Curva de Desenvolvimento – Infinitos Mundos, Infinitas Formas

Agora que já definimos a Geografia de um cenário fantástico e seu panteão de deuses, chegou a hora de inseri-lo em algo muito maior: um multiverso!

O multiverso é a grande vastidão onde vários mundos estão localizados- mais do que as científicas galáxias, o multiverso trabalha também com locais conhecidos como “planos.” O nome “plano” nos remete ao horizontal; no entanto, um plano dificilmente será geometricamente determinado (de fato, matematicamente falando, iremos considerar que um plano é infinito- suas limitações serão as regiões fronteiriças com outros planos). O nome está muito mais relacionado a idéia de vários planos posicionados verticalmente, idéia comum em várias mitologias, onde existe o mundo material e vários reinos metafísicos, superiores ou inferiores a ele, em uma estrutura vertical (embora, como tudo nessa coluna, não se trate de uma regra).

A primeira pergunta a ser feita é: seu cenário fantástico precisa mesmo dos planos de existência?

Se ele não possui deuses, a morte é realmente o fim e a magia é fraca e inerente ao próprio mundo, ele não necessita obrigatoriamente de planos de existência. Caso contrário, algumas explicações planares precisam ser dadas. Primeiro, é necessário questionar onde vivem os deuses do seu cenário fantástico; eles vivem no mundo material ou habitam palácios inacessíveis aos mortais? A segunda possibilidade possivelmente será a resposta; nesse caso, teremos pelo menos um plano de existência além do plano material- a “residência dos deuses”. Considerando agora a morte em seu cenário fantástico: a morte representa apenas um estado biológico ou ela é imbuída de alguma característica metafísica? Caso o espírito dos mortos se dirija a algum lugar determinado, teremos outro plano de existência extra-material- a “terra dos mortos”.

Partindo desses dois pontos- “Residência dos Deuses” e “Terra dos Mortos”- podemos expandir nossos planos de existência. Talvez todos os deuses habitem um vasto palácio de mármore no alto de uma enorme montanha (talvez os mortais do plano material até vejam esse palácio- embora nunca possam chegar até ele por meios mortais); talvez residam em uma fortaleza de ossos nas costas de um dragão que vaga pelo multiverso; nesse caso, teremos apenas um plano como residência dos deuses. Uma possibilidade muito comum na fantasia porém é cada deus possuir um plano de existência, com esse plano refletindo as características de seu poderoso habitante. Assim, o plano de um deus da guerra pode ser um grande campo de batalha, onde recriações dos grandes combates do mundo material são repetidas indefinidamente; o plano do deus da crueldade surge como uma enorme vastidão, preenchida com fogo, espinhos, enxofre e grilhões. Nesse plano de existência, um deus é senhor absoluto; o plano é um reflexo de seu próprio ser, podendo refletir suas vontades, desejos e humores (ilhas-continentes inteiras são submergidas quando o Deus dos Oceanos se irrita em seu próprio plano; a felicidade da Deusa da Natureza é expressa em exuberantes primaveras em seu plano de jardins e florestas). O acesso a um plano de um deus se dá, primariamente, com seu consentimento- apenas aqueles que o deus considera, por algum motivo especiais podem adentrar em seus domínios (o que não precisa ser necessariamente claro: se aventurar na Montanha de Fogo, onde eu sem coração reside o lendário Portal de Bronze, que conduzirá aos reinos de ouro e prata do Deus da Terra pode ser motivo especial suficiente para um deus conceder tal honra!). A afirmação anterior porém pode ser falsa; talvez o acesso ao plano de um deus seja, por algum motivo (talvez acordos antigos entre os deuses, ou uma punição), alheio a sua vontade- a alternativa dos espíritos dos mortos também é trabalhada mais abaixo. Os planos dos deuses serão habitados por seres que representem suas características- assim, o plano do Deus dos Oceanos será povoado por toda a sorte de seres marinhos, de baleias e tubarões a elfos-do-mar, humanos habitando reinos de corais e dragões aquáticos. Leis físicas podem ser distorcidas nesses planos, de acordo com os deuses- sua composição também poderá fugir completamente do padrão natural, com reinos da dor e do sofrimento onde se respira fumaça e ácido sulfúrico, ou planos do Deus do Fogo onde as formas mais sólidas são ilhas de metal derretido.

Essa maneira é particularmente cômoda na criação do cenário de fantasia, pois determinados os deuses, a criação de seus planos se torna uma tarefa fácil- é a escolha ideal para aqueles que desejam alguma definição acerca dos planos de existência, mas com pouco trabalho (embora não signifique que esse tipo de plano de existência seja simplório ou menos interessante; são simplesmente mais simples de serem desenvolvidos, por serem apenas a reflexão de um conceito já trabalhado anteriormente na criação do cenário).

Considerando que os espíritos dos mortos se dirigem para um outro lugar após o falecimento de seus corpos físicos, devemos pensar em uma Terra dos Mortos- o local de descanso final daqueles que já partiram do mundo material. A primeira idéia a ser trabalhada é o eixo de Punição x Recompensa após a morte- levando nossos próprios valores em consideração, aquele que teve uma vida virtuosa irá se dirigir a um plano específico; aquele que por outro lado teve uma vida marcada pelos vícios, será conduzido a um plano oposto .Aqui, estaremos ignorando a possibilidade de reencarnação baseada nesse mesmo eixo- a idéia de reencarnação invalida- ou pelo menos surge como uma alternativa- a idéia da Terra dos Mortos; devemos considerar também que um único plano pode abrigar regiões destinadas aqueles que tiveram vidas marcadas pelos vícios ou virtudes, como o Hades grego, que poderia ser grosseiramente comparado ao Inferno cristão, e que possuía em seu território os Campos Elísios, jardins destinados aos espíritos elevados. Dando continuidade a idéia do eixo de Punição x Recompensa, um plano deverá estar destinado aos espíritos tomados pela virtude, onde serão recompensados por toda a eternidade, e outro, aos espíritos marcados pelo vício, onde serão punidos por suas atitudes maléficas enquanto mortais. Embora a idéia desses planos seja marcada pela neutralidade, ambos muito provavelmente orbitarão o eixo Bem x Mal- o plano da Recompensa provavelmente será um plano do bem, o plano da Punição, um plano alinhado com o mal. Dessa forma, ambos os planos surgem como possibilidade alternativa para a habitação dos deuses, em um cenário onde o eixo primordial das divindades é o eixo Bem x Mal. Uma possibilidade porém é que os deuses possuam grande relevância no destino dos espíritos mortos. Essa é uma escolha interessante, trabalhando com o eixo de Punição x Recompensa de maneira diferente. Nesse sistema, o espírito de um morto será conduzido para o reino de um determinado deus; essa definição pode estar relacionada com a devoção do mortal a esse deus, seu comportamento ou até mesmo não possuir qualquer parâmetro, criando um sistema particularmente caótico. Assim, um guerreiro valoroso e honrado será conduzido em sua morte para o reino do deus da justiça e da guerra; um homem particularmente violento e maligno, para o inferno de fogo e dor do deus da crueldade. É possível também considerarmos que existe uma Terra dos Mortos, mas ela é um ambiente de total neutralidade; não há punições ou recompensas; não há deuses receptivos ou vingativos. Apenas uma vastidão, onde todos os mortos se encontram. Talvez essa própria vastidão seja regida por um deus (ou vários deuses; ou todo o panteão!); talvez ela seja o único lugar no multiverso que os deuses não podem exercer sua influência.

Estejam conosco mais uma vez na semana que vem, e poderemos continuar essa discussão, com mais detalhes importantes sobre esse aspecto da fantasia. Até mais!

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