O sucesso (ou não) da 4ª edição segundo a Goodman Games

É eu sei, o último post por aqui aconteceu tem mais de 10 dias, e nem era sobre RPG. Prometo que essa semana será mais agitada, já tenho algumas novidades engatilhadas, inclusive uma nova série de matérias que já estão escritas (embora não sejam exatamente inéditas também!). Mas deixando a choradeira de lado, este fim de semana meu brother Giltônio me apresentou dois textos interessantes, ambos escritos pelos cabeças de duas das maiores editoras do mercado d20 – Joseph Goodman da Goodman Games e Clark Peterson daNecromancer Games, tratando justamente do sucesso e aceitação da 4ª edição do Dungeons & Dragons. Farei então dois posts gêmeos naquele modelo AC clássico, ou seja, copiando aqui os textos em inglês e como de praxe fazendo meus comentários impertinentes.  Hoje vamos vamos começar pelo nosso amigo Goodman esuas (longas) opiniões sobre a 4ª edição:

Hi everyone,

I really like gaming, game stores, and playing games, and it is for these reasons that I traditionally do not discuss the business side of the industry in public forums. In the 3E era I kept my head down and just focused on publishing good product. This worked out pretty well, and now many gamers perceive Goodman Games as one of the more successful RPG publishers. All this happened without “Joseph Goodman” being well known. You know who runs Malhavoc and Green Ronin and Necromancer and Paizo, but I routinely encounter fans who have no idea why Goodman Games has “Goodman” in the name. That’s how I like it.

Now, eight years into the business, I feel compelled to write my first personal note on the business side of things. Welcome to “Joe Goodman’s first commentary on the business.” I write this primarily to portray what I consider to be the facts of certain elements of the business, particularly the success of fourth edition D&D.

First, a little background. I own Goodman Games but don’t run it full time. Goodman Games has an outstanding staff who do most of the product development, run the tournaments, handle the shipping, etc. I personally have a full-time “business job” at a Fortune 50 company, where I manage a large staff running a billion-dollar division. Goodman Games is an extremely enjoyable outlet for my love of the hobby, but it’s not how I pay my bills. I do it for fun because it is something I absolutely love to do. I wrote my first RPG at the age of 10, self-published my first work at 17, had my first professional contract at 18, had my first staff writer job at 21, and have been involved professionally in the gaming industry ever since.

Como vocês devem ter percebido aqui o forte do Goodman não é exatamente a modéstia e isso se agrava um pouco no decorrer do texto. Mas não deixem que isso entre no caminho do que ele quer dizer, já que algumas idéias bem interessantes aparecem pela frente.

I believe brick-and-mortar hobby stores are the lifeblood of the industry. This is for a couple of reasons. First, it is these stores that introduced me to the hobby, along with many other gamers. Sword of the Phoenix in Atlanta, GA was the store I shopped at for years. It was there that I discovered not just D&D, but also Ral Partha and Grenadier miniatures, Warhammer 40,000, Space Hulk, and many of the other games that I played obsessively as a child. Hobby stores are the single best way to introduce new gamers to the hobby. No online experience can match this.

Second, hobby game stores serve as community centers. It’s not even “the best” game stores that do this; even the ones without gaming space have bulletin boards, well-connected staff, and affiliations with local cons. When you move to a new city or discover a new game, the hobby store is the best place to find new friends to play it with.

É claro que estamos em um processo de mudança  – tanto do formato da venda de livros, de RPG em especial com os PDFs bombando, e mesmo de comunidades e outros recursos digitais, que querendo ou não assumem boa parte do papel que as lojas e grupos que as habitam ocupavam a 20 ou 15 anos atrás. Então essas alegações do Joseph que as lojas “físicas” de RPG são o sangue da indústria me parecem carregadas de um saudosismo meio amargo. Porém é difícil ignorar que realmente o serviço destas lojas à comunidade de jogadores é de outro tipo, e seu efeito na agregação de jogadores de uma localidade é muito  diferenciado do oferecido pelas alternativas online.

Um exemplo claro disso pode ser visto em minha amada cidade, Belo Horizonte. Nos início dos anos 90 a Leitura, maior rede de livrarias daqui, fez um belo investimento nos RPG’s, dedicando o segundo andar de sua maior loja ao jogo, contando inclusive com um espaço para grupos e uma noite (se não me engano, às quartas) onde mestres contratados pela livraria o ensinavam aos novatos e curiosos. Toda uma geração de jogadores começou ali, este que vos fala inclusive, embora já tivesse tido contato com um livro jogo do Steve Jackson. Depois apareceram outras lojas, mas no fim dos anos 90 tanto estas lojas fecharam como a Leitura se tornou um lugar inóspito e hostil para os jogadores, e o resultado foi a desarticulação e fim dos grandes eventos de RPG em BH. Enfim, embora eu não ache que as lojas físicas sejam o sangue ou a base do mercado de jogos, não tenho como ignorar o efeito positivo que elas possuem em suas bases locais, embora isso muitas vezes seja ofuscado e desconsiderado nos espaços de discussão da internet. Mas voltando ao Goodman:

Third, speaking as a businessman, hobby stores are by far the largest market for games. The online market (including print, PDF, and POD) simply can’t compete. As Goodman Games has matured into one of the standard stocklist items for typical game stores, I have seen my overall sales base grow steadily while online sales have dwindled. Online sales now make up a tiny fraction of Goodman Games sales. Yes, PDF sales are the fastest-growing sales segment, that is true, but the hobby market is HUGE compared to the online market – orders of magnitude larger. If you support retailers, they will support you, and that effort pays off tenfold. (There’s a reason Wizards could pull their entire PDF backlist without blinking an eye. Those of us with good retail distribution are among the few observers to understand this.)

Essa parte é meio óbvia – ninguém espera que o mercado de PDFs, ou mesmo de vendas online em geral (contando também com print on demand e livros físicos vendidos por livrarias virtuais), seja maior que o de livros vendidos através de lojistas convencionais. E como ele mesmo reconhece, as vendas de PDF são as que mais crescem no mercado, e aposto que as vendas por livrarias virtuais como a Amazon só aumentam a cada dia visto seus descontos absurdamente bons. Então como o próprio Joseph indica, a realidade que temos hoje pode ser bem diferente da que teremos em alguns anos. E será que as lojas físicas se manterão tão importantes assim se não se adaptarem?

It is because of this belief in game stores, and my own personal retail experience, that I focus many of my product development and marketing efforts on strategies that benefit not just Goodman Games, but also retailers. These strategies have included Free RPG Day, a first of its kind in this industry; my annual May sale, which no other RPG publisher does; and the DCC spinner racks which I supplied to hundreds of retailers a couple years ago. These are the promotions consumers can see; there are many others, behind the scenes, that retailers have seen.

I mention these retailer promotions because they are feedback channels that don’t exist for other publishers. There isn’t another third-party RPG publisher that has shipped spinner racks to several hundred stores and gotten feedback on how it affected sales. There isn’t another third-party RPG publisher who runs an annual sale through distributors. And so on. As a result of these efforts, I get feedback through a number of different channels. Sales numbers are a form of feedback. Personal conversations with retailers are a form of feedback. But direct retailer feedback is a significant feedback channel for me, and one that I believe is much more significant for me than for most other third-party publishers. Those of you who follow these forums have seen my Game Store Review Thread, and have a sense of just how frequently I visit stores.

It is based on these feedback channels that I evaluate the industry. These are my “senses,” if you will. Goodman Games is not an imprint that publishes through other companies, multiple steps removed from distributors and even further removed from retailers. Goodman Games is not a company founded on online and subscription-based revenue streams. Goodman Games is a different sort of company from the rest. Goodman Games — and Joseph Goodman — are about as close as you can get to the pulse of retailers, within the third-party RPG publisher segment.

Ok, nós entendemos – A Goodman dá uma força aos lojistas e uns brindes descolados como estratégia diferenciada no mercado, o que parece ser bem esperto mesmo. E com base neste canal direto com os lojistas ele banca sua análise sobre a 4ª edição, que é o que realmente nos interessa aqui.

And now to the question at hand: How is 4E doing?

4E is doing well, very well. I’ll define the parameters of “well” below. First, let’s dispel a couple myths.

Myth #1: “We can publish the same book in 4E that we did for 3E, and use that as a yardstick for sales.” Simply not true. Log on to dndinsider.com and you’ll understand why. You have to understand Wizards’ digital initiative (and its many ramifications) if you intend to publish 4E books at all. Sales of many categories have changed based on what the digital initiative provides customers free of charge. Sales of character record books in 3E and 4E are apples and oranges, not suitable for comparison, and there are other categories affected as well.

Aliás que mito cretino hein? A edição 3.5 do D&D está no mercado tem seis anos (ou quatro se você escreve para a REDE RPG : ), enquanto a 4ª mal acabou de completar um ano, obviamente a base de jogadores da 3ª edição ainda é maior. Sem contar a diferença entre a variedade do que a GSL antiga permite fazer para a 3ª edição e o que a atual permite para a 4ª edição é gritante…

Myth #2: “Distributors do not support 4E.” Simply not true. The pre-orders on Dungeon Crawl Classics #53, #54, and #55 were larger than anything I had seen in years. More recently, Level Up #1 sold out its first wave of distribution sales in under 48 hours, then sold out the second wave of distributor restocks a week later, and distributors continue to place huge restocks. There is significant distributor support for 4E.

Outro mito que eu não entendi bem. Como assim os distribuidores não suportam a maior linha da maior editora de RPG e os produtos de outras empresas que derivam deles? Me parece meio burro uma empresa de distribuição de RPG boicotar o maior produto do gênero nos últimos 5 anos e todas suas ramificações.

Myth #3: “Retailers do not support 4E.” Simply not true. This sort of claim is where the debate breaks down, because one gamer can say, “4E isn’t selling at my local store,” and it’s hard to refute that. Store-by-store experiences do indeed vary widely, and the truth is that there are many individual stores where 4E isn’t selling well. It is these stores, and gamers who trumpet these stores, that have led to many claims regarding 4E not selling. What can I say to refute that? I will rely on my credibility regarding direct retailer feedback.

I’ve personally visited 47 different game stores so far this year. Yes, 47 — see viewtopic.php?f=1&t=5197 for some details. Next time someone tells you “4E isn’t selling at my local store,” remind him that he’s discussing 1 store. Aside from those personal visits, I’ve spoken on the phone with probably 100+ other game stores, gotten direct feedback via a Dungeon Crawl Classics sale (see list of stores in the download at http://www.goodman-games.com/dcc-sale-09.html ), sponsored another year of Free RPG Day (see list of stores athttp://www.freerpgday.com/stores.htm ), and run two Worldwide D&D Game Day promotions involving every store participating in Worldwide D&D Game Day (see http://www.goodman-games.com/WWDDD5-23.html and http://www.goodman-games.com/WWDDD3-21.html ). There are hundreds of stores that participate in each of these events individually, probably thousands overall if you compile the various lists. Naysayers who post claims of “4E doesn’t sell well at my local store” seem to omit these massive lists of supporting retailers.

Back to myth #3: “retailers do not support 4E.” Simply not true. Why not? Because Joe Goodman says so, and I know more about game stores than you do. Show me someone with the same list of credentials regarding direct retailer feedback, and I’ll back down. Until then, the statement stands.

Bom tá ai um mito que eu já escutei mesmo, que as lojas físicas não dão muito suporte a 4ª edição, principalmente na gringa. Mas novamente é algo que eu não sei bem dizer se faz sentido, afinal são elas que pelo menos em um primeiro momento estão perdendo dinheiro. E esse argumento das 47 lojas é meio dolorido pra mim, afinal embora seja muito maior que o número de lojas que o jogador médio visita em sua vida, por outro lado não deve representar um centésimo das lojas que vendem livros de RPG nos Estados Unidos. Mas vamos retomar a idéia que ele defendeu no início do texto -que a 4ª edição do Dungeons & Dragons está indo bem.

With these myths dispelled, let’s discuss the meaning of “doing well.” First, some historical context. Before I founded Goodman Games, I wrote a book on the history of this industry. It was something of a research project that turned into a book. I was planning to start a game company, and I wanted to do it right, so I researched the history of the three primary publishing categories. Most of the gaming history that gets published these days is product-focused, with an emphasis on creators, artists, inspirations, and the like. My research was focused on the business strategies of the companies involved. For example, in the early 1980’s when Games Workshop got the license to produce official D&D miniatures from TSR, they did absolutely nothing with it and effectively used it to shut down their competitors so they could launch their own fantasy miniatures line. Has anybody else here studied the retail locator lists in White Dwarf magazine over the 1980’s? Cross-reference the independent hobby shops listed in the early 1980’s against the addresses of the GW company shops listed in the late 1980’s. It’s fascinating; you can see the pattern of how GW opened shops in close proximity to their hobby accounts. If you ever want to learn actual TSR sales figures, do your homework and find all the lawsuits against them. It’s all public record, and I’ve read it all. Dave Arneson sued TSR three times for unpaid royalties, and each of the court filings lists TSR sales figures for the years where he challenged.

All of this research (which I ultimately decided not to publish) forms the historical context for my opinion of D&D 4E. Dungeons & Dragons has had two, and exactly two, peak years. The first was 1982. The second was 2001. The mid-80’s were a declining period, and the 90’s were a trough. From a business perspective, the creatively-much-admired 1970’s were really a low point for D&D. Fast growth, but very low sales volume compared to the years to come.

Queria muito ler esse livro não lançado sobre a história da indústria através da perspectiva nas estratégias adotadas por cada companhia, deve ser foda! Aliás essa jogada maléfica da Games Workshop de conseguir os direitos das miniaturas da TSR, não lançar nada para D&D, e em seguida criar sua própria linha de miniaturas que até hoje é o foco da empresa é um clássico, já li sobre isso em fóruns da ENWorld e RPG.net.

Sobre os dois anos de pico do D&D: 1982 é o ano seguinte após o lançamento do D&D Basic Set Revised, e 2001 ano seguinte ao lançamento do Dungeons & Dragons 3ª edição. Dois anos em 35 parece meio estranho, ainda mais sem termos os números de venda em mãos não é? Mas vamos seguir a linha do argumento do nosso chapa Goodman:

From 1974 to 2009 is 35 years. Or, roughly two generations. D&D has roughly one peak every generation. 35 years total, 2 of which were great, and the other 33 of which were “okay.”

But what do people compare 4E to?

One of the two best sales years in the past 35 years of D&D. Not the other 33 years.

Is 4E doing as well as 3E sales in 2001? Definitely not. That was the high point in a generation.

Is 4E doing as well as D&D sales in the times of 1974-1981? 1983 through 2000? And approximately 2002 through 2008?

Yes.

So, is 4E doing well?

Yes. In the 35 year history of D&D, we stand at a high point. D&D is selling more copies, reaching more customers, supporting more game stores, than it has during most of its history.

Ok, a 4ª edição desde seu lançamento em 2008 não foi responsável por um gigantesco pico como visto em 1982 e 2001, embora isso também possa ser reflexo de outras circunstâncias – como o cenário econômico por exemplo. O problema desta análise é que não tem muita granulação: dentre os 35 anos de Dungeons & Dragons, dois foram de pico, onde as vendas foram excelentes, e os outros 33 simplesmente “ok”? Certamente devem ter rolado um bocado de anos ruins também (final dos anos 90 eu estou olhando para vocês…). No fim das contas, o Goodman acaba fazendo o que eu não achei que faria no início do artigo, que é comparar o sucesso de vendas da 3ª edição com o de sua sucessora, para então chegar a conclusão que embora não tenha sido (ainda) um marco no aumento de vendas e jogadores como foi a 3ª após seu lançamento em 2001, ela está indo bem em comparação com outras edições e mesmo outros períodos da terceira edição, como seu final em 2005-2007.

Will 4E do as well as 3E?

Maybe. But frankly, who cares? That’s like asking if 4E will do as well as AD&D did in 1982. Or as well as 2nd edition did. Or as well as the little white box. Anybody who’s ever had a job where they’re accountable for sales numbers — and I’ve had a lot of these — knows that there are some marketing events that simply hit the ball out of the park. 3E was one of those, and it will be hard to top for a generation to come. It was a once-in-a-generation feat, just as D&D sales in 1982 were a once-in-a-generation feat. For twenty years following 1982, D&D sales never recovered their peak. Twenty years. From the vantage point of 1983, was D&D dying? In 1983, you could have said that. The twenty-year decline was starting. But D&D went on to have another peak in 2001.

From where we stand now, at the very beginning of 4E, I see a long, strong run ahead of us. Just as in 1982, it may be another twenty years before the generational peak of 3E is reached again. Or it could be next year, when the economy improves. Just as in 1983, who can say?

In the meantime, there are thousands of game stores clamoring for 4E product. And I’ll be here publishing it for a long time.

That’s all from Joseph Goodman, signing off from business-oriented posts for another eight years.

Bom fica meio vago assim não é, afinal nos resta esperar um outro boom do Dungeons & Dragons, que pode acontecer amanhã ou daqui 25 anos… Mas a idéia do artigo, que sobrevive a seus recorrentes desvios do assunto, é que a 4ª edição pode não ter sido o sucesso de vendas e de aumento de jogadores que muitos esperavam (provavelmente a própria Wizards), e que em comparação com dois momentos de auge do jogo ela não teve o mesmo alcance ainda, mas que de acordo com a história geral do D&D desde a década de 70 também não é um fracasso retumbante. Aliás, não é mesmo. O curioso e que acho que falta ao Goodman comentar, é que os dois anos que ele considera de pico do D&D são exatamente seguintes aos anos de lançamento de um nova versão do jogo, embora existam algumas falhas nessa idéia já que 1990 não apareça na lista, acho que a expectativa é que 2009, pelo volume de lançamentos e mudança dos jogadores para uma nova edição, também desse indícios de que poderia se tornar um destes anos icônicos para o jogo, o que ainda não aconteceu.

Amanhã vou comentar a opinião do Clark Peterson da Necromancer Games também sobre o sucesso da 4ª edição do Dungeons & Dragons, mas desta vez com uma perspectiva bem mais negativa. E olha que conhecendo o Clark, um dos maiores aliados da WotC no lançamento da 4ª edição e sua complicada GSL, eu realmente não esperava um visão tão pessimista após menos de um ano de lançamentos!

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