Curva de Desenvolvimento – O Poder que Faz a Diferença

Olá! O artigo dessa semana apresenta o seguinte questionamento: Deuses ou não? Iremos analisar primeiro algumas possibilidades e motivos para a não existência dos Deuses em um cenário fantástico, uma escolha pouco usual, visto que embora a abordagem dos Deuses seja variada, a presença dos mesmos na maioria dos cenários de fantasia é uma realidade. No entanto, a ausência de deuses em um cenário faz com que ele se torne inusitado, e esta característica pode cativar alguns jogadores. Dessa forma, apresentaremos algumas idéias e alternativas para um cenário fantástico sem deuses.

O QUE SÃO DEUSES?

Essa questão será debatida novamente com mais detalhes em próximo artigo dessa série, mas podemos antecipar que o ponto inicial para a escolha da existência de Deuses ou não em um cenário é compreender a natureza desses seres poderosos. Essa é uma das mais difíceis questões filosóficas existentes, pois as definições para Deuses são diversas, variando de entidades cósmicas criadoras do céu e da terra a feiticeiros-reis de grande poder, sendo extremamente difícil definir com exatidão o que torna alguém ou alguma coisa uma entidade divina. Determinaremos de maneira simplista, os Deuses como sendo seres capazes de reger aspectos do mundo mortal. Evidentemente é uma definição que abre brechas para vários exemplos contrários, mas irá servir para nossa análise.

PROGENITORES

Neste tipo de cenário, os Deuses foram responsáveis pela criação de todo o universo (ou uma parcela importante dele), mas desapareceram após a finalização de sua obra. Por terem desaparecido logo no início da história, as sociedades se desenvolveram sem características religiosas particulares, embora possam eventualmente desenvolver sistemas filosóficos que sirvam, até certo ponto, como sistema religioso. Uma outra possibilidade é o florescimento de diversos sistemas religiosos, panteões e crenças nesse mundo, mas com nenhuma delas apresentando provas táteis da existência de seus deuses, com as religiões servindo como alicerce político, filosófico e social, em uma abordagem semelhante a nossa realidade.

Assim, o poder mágico decorrente dos Deuses não existe, ou existe de maneira alternativa. A crença em alguns conceitos como Justiça, Paz ou Guerra poderia conceder poderes de maneira semelhante aos poderes dos servos dos Deuses; talvez as entidades progenitoras tenham deixado alguns locais imbuídos com poder divino, que poderiam ser utilizados para fins variados, indo da criação de itens mágicos carregados com energia dos Deuses a regiões inteiras permanentemente modificadas pela presença divina. A inexistência da magia divina porém pode gerar conseqüências interessantes. Sem magias de ressurreição e cura, normalmente associadas a magia dos Deuses, a vida se tornará muito mais dura, ou as ciências médicas irão se desenvolver muito mais do que o padrão dos cenários de fantasia. Uma outra possibilidade é um maior desenvolvimento da magia arcana, que poderá, nesse tipo de cenário, ser capaz de executar alguns efeitos associados normalmente à magia divina.

DEUSES CATIVOS

Em um cenário onde os Deuses sejam cativos, eles já estiveram presentes na vida dos mortais, mas alguém ou alguma coisa muito poderosa os prendeu, impedindo que sua influência seja exercida. O motivo dessa prisão, como ela ocorreu e o que foi responsável por ela são questões fundamentais aqui. Talvez os Deuses tenham sido aprisionados por sua própria magia, ao quebrarem um antigo acordo firmado em eras ancestrais, talvez o último Deus sobrevivente de uma batalha entre essas poderosas entidades esteja paralisado, com a espada de seu último adversário penetrando seu coração, ou forças mais poderosas que os próprios Deuses poderiam ser as responsáveis pelo cativeiro. Como a prisão dos Deuses irá afetar o cenário, irá depender da forma que eles atuavam no mundo mortal. Se caminhavam entre os homens, participavam de guerras e desenvolviam romances com os mortais, sua falta será rapidamente sentida. Caso atuassem de maneira mais discreta, poderia levar muito tempo para a falta dos mesmos ser percebida, de fato, caso ainda possam conceder poderes para seus servos do cativeiro em que se encontram, a própria prisão dos Deuses pode nunca ser notada, e nesse caso, não teremos um cenário sem Deuses. O desaparecimento dos poderes mágicos dos Deuses no mundo pode ocorrer de maneira gradual (sem seus poderes, a fé no Prelado-Superior foi abalada, provocando uma intensa guerra civil que causou profundas cicatrizes no Grande Império; A Igreja das Sombras é a única cujos sacerdotes ainda apresentam seus poderes divinos, seria seu Deus sinistro o único Deus verdadeiro, ou eles estariam conseguindo seus poderes de outra forma ?), ou de maneira abrupta (da noite para o dia, a Barreira Esmeralda se quebrou, libertando para o mundo antigos horrores escondidos na Floresta Sombria), ambas as alternativas apresentam possibilidades interessantes para o cenário de campanha.

Uma possibilidade nesse tipo de cenário, é a dos jogadores se envolverem na libertação dos Deuses, essa idéia é particularmente interessante para um mestre que procure uma campanha com tons notoriamente épicos, caso os jogadores sejam os protagonistas diretos dessa missão em especial.

DEUSES SILENCIOSOS

Os Deuses existem, mas não atuam no mundo mortal, estando absortos por demais em suas próprias questões e problemas. Se os Deuses nesse cenário eram antes particularmente ativos e então se silenciaram, é possível estabelecer um quadro de Deuses Silenciosos sem a análise da magia divina, caso contrário, só será possível constituir esse caso em particular se a magia divina não existir, ou for particularmente rara. O que irá diferenciar um cenário onde os Deuses não se manifestam de um cenário onde eles foram apenas os progenitores é que essa letargia divina não é plena, em algumas raras situações, os Deuses irão demonstrar que estão presentes, e observando. Seja através de conjuntos arquitetônicos enormes e abandonados, erigidos pelos Deuses em eras ancestrais a ilhas afundando e ardendo em fogo quando as transgressões ocorridas ali foram hediondas até mesmo para retirarem os Deuses de sua posição de observadores.

Um cenário onde os Deuses sempre foram silenciosos pode se assemelhar com um cenário onde os Deuses foram apenas os Progenitores, com a diferença que algumas raras manifestações divinas serão, muito provavelmente, suficientes para a formação de igrejas e cultos em homenagem a essas divindades particularmente distantes mas com a falta da magia divina sendo sempre uma questão relevante, embora em um cenário sem magia divina, a possibilidade da intervenção dos Deuses, mesmo que rara, surja como algo extremamente almejado, caso essa intervenção seja a favor dos fiéis de determinada religião. De fato, a própria existência desses cultos pode ofender os Deuses de alguma maneira, fazendo com que templos ardam em luz celestial de tempos em tempos (e talvez nesse processo servindo para confirmar que o Culto de Melkanoch, o Deus Escondido, esteve certo o tempo todo , já que o culto rival ardeu como uma pira durante toda a noite anterior). Em um cenário onde antes os Deuses eram ativos e de repente se calaram, requer a formulação de uma explicação para tal situação, que fuja a idéia deles estarem aprisionados, o que constitui outro caso. Essa explicação poderá ter grande relevância na vida dos personagens (a Companhia das Lágrimas Prateadas pode ter como principal objetivo provar aos Deuses que os atos hediondos cometidos pelo antigo Rei  já foram concertados, e que dessa forma, os povos das Terras do Norte já se redimiram de seus pecados).

PODERES CONCEITUAIS

A idéia dos Poderes Conceituais expande a sugestão dos Deuses Progenitores. Nesse cenário, os Deuses não existem, mas existem forças atreladas a idéias ou elementos naturais capazes de conceder poderes divinos. Assim, é possível obter poderes mágicos da crença na Justiça, na Lei, no Fogo, nos Mares…Esses conceitos podem agir de maneira divina, sendo “quase-poderes”, apenas não demonstrando a consciência característica dos Deuses; ou podem ser apenas um foco em particular, com o poder mágico em si vindo da própria crença e força de vontade dos fiéis. Independente disso, não existem Deuses tradicionais nesse cenário, as religiões serão focadas em conceitos mais simples, sendo menos alegóricas e mais diretas, o que não quer dizer que o antagonismo ou complexidade política das igrejas estará ausente. Por exemplo, Escudo Reluzente pode ser  uma cidade particularmente famosa por seus teocratas legalistas; As tribos das estepes do sul são um aglomerado de semi-humanos que possuem como hábito arremessarem os corpos de prisioneiros capturados para alimentarem suas enormes piras e fogareiros.

DEUSES MORTOS

Nesse cenário os Deuses uma vez existiram e foram presentes no mundo mortal, mas de alguma maneira, foram mortos. O motivo da morte dos Deuses  é muito importante. Talvez tenham morrido em uma batalha entre si, talvez tenham sido mortos por Deuses externos, de outros panteões ou cosmologias, talvez tenham sido mortos por entidades ainda mais poderosas. A morte dos Deuses gerou definitivamente mudanças profundas no mundo  mortal. Eventualmente, a magia divina parou de existir (alguns locais, talvez até mesmo o local da morte dos Deuses, ainda possam conter um pouco de poder mágico oriundo dessas entidades), embora esse processo possa ter sido variado (a morte de um Deus talvez não faça com que seu poder divino pare de ser provido da noite para o dia, de fato, uma possibilidade interessante é os primeiros efeitos da morte dos Deuses estarem sendo sentidos no cenário apenas agora, muito tempo depois do momento real de suas mortes). Caso os mortais não saibam que os Deuses morreram, podemos ter situações sociais semelhantes a apresentada em quadros acima, porém caso os mortais tenham consciência da morte dos Deuses, talvez até presenciando esse momento particularmente dramático, o terror pode ter se espalhado entre os todas as raças, ou os mortais podem ter se envolvido diretamente na morte dos Deuses, caso ela tenha ocorrido em batalhas, de fato, a mais sangrenta das batalhas de um cenário em particular pode ter tido os Deuses guiando pessoalmente exércitos de centenas de reinos mortais, e tendo como final a morte dos próprios generais divinos.  Na verdade, a própria natureza pode ter respondido a morte daqueles responsáveis pelo controle de algumas forças do mundo: A morte do Deus do Fogo pode ter feito todas as chamas do mundo se apagarem por uma noite; A derrota em combate do Deus das Trevas pode ter mergulhado em sombras todo um continente por um mês, devido a liberação de sua poderosa energia. Caso o mestre tenha interesse em se aprofundar na idéia de um cenário com Deuses Mortos, recomendamos o livro Requiem for a God, da Malhavoc Press, suplemento para o sistema d20 com dezenas de boas sugestões sobre como lidar essa situação em particular.

Existem muitas outras coisas interessantes a serem ditas sobre a divindade, então fiquem certos de que ainda voltaremos ao tema muitas vezes ao longo da nossa curva de desenvolvimento. Estejam aqui na semana que vem, para abordarmos um assunto que poderá elevar sua campanha a um novo nível.

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