Curva de Desenvolvimento – Quando a Ajuda Vem de Cima

Saudações mais uma vez! Hoje, continuamos nossa discussão sobre a cosmologia do cenário indo a um outro ponto relevante, porém nem sempre utilizado. Falamos da intervenção divina, o momento em que os seres superiores agem no sentido de afetar diretamente o cenário, geralmente para trazer alguma vantagem aos seus seguidores, ou para abalar as estruturas anteriormente estabelecidas. Acredite, introduzir os deuses como personagens relevantes num cenário pode parecer simples, mas não é. Assim, tentamos levar em consideração uma série de fatores ao considerar a presença divina em seu mundo:

OS DEUSES ESCOLHEM LADOS?

Essa pergunta é bem importante. Se os deuses realmente intervêm no mundo, eles os fazem por interesses pessoais, ou para fomentar as batalhas de seus seguidores? Na mitologia grega, em mais de uma ocasião, os deuses exerceram sua influência sobre o mundo por objetivos pessoais, que não tiveram muito a ver com seus seguidores. Zeus, por exemplo, era conhecido por suas escapadas, que geraram Hércules e Perseu, entre outros, sem afetar diretamente as pessoas que cuidavam de seus interesses (seus domínios, se preferir).

Por outro lado, durante a Guerra de Tróia, temos esses mesmos deuses gregos escolhendo lados, intervindo nos resultados, e protegendo diretamente seus seguidores mais fiéis. Para eles, realmente pouco importava quem ganharia ou perderia, o interesse dos seres divinos em rotas de comércio, ou nos direitos maritais de Menelau inexistiam; o que havia era a necessidade de proteger e defender aqueles que podiam ser considerados os melhores entre seus seguidores. Assim, Afrodite abençoava as flechas de Páris, enquanto Athena dava a Ulisses o melhor de sua sabedoria, fazendo dele um estrategista singular.

A intervenção divina em seu mundo de campanha pode dizer muita coisa sobre a personalidade dos deuses. Voltando à Grécia, não devemos esquecer que seu panteão era formado por seres de características bem humanas; vaidosos, impulsivos, ciumentos e arrogantes, assim como seus fiéis. A forma como escolheram se meter nos assuntos dos mortais muitas vezes reflete isso.

A INTERVENÇÃO DIVINA É SIMÉTRICA?

Na maioria dos casos, a resposta é não, mas você pode resolver fazer diferente. Quando temos uma divisão bem marcada entre o lado bom e o lado mau do panteão, os deuses bons não costumam intervir diretamente na vida das pessoas, preferindo que suas ações sejam sentidas de forma mais sutil. É claro que isso não os impede de enviar um representante, vez ou outra, para ajudar um seguidor em uma situação especialmente complicada. Mesmo esses, no entanto, não precisam ser figuras óbvias, como um anjo descendo sobre um campo de batalha. Os deuses maus, por outro lado, gostam de aparecer em toda a sua glória, atacando diretamente quando possível, e espalhando terror nos corações bons.

É possível trabalhar no caminho inverso? Sim, mas não podemos deixar de avisar que você estará pisando num campo onde a fantasia raramente se aventura (o que não deixa de ser algo bom!). O contato com as entidades boas tem um efeito estranho em seus seguidores. A consciência da própria razão não produz nos bons homens o comportamento que se esperaria. Eles tendem a se tornar opressores, caçadores do mal, e donos da verdade, se corrompendo por fim. A ironia maior é que nessa hora seus deuses simplesmente deixarão de vir ao mundo por eles, abrindo espaço para a chegada dos deuses malignos. Os fatos anteriores e posteriores a um marco como esse, por si só, dariam uma grande campanha.

A simetria nas intervenções divinas normalmente se dá através de regras. Nesses casos, muitos deuses evitarão agir diretamente, pois isso abre um espaço para que seus inimigos também o façam. Um cenário assim definitivamente carece de ações diretas dos deuses, valorizando os atos de seus seguidores.

QUAL É A FREQÜÊNCIA EM QUE OCORREM?

Essa é outra pergunta crucial, que está diretamente conectada à importância dos deuses em seu cenário. Os deuses de Krynn agem diretamente o tempo inteiro, pois seus interesses estão amplamente conectados ao mundo. Isso já surtiu bons e maus efeitos em relação a seus seguidores, pois nem sempre suas ações terminaram da forma esperada. Os deuses de Faerûn retiram seu poder da força de suas próprias religiões, então é natural que estejam sempre trabalhando para seu avanço. Os deuses de Eberron estão tão desconectados no mundo que pessoas cujos ideais agridem diretamente seu etos podem acabar participando da religião, até mesmo como sacerdotes!

A verdade é que deuses muito distantes podem acabar sendo esquecidos por aqueles que deveriam prestar homenagem a eles. Em seu cenário, você deve determinar a relação de cada deus com o mundo, para só depois decidir a freqüência com a qual eles utilizam seus poderes diretamente para afetar os acontecimentos.

Um cenário em que os deuses sejam figuras pouco presentes é um prato cheio para o aparecimento de seitas de falsos deuses. Trata-se de um elemento interessante de se explorar (e falaremos sobre elas em outra ocasião), cuja proliferação pode levar os seres divinos a reações diversas, desde a decisão de agir de forma mais direta no mundo, até acessos de ira, levados pelo orgulho.

Existem duas maneiras de determinar isso. Você pode dizer como são os deuses, para então determinar a freqüência com que ocorrem suas intervenções, ou pode primeiro definir a assiduidade dos deuses em relação aos seguidores, para depois explicar o porquê, descrevendo em mais detalhes o seu comportamento.

A QUEM FAVORECEM?

Esse é o detalhe final a respeito das intervenções divinas: para quem elas são direcionadas? Parece óbvia a resposta? Pois saiba que muitos deuses pouco se importam com os atos e movimentações realizadas por seus seguidores mais poderosos. Na verdade, eles já recebem intervenções todos os dias, na forma dos pequenos ou grandes milagres que são as magias divinas. Por isso, é natural que muitos deuses olhem para sacerdotes menores, ou mesmo para os não iniciados, que ainda sim permanecem firmes em sua fé.

Quando falamos em fantasia e em intervenções divinas, o personagem que imediatamente vai ao centro de nossas atenções é provavelmente um sacerdote ou paladino. Mas eles não formam a base sólida dos seguidores de um deus; mesmo porque, se os deuses legassem tudo a eles, não encontrariam seguidores em outros grupos. Será que você sabe como trazer a intervenção divina para outros tipos de personagem?

Um fator a levar em consideração é que ela deve ser mais sutil do que as magias conjuradas por clérigos e druidas. Essas “pequenas intervenções” parecem, aos olhos dos simples mortais, não mais do que uma manobra do destino. A poeira que voa nos olhos do inimigo do guerreiro, e a corda da forca que se arrebenta, encima da hora, para salvar o ladino condenado, não são mais do que formas que deuses sábios encontram de manter a fé, sem perder o véu de mistério.

Da próxima vez que pensar nas intervenções divinas em seu cenário de campanha, pense nos personagens menos prováveis, e talvez eles sejam os mais dignos de receberem um reforço divino numa hora inesperada. Como sempre, temos também que lembrar: intervenções divinas são acontecimentos especiais, não o arroz com feijão de seu cenário. Afinal, qual a diferença entre deuses que se intrometem demais e NPCs muito poderosos? Praticamente, nenhuma.

Bem, é o suficiente por hoje. Espero que, mais uma vez, tenhamos conseguido jogar um pouco de luz num assunto relevante nas construções fantásticas. Estejam conosco mais uma vez na semana que vem, e falaremos mais dos pequenos e grandes milagres da fé!

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