicação de RPG em formato eletrônico na década de 90, o que mudou nos últimos 10 anos e como isso afetou a indústria de RPG de forma geral.

Erik Mona fala sobre como no início os livros de RPG em PDF eram espécies de complementos ou material cortado dos livros básicos na edição, material bem secundário ou periférico mesmo, mas que nos últimos anos o paradigma dos livros eletrônicos se tornou muito mais hardcore, com livros de regras e cenários inteiros em formato eletrônico, muitas vezes lançados juntos (ou até antes!) que suas versões impressas. Pramas comenta a prática da Green Ronin de lançar antes os livros em PDF para depois de algumas semanas publicá-los no formato impresso, para que os próprios consumidores possam colaborar com uma possível errata e correções, que são incorporadas gratuitamente na versão eletrônica, mas que não poderiam ser feitas no livro impresso.

Mona também fala como eles enviam de graça seus livros em PDFs junto com as versões impressas compradas diretamente da Paizo, para que os consumidores tenham uma forma fácil de procurar por determinado conteúdo no livro, ou para preparar seus jogos com mais facilidade.

10:00 – 18:00: Pramas pergunta ao Erik Mona se essa prática de dar o PDF junto com o livro impresso nas compras feitas diretamente com a Paizo não tem incomodado os lojistas, que pelo mesmo preço vendem apenas o livro impresso. O editor da Paizo responde que a saída encontrada pela editora tem sido dar outras formas de suporte para os lojistas, como materiais e livros gratuitos em promoções e datas especiais como oFree RPG Day. Ele continua dizendo que entramos em uma época, onde com a competição das livrarias virtuais e as várias formas de distribuir os livros, as lojas tradicionais que vendem livros de RPG tem que oferecer muito mais que apenas livros em uma prateleira, mas também ter dias de jogos, parcerias com editoras e outras formas de sobreviver em meio aos novos tempos. David Stansel-Garner da Catalyst fala de como eles têm desenvolvido uma parceria com os lojistas, para que estes coletem os e-mails de seus compradores, para que les recebam os PDFs dos livros físicos que compraram na loja, integrando os lojistas assim no oferecimento dos livros eletrônicos.

Ele encerra sua fala com uma analogia muito legal: PDFs são diferentes de livros impressos, da mesma foram que um filme em DVD é diferente de um filme nos cinemas. Ambos tem o mesmo conteúdo, mas em formatos completamente diferentes, com recursos diferentes e preços diferentes.

Jeff Combos do Exile Game Studio diz que por serem um editora muito pequena, eles enxergam os PDFs muito mais como uma ótima forma de divulgar um produto. Se um livro eletrônico é bem sucedido e cria uma base de jogadores e um nome reconhecido, ele então é impresso pela editora, que usa o formato eletrônico como um medidor de como um produto vai ser aceito pelo público, com um investimento muito menor que o de um livro impresso convencional.

18:00 – 27:45: os participantes começam a falar diretamente sobre a decisão da Wizards de encerrar as vendas de todos seus livros em PDF, e conseqüentemente sobre a pirataria e seus efeitos sobre as estratégias das editoras. Chris Pramas diz que quando ouviu pela primeira vez sobre a decisão da WotC pensou que se tratava ou de parte de um plano muito inteligente, ou de um plano muito idiota. Mas que depois das entrevistas do Greg Leeds ele percebeu que as pessoas à frente da Wizards não entendem nada de pirataria, e que se eles realmente acham que com o fim das vendas de PDF vão conseguir impedir os piratas por um pouco mais que algumas horas de lançarem os livros em redes de compartilhamento, eles estão muito errados.

Os debatedores concordam que lutar contra a pirataria é algo que exige muito mais recursos que as editoras de RPG possuem, e que os valores gastos com isso não serão necessariamente traduzidos em vendas. Pramas também diz que a decisão da WotC desencoraja os compradores de livros em PDF, já que agora a único forma onde eles podem conseguir o que antes adquiriam legalmente é através da pirataria.

Erik Mona começa uma choradeira sobre como os jovens estes dias (e ele mesmo zoa isso), enxergam a internet como uma forma de acessar conteúdo de graça, para depois decidirem se vão investir seu dinheiro no produto ou não, se ele vale o que realmente é cobrado. Pramas resalta que esta não é uma prática nova, afinal os livros de RPG xerocados eram muito populares nos anos 80, e foi através deles que muitos futuros consumidores conheceram os jogos. As novas tecnologias só permitiram que está prática se tornasse mais comum.

27:45 – 30:00 : Aqui acho que começa a melhor parte da discussão, quando o David Stansel fala da importância da comunidade de jogadores para o sucesso de uma determinada linha de produtos, citanto a qusae extinção do Battletech. Com a má situação da linha, os própriosfãs começaram a lutar contra a pirataria como uma das formas de apoiar seu jogo favorito, ao mesmo tempo organizando eventos e expandindo o público da linha. Esse tópico da comunidade é algo em que eu venho pensando um monte desde o ano passado, até falei sobre isso no EIRPG do ano passado com algumas pessoas. Acredito que no Brasil as únicas editoras que tenham conseguir fomentar este tipo de comunidade sejam a Daemon, embora ela pareça estar diminuindo, e a Jambô, que tem uma legião bem integrada de seguidores fiéis de suas linhas. Estas comunidades podem servir inclusive como uma proteção contra a pirataria, já que teoricamente a chance de alguém piratear um livro escrito por um cara super acessível que participa ativamente de fóruns e listas, e publicado por uma editora comprometida e que responde seus clientes é menor que a chance de se piratear este mesmo livro se ele fosse escrito por um cara que não tem contato com o público e por uma editora que sequer fomenta canais de comunicação com os clientes. Pelo menos é assim que eu imagino que funcione. Eu e os caras do podcast : )

30:00 – 39:45: Alguém na platéia diz que livros eletrônicos não são apenas PDFs, e que ele tem um Kindle que não lê direito PDFs. Achei essa parte bem chata. Os participantes explicam a dificuldade de re-diagramar um livro de RPG cheio de tabelas e imagens, e que com o PDF isso não acontece, já que é o mesmo arquivo enviado para a gráfica na impressão.

Erik Mona retoma a discussão sobre os títulos em PDF serem produtos diferentes dos mesmos títulos impressos, cada qual com sua especialidade. Ele acredita que é um erro tratar PDFs e impresso como iguais, e que a tecnologia está evoluindo mais rápido que as editoras têm conseguido acompanhar ou mesmo entender. Depois de uma longa e simpática história sobre mapas e a revista Dungeon (na época publicadas pela Paizo), ele concluí que nesta época de mudanças e inovações, especialmente em um mercado de nicho como o de RPGs, interagir com a comunidade de jogadores é crítica para o sucesso das editoras.  Muito bom isso aqui: muitas editoras acreditam que interagir com seus consumidores é algo secundário, que seus funcionários podem fazer de casa nas horas de folga, como algo extra ou diferente de trabalho de verdade. Ele diz que como cabeça da Paizo, sempre defendeu que escutar e criar canais para interagir com a comunidade de jogadores é parte do trabalho da editora. E que deixar isso em segundo lugar pode ser uma estrada para o fracasso.

39:45 – 42:00: Uma garota da platéia fala que muitas pessoas já conseguem ler livros inteiros em PDF, e que necessariamente não querem ou precisam das versões impressas, e Mona fala que realmente, à medida que a tecnologia avança e se torna isso mais comum, é uma tendência que vai aumentar.

42:00 – 49:00: Um cara da platéia pergunta o que os participantes acham do modelo de mensalidade adotado pela Wizards com o D&D Insider. David Stansel fala que o modelo é a muito tempo usado pela Catalyst e que é uma forma excelente de construir uma comunidade ativa e dedicada ao jogo, que pode inclusive contribuir com seu desenvolvimento. Pramas e Jeff Combos falam de como a idéia do D&D Insider é excelente, mas que não está sendo tão bem executada como deveria ou prometida. Erik Mona fala que com as novas formas de distribuição e venda, não só de livros, mas de músicas e filmes também, a própria idéia de ser o proprietário de algo começa a mudar. Um serviço de assinatura é uma forma diferente de vender produtos, que se situa entre o aluguel e a venda, e que isso pode assustar um pouco alguns consumidores. Eu acho isso meio bobo, afinal a lógica das mensalidades é de ter acesso a algo todo mês, e depois disso o material acessado é seu, não é devolvido a editora. Mas enfim, quando encontrar o Mona para tomarmos uma cerveja trocamos essa idéia.

49:00 – 58:00: A moça que fala baixo e estranho pergunta novamente, desta vez sobre o que vende mais, livros impressos ou PDFs. Os debatedores são unânimes em responder que vendem muito mais livros impressos que digitais, em média em uma proporção de 10 para 1. Ao serem perguntados sobre a freqüência que encontram seus livros pirateados na internet, eles respondem que sempre (até a Secular tem seus livros pirateados!), mas Pramas diz que fica um pouco tranqüilo por saber que a maioria das pessoas que tem os livros nos computadores são apenas colecionadores de PDFs, que mal vão ler seus produtos depois do download, muito menos usá-los. Ele espera que os que o façam possam pelo menos serem incentivados a comprarem os livros da editora depois de verem a qualidade dos produtos.

Um cara faz uma pergunta estranha comparando o RPG, falando do Radiohead e tal, que descolado… Mona fala sobre estas inovações e como um editor deve ter coragem para tomar decisões arriscadas, e cita a estratégia de ter disponibilizado de graça a versão beta do Pathfinder, e que além disso eles imprimiram uma tiragem limitada dos livros, que se esgotaram nas primeiras horas da Gen Con. Ele diz que a estratégia de dar os livros de graça em PDF provavelmente ajudou nas vendas da versão impressa, já que depois de ver o documento eletrônico muitos queriam usar o novo sistema em suas mesas de jogo. Mas que o teste final será na Gen Con desde ano, quando a versão definitiva do livro será colocada a venda. Aí sim a estratégia se mostrará bem-sucedida ou não.

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