Curva de Desenvolvimento – E no início, era o verbo…

Hoje falaremos sobre um assunto interessante, um no qual você deve esbarrar enquanto desenvolve o seu próprio cenário de fantasia: a criação. Se algo tem um meio, é provável que tenha um princípio (e um dia talvez tenha um fim…), e por isso a maioria dos mestres se preocupa sim em explicar como se deu a origem de seu mundo, seja no momento em que ele está sendo criado, seja no futuro, quando os personagens forem jogados contra evidências que explicam (ou pior, complicam) a origem do universo conhecido.

Existem muitas e diferentes aproximações para o tema (falaremos delas daqui a pouco), mas o primeiro passo a ser tomado é escolher a perspectiva criativa do seu cenário. Em outras palavras: Deus criou o Homem ou o Homem criou Deus? Bem, é possível ter uma campanha já em andamento e ainda não ter solucionado essa pergunta, bastando para isso que ela não tenha sido relevante enquanto seu jogo engatinhava. Talvez você tenha optado pela criação através do microcosmo, onde não existia nada fora do vilarejo dos personagens, até eles resolverem sair dele. Se essa foi a sua perspectiva, é bem provável que só agora esteja pensando em como o mundo foi criado.

Por outro lado, muitos mestres gostam de trabalhar de cima para baixo. Eles só começam a narrar uma história depois que já sabem certas minúcias sobre o cenário de campanha, e uma delas provavelmente será: como tudo teve início. Na maior parte do tempo, essa informação está oculta dos personagens, e também dos jogadores; trata-se de um pano de fundo, e o quão importante ele será depende apenas de você. É interessante gastar um certo tempo escrevendo algumas linhas sobre a real criação de seu cenário. Como veremos mais adiante, isso não precisa corresponder à visão geral.

Uma vez que tenha decidido a real história da criação do mundo, você pode determinar o quão importante ela será no jogo em si. Quem a conhece? O quanto conhece? Será que seus elementos são reconhecidos por uma ou mais religiões? Você pode primeiro responder essas perguntas, ou pensar inicialmente se deseja ou não que a criação seja um aspecto fundamental. De qualquer forma, diante de suas próprias respostas, você já saberá que efeito ela exercerá sobre o cenário.

A PERSPECTIVA RELIGIOSA

Neste quadro, temos várias ordens ou seitas religiosas apresentando diferentes formas de dizer como o mundo foi criado. Se alguma delas está certa ou não, cabe a você dizer, mas para o cenário de campanha, nenhuma delas está errada até que se prove o contrário. Religiões estruturadas em panteões costumam associar as diversas facetas da criação a diferentes deuses. Cultos monoteístas possuem uma visão um pouco mais simples, no sentido de que um único deus é geralmente responsável pela criação do todo, e não é necessário explicar as diferentes delegações de funções.

Formas diversas de encarar a criação do mundo são um bom exemplo de como começam os conflitos religiosos. É um dos pontos onde tipicamente existe a maior divergência entre facções, e onde a intolerância aflora com mais intensidade. Se você tem interesse em explorar o fundamentalismo e os conflitos religiosos em seu cenário, este é um ponto excelente para começar.

A PERSPECTIVA CIENTÍFICA

Trata-se de uma perspectiva que prevalece pouco em cenários de fantasia. Este é o exemplo máximo da visão de que “o Homem criou Deus”. Embora não seja comum na maioria dos cenários, talvez você queira fazer diferente, e elabore facções de pesquisadores de ciências naturais (muito como os filósofos da Grécia antiga) que passam seu tempo divagando sobre a natureza das coisas, e podem até mesmo chegar a pensar em um mundo que evoluiu a partir de um ponto zero, sem a necessidade de uma figura divina para conduzir as coisas.

Esta ótica é típica de sociedades avançadas, e não se entrelaça bem com o cenário de fantasia típico, mas cabe a você decidir o quão avançados são os povos de seu cenário. É importante frisar que, uma vez que tenha tido acesso a pensamentos tão vanguardistas quanto teorias não religiosas sobre a criação, uma sociedade tende a abandonar o misticismo e se aventurar em caminhos de lógica e método científicos. Até onde eu sei, esta não é a aproximação que a maioria dos mestres deseja para seus cenários de fantasia.

A PERSPECTIVA RACIAL

Neste cenário, temos diferentes mitos de criação, cada um deles associado a uma raça de fantasia, que provavelmente vai colocar a si mesma (ou a algum ancestral mítico) no topo do processo de criação. Esta aproximação é mesclada com a perspectiva religiosa em muitos cenários, e muitas raças possuem um mito de criação que mistura religiosidade e exaltação de seu próprio povo.

Diferente da perspectiva religiosa, no entanto, aqui não vemos a contradição entre as visões de cada raça se degenerar em conflito aberto. Trata-se mais de uma questão de uns dizerem aos outros: “vocês estão errados”. Obviamente, o que um pensa faz pouquíssima diferença para o outro; seria estranho se um anão se importasse com o fato de que um elfo não acredita em sua versão para a criação; ele é um elfo, não deveria se esperar coisa boa deles mesmo…

Um ponto interessante da perspectiva racial é que ela pode gerar conflitos interessantes, mas com os quais apenas grupos maduros estão preparados para lidar. Estou falando de coisas como preconceito racial e, nos casos mais extremos, tentativas de limpeza genética. Uma perspectiva racial pode não estar separando duas raças, mas sim duas etnias, momento em que as tensões podem se tornar insustentáveis, pois é comum que vários braços de uma mesma raça sejam obrigados a conviver. Se você não se sente preparado para lidar com esse tipo de conflito, é melhor deixá-lo de lado um pouco.

A LÓGICA MACROCÓSMICA

Talvez você ignore a maior parte do que foi dito acima, e decida que vai fazer as coisas de uma forma simples, porém utilizada na maioria absoluta dos cenários de fantasia. Esta visão está para “Deus criou o Homem” assim como a perspectiva científica está para “o Homem criou Deus”, e adota uma lógica muito simples: existe uma verdade universal, e ela é conhecida (pelo menos em parte) pela maioria das pessoas.

Neste cenário, o plano científico nunca se desenvolve, pois os deuses são parte freqüente da estrutura do cenário, e todo mundo sabe que eles realmente existem. O mito da criação talvez seja 50% mito, mas é pelo menos 50% verdadeiro. Aqui, é natural que você escreva o relato da criação do mundo e só depois pense como ele será, baseado nisso. Tenho percebido que essa ótica é muito mais complexa do que deixa transparecer inicialmente, e a maioria dos cenários não lida com ela de uma forma muito correta.

Pense em nós seres humanos: como seríamos? Qual seriam nossas motivações se os maiores segredos de nossa existência não fossem segredos? Ainda sim o homem teria seu impulso pesquisador? A ciência avançaria se soubesse a explicação para a origem do mundo e das espécies que neles habitam? De certa forma, as incógnitas que cercam a nossa realidade nos impulsionam para grandes feitos. Estranho, mas cenários de fantasia tendem a ignorar isso, e pintar seus humanos exatamente nos mesmos tons daqueles que, desde a aurora do conhecimento, se perguntam, em vão, qual é a origem das coisas.

Bem, com tudo isso, espero que você consiga ver o melhor ponto a partir do qual poderá escrever sobre essa face importante do seu cenário de fantasia. Estejam aqui na próxima semana, e poderemos ir um pouco mais alto em nossas divagações.

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