Relato do 1° RPGCON!

Cheguei a algumas horas do 1° RPGCON que aconteceu neste fim de semana em São Paulo, e bem, só posso concordar com a maioria esmagadora das pessoas com que conversei após os dois dias de evento: o RPGCON superou todas as minhas expectativas!

Como todo mundo que acompanha as notícias do RPG nacional está cansado de saber, o Encontro Internacional de RPG não aconteceu este ano, e para preencher o vácuo deixado pelo mais tradicional evento de RPG do país uma força tarefa formada pelo pessoal do D3system, Caravana Surreal e Grupo Céos se uniu para elaborar a RPGCON em impressionantes 63 dias.

Tendo em vista o prazo ridiculamente pequeno dos organizadores, tanto eu como o Tiago fomos pra SP esperando um evento pequeno e relativamente improvisado, e o que vimos foi não só um evento de RPG extremamente bacana, como na avaliação de muita gente, melhor que a última edição do EIRPG. Mas vamos voltar para o início…

Embora eu tenha ido para SP nos últimos 4 anos, esta viagem já começou melhor porque consegui uma liberação no trampo e tive a quinta e a sexta para fazer rolês de turista e aproveitar a hospitalidade do meu grande chapa Ig. Foram dois dias de muitos rangos fodas e passeios divertidos, e que me salvaram o sábado e domingo para ficar por conta do RPGCON. Chegar no evento no primeiro dia foi fácil, o colégio Notre Dame fica bem perto de uma das saídas da estação Sumaré, e lá a entrada estava tranqüila sem grandes filas ou tumultos. A entrada dava de frente com o pátio (se não me engano chamado de área vermelha pela organização), principal parte do evento onde uns oito ou dez stands ficavam no centro, com lojas da Devir/D3system, Caravana Surreal (que estava vendendo material da Jambô e da Daemon), lojas deboardgamescardgames e romances, e contava com um pequeno palco onde os animadores do evento – um cara que falava demais e uma garota lindinha do anime ficaram botando pilha na galera e organizando uma série de atividades divertidas.

As salas de aula em torno deste pátio também foram utilizadas, e em duas delas estavam instaladas o leilão de livros usados – uma nas quais ficavam os clássicos refugos da Devir e algum material da D3store, e na outra onde estavam quadrinhos, romances e material deixado a venda pelos próprios jogadores. A divisão das salas não me pareceu muito intuitiva, mas a organização das caixas estava excelente, de longe dava pra sacar o que tinha em cada uma delas, o que tornou a busca mais fácil e rápida. Um dos resultados foram as filas minúsculas, em alguns momentos inexistentes, era só chegar e entrar na sala para caçar, algo inimaginável nos EIRPGs. Ponto para o Jaime e a organização! O lado negativo foi a diversidade menor de títulos, já que parece que pouca gente levou livros para vender, que conseqüentemente ficaram meio sufocados nos encalhes da Devir, e a ausência de um porta volumes na sala do leilão, um problema antigo do EIRPG que ainda não foi solucionado.

Depois de uma breve busca pelos stands, me aventurei pelo leilão mas ainda estava me familiarizando com a parada e o novo espaço. Logo uma das maiores falhas do RPGCON ficou evidente – a falta de sinalização. Eu devo ter ficado uma meia hora com duas mochilas nas costas caçando um guarda volumes, e mesmo algumas pessoas da organização não souberam dizer se havia ou não a parada no evento! Ok, foi meio burrada minha, afinal o guarda-volumes ficava do lado da entrada, mas a parte de divulgação interna das atividades e espaços realmente deixou a desejar, e eu não devo ter sido o único que mesmo após passar o sábado inteiro no evento, só fui descobrir a praça de alimentação oculta do outro lado do colégio na tarde de domingo!

A manhã de sábado também teve dois destaques para mim: o primeiro foi chegar na sala de blogs, em um espaço bacana da biblioteca e perceber que estava praticamente vazio. Ironicamente, o II° Encontro de Blogs de RPG, que foi o catalisador do RPGCON não aconteceu, pelo menos não nos mesmos moldes do ano passado. Isso não por culpa da organização, mas um vacilo dos próprio blogueiros, que preferimos ter uma sala exclusiva nos dois dias, ao invés de marcarmos um horário para sentarmos e trocarmos idéias. Resultado: uma sala bem esvaziada 90% do tempo do evento, já que a galera estava espalhada participando e cobrindo do evento. Tiro no pé e lição aprendida para 2010!

A segunda parada inusitada foi ser convidado junto com o Tiago pelo Wallace para participar da palestra sobre o mercado de livros de RPG em PDFs junto com o Norson da Daemon, já que aparentemente as outras duas pessoas que se propuseram a palestrar sobre o tema desistiram de ir ao evento. Topamos na hora para dar uma força e não deixar a programação esburacada, embora eu tenha certeza absoluta que se tivéssemos nos preparado a discussão seria ainda melhor. Com algo tipo uma hora e meia para nos preparamos, eu e Tiago fomos almoçar com o Salomão “Tek” e Frederico “CF” em uma cervejaria/boteco ajeitada perto do evento, com uma ótima relação custo benefício x quantidade de comida.

De volta ao RPGCON corremos para a palestra, que rolou no auditório perto das mesas de jogos, uma área que eu visitei bem pouco, mas que estava sempre lotada quando eu passava por ali. O Norson já havia começado a palestra e fez ao mesmo tempo uma defesa do formato de criação de RPG através de PDFs, mas uma crítica ao modelo de vendas, e foi muito bom poder participar de uma discussão, onde embora os dois lados tivessem divergências, como na questão da pirataria e seu efeito nas vendas, os argumentos eram lógicos e apresentados de maneira amigável e construtiva. Enfim, é um prazer debater com quem sabe fazer isso sem levar para o lado pessoal ou se exaltar. A minha única crítica, que se expande para além desta palestra,é em relação ao tempo: uma hora para a apresentação de duas ou três pessoas, seguidas de perguntas da platéia me pareceu muito pouco, e em várias das palestras que participei a atividade teve que ser encerrada justamente em seu momento mais animado e interessante, que são as perguntas do público.

Depois da palestra sobre PDFs rolou a clássica palestra das editoras, que na minha opinião manteve o mesmo fluxo de queda de qualidade e relevância que estava seguindo no EIRPG. Participaram apenas três editoras – Daemon, Devir e Jambô, e esta última foi representada pelo Marcelo Cassaro e Trevisan, que embora sejam funcionários da editora, são os cabeças de Tormenta e dominavam mais este assunto, o que deixou outras linhas interessantes da Jambô em segundo plano como Mutantes e Malfeitores e Reinos de Ferro. A única grande revelação da palestra ao meu ver foi a promessa do Otávio, novo editor de Dungeons & Dragons na Devir de nada menos que nove (!!!) lançamentos até Janeiro de 2010. Citando o Nume do .20:

Segundo o Otávio estão sendo preparados para os próximos meses os seguintes títulos: Livro dos Monstros de D&D (previsto para julho), Livro do Mestre de D&D (agosto), Escudo do Mestre de D&D (agosto), Poder Marcial (outubro), Adventure’s Vault (outubro), Thunderspire Labyrinth (setembro), Forgotten Realms Campaign GuideForgotten Realms Player’s Guide (ambos prometidos para até janeiro de 2009 2010).

Acho que o Nume esqueceu ai a aventura H3 Pyramid of Shadows que o Otávio também prometeu até o fim do ano, fechando a surreal marcar de nove lançamentos em sete meses. Como diz o Daniel Anand, se saírem os dois básicos ainda este ano eu já fico feliz, imagina então os outros sete livros! Depois desta palestra fiquei zanzando e conversando com o pessoal até que juntamos uma pequena comitiva composta por eu, Tiago, Rogério Saladino e a adorável Germana, Trevisan e fomos para o Omalley’s, onde logo se juntaram a nós Tek, CF, Nume, Remo, Jamil e o Gustavo Brauner da Jambô junto com a Sra. Brauner. Foi bacana poder sentar e conversar tomando uma boa cerveja, mas por outro lado boa parte da galera deserdou do rolê e foi para a Luderia, e o próprio Omalley’s estava bem cheio e com um monte de mesas reservadas, o que impediu que a galera do Ambrosia e o Tsu, que passaram por lá rapidinho não ficassem com a gente. Uma pena, ano que vem é essencial reservarmos uns quarenta lugares independente de onde seja a cerveja pós-evento…

Domingo foi dia de fazer uma segunda peneirada nos livros e comprar algumas coisas, como um suplemento baratinho de Buffy RPG, dois de Feng Shui e um pacote com seis revistas Pathfinder com o adventure pathRise of the Runelords, que provavelmente são as aventuras mais bonitas feitas ano passado. Estou fortemente tentando a adaptá-las para 4ª edição e estragar toda as beleza do trabalho do Erik Mona e seus comparsas : )

Depois da tradicional sessão de compras e conversa com parceiros veio o almoço em outro PF tosco e bem servido, e uma sessão incrível de palestras legais que durou toda a tarde do segundo dia de RPGCON. Começou ao meio dia com a Oficina de criação de monstros para D&D 4ª com o Daniel Anand e o Davi Salles, a dupla do Rolando 20. Infelizmente eu perdi a palestra propriamente dita, já que estava almoçando, mas tive a oportunidade de ver um resumo no notebook dos caras um dia anterior e eles mandaram bem na preparação – quem acompanha o trampo deles no Rolando 20 sabe que tudo que os caras fazem eles fazem direito. Espero que coloquem a apresentação no blog logo!

Depois veio a palestra minha e do CF sobre as licenças D20/OGL/GSL, que foi misteriosamente renomeada de D&D 3.x e D&D 4e – Explicando a Guerra das Edições e suas conseqüências. Bom ignoramos o título e fomos para a explicação das licenças, que invariavelmente desembocaria em uma mini-edition wars no final, mas tudo sem perder a compostura. Demos muita sorte com o horário e pegamos um ótimo fluxo de pessoas chegando para o teatro de Caverna do Dragão e a palestra de 10 anos de Tormenta, e no meio da nossa humilde palestra o auditório já estava lotado e com algumas pessoas assistindo de pé. A parte das perguntas foi ótima com questões pertinentes e interessantes, quero muito pegar a gravação com o Nume assim que for possível. em breve eu e o CF faremos um post especial com o conteúdo da palestra, que eu devo colocar no D3system e ele no Covil, fiquem ligados.

Depois rolou o teatro do Caverna do Dragão, que eu não vi todo, mas pareceu ser engraçado, e a palestra de 10 anos de Tormenta, cujo ponto alto foram as anedotas do Trio (na verdade se apresentando como quarteto, já que o Jamil subiu a mesa) sobre a criação do cenário e as respostas as perguntas do público. Embora assumidamente eles não tivessem preparado nada para a apresentação, os caras são bons de freestyle e conseguiram entreter o auditório lotado por uma hora e meia com facilidade.

Depois da palestra, e de uma malfadada tentativa de fazer um encontro de blogs no improviso, rolou a Mesa de Vidro, um espaço para discutir com os organizadores os erros e acertos do RPGCON. Ótima iniciativa, um canal direito para tirarmos duvidas e darmos sugestões para próximas edições do evento, que funcionou super bem e mostrou um amadurecimento tanto do público, que fez críticas reais e construtivas, como dos organizadores, que puderam falar da correria de fazer algo deste porte em dois meses e receberam as críticas e sugestões com tranqüilidade. O espaço acabou servindo como uma celebração e reconhecimento do esforço conjunto de pessoas apaixonadas pelo hobby, mas que teve um momento estranho e desagradável que quebrou um pouco o clima festivo e tranqüilo da discussão: Em um determinado momento, quando alguém citava as conquistas e avanços do RPGCON em relação ao EIRPG, a Janaína do Grupo Céos, uma das organizadoras do evento, comemorou na mesa o avanço do RPGCON em ter “finalmente expulsado os otakus do evento”. Ok, momento bizarro, todo mundo rindo nervosamente… Minutos depois, logo após a mesma organizadora falar um monte sobre como a direção do Colégio Notre Dame, um colégio de madres, foi compreensiva e não se prendeu a preconceitos ao liberar o espaço para um evento de RPG, sei lá porque ela retoma o assunto do ódio aos otakus, comemorando o lance de haverem poucos fãs de anime presentes no evento. Obviamente em um auditório lotado dentro de um evento de RPG haviam pelo menos uma dúzia de fãs de anime, que reclamaram e questionaram a posição bizarra da organizadora. Quando um cara da fileira da frente disse das apresentações de cosplay, e que ele mesmo se considerava otaku, a Janaína não se conteve e disse que ele não era otaku, e em um salto lógico que eu não acompanhei, otakus são otários, um jogo de palavras criativo o suficiente para deixar Humberto Gessinger corado de vergonha.

Quem me conhece sabe que eu não sou fã de animes, e geralmente sou preconceituoso e chato com eles. E freqüentemente me sinto idiota quando avalio meu comportamento perto das gatinhas do cosplay ou dos doidinhos com as plaquinhas. Se eu me sinto idiota por às vezes ser estúpido e preconceituoso na intimidade com meus amigos e mesmo sem representar nenhum evento, ou iniciativa, imagina o quão cretino eu avaliei o comportamento da minha colega de preconceito em frente a umas trezentas pessoas falando em nome de uma parada foda como o RPGCON? Essa é uma postura péssima e estúpida se você fala em seu nome, mas é simplesmente inaceitável que um organizador de evento fale na tora que boa parte do seu público é idiota. Inclusive o Nume veio me falar que um dos caras que estava na platéia é um dos cabeças o Tek veio me falar depois da mesa que um funcionário da JBC, editora de mangás estava por ali. Acho que ano que vem nem adianta tentar patrocínio com eles…

Fiquei pensando um monte se deveria postar sobre isso aqui. Minha postura em relação ao RPGCON não é neutra. Eu dei palestras, ajudei a criar o hype, e se morasse em SP talvez tivesse ajudado ainda mais, porque acho a iniciativa maravilhosa e o esforço dos caras, incluindo a Janaína, louvável. E sendo totalmente favorável ao evento, pensei até onde seria inteligente reproduzir a fala infeliz da organizadora aqui. E resolvi fazê-lo não por um compromisso com “A  Verdade” ou algo que o valha, mas porque foi algo que me incomodou tanto como jogador de RPG, galera que de forma generalizante adora se sentir perseguida e rejeitada, para logo depois destilar seu preconceito e suposta superioridade sobre os outros; como também alguém que aposta na continuidade do evento e acha que um vacilo desses pode queimar a parada de uma maneira fodida. E embora tanto o D3 tenha dito que aquela opinião apresentada pela Janaína não era da organização, como o Wallace tenha falado literalmente que se considera um otaku, fica uma posição discordante, que para além de tosca, passa uma falta de profissionalismo no sentido mais estrito, já que alguém da organização estava comemorando que uma parte do público pagante tradicional deste tipo de evento não tenha comparecido, e graças ao comentário dela pode realmente nunca vir a aparecer de forma maciça em um RPGCON.

Tirando este que pra mim foi o maior deslize da organização, já que diferentes dos outros não pode ser justificado pelo tempo exíguo de preparação ou falta de patrocínios, o RPGCON foi um evento surpreendente que agradou aos mais diversos públicos. Era notória a satisfação de grande parte dos visitantes no fim do segundo dia, e não foi uma ou duas vezes que ouvi desconhecidos comparando positivamente o evento com o EIRPG. Não me lembro de nos 4 EIRPGs que participei de uma tarde tão cheia de atividades interessantes e lotadas como foi a de domingo, e esse pra mim foi o grande diferencial – o RPGCON tinha muita coisa para se fazer e muitas coisas para se visitar. Tanto que eu nem conversei o quanto queria com vários conhecidos e amigos que estavam por lá, e isso é definitivamente um bom sinal comparado com o tédio das arquibancadas do EIRPG.

E parece que os organizadores também chegaram ao final do domingo otimistas. O pessoal estava dizendo que o primeiro dia do evento teve um público pagante de 1250 pessoas, e o domingo parecia estar ainda mais cheio, e na própria mesa de vidro o D3 anunciou que vai rolar um RPGCON 2010 mesmo que a Devir volte com uma versão reestruturada do EIRPG, o que segundo ele é muito provável. Se isso realmente acontecer teremos o EIRPG em Julho e o RPGCON em Outubro, perto do feriado do dia 12. E na saída do evento era possível escutar rumores sobre uma segunda edição ainda este ano no Rio de Janeiro… Seria um resultado impressionante para um evento feito em 63 dias não é?

Bom, um monte de outros blogs fizeram uma cobertura mais eficiente e interessante que essa e vou colocar os links aqui. Quem tiver algo sobre o evento que eu não tenha citado por favor mande pelos comentários que eu atualizo aqui na matéria ok?

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