Curva de Desenvolvimento – Muito Além de “Curar Ferimentos”…

Nós já falamos sobre o desenvolvimento dos panteões, e na semana passada, abordamos um dos aspectos da relação dos deuses com seus seguidores mortais. Nessa semana, iremos abordar o poder dos deuses canalizado em todo seu esplendor por seus servos: iremos falar da magia divina, e a partir do momento que você decidiu que ela existirá em seu cenário, como ele será afetado por isso.

Assim, o primeiro ponto é refletir se ela existe ou não em seu cenário fantástico. Embora contraditório em um primeiro momento, um cenário de fantasia não é necessariamente marcado pela existência de magia. Sim, essa força misteriosa e poderosa é uma presença recorrente, mas não necessariamente obrigatória, embora sua existência torne muito mais fácil a explicação de vários elementos fantásticos. No futuro, discutiremos melhor a questão da magia, mas hoje é necessário apenas considerar se ela existe ou não. Caso a resposta seja positiva, podemos dar continuidade a definição da magia divina na sua campanha.

ORIGEM

Até agora, vimos a magia de maneira genérica, sem distinguir sua fonte de origem. Em seu cenário, a magia pode ser originária de qualquer fonte imaginada, e talvez, de diversas fontes. Em Dungeons & Dragons, a magia se divide entre arcana e divina, mas se esse tipo específico de divisão não lhe parece bom você pode simplesmente usar um outro qualquer. Por agora, trabalharemos o que o mais clássico dos RPGs de fantasia medieval convencionou chamar de Magia Divina.

A Magia Divina é a pura canalização do poder e vontade de um deus ou força divina, através de um agente. Para que o agente seja capaz de canalizá-la, é necessário ter grande fé em um determinado deus, ou poder (nesse caso, considerando a possibilidade de não existirem deuses, mas a Magia Divina ser manifestada pela crença e devoção a um conceito específico). Note que não basta apenas demonstrar tal fé; a Magia Divina exige servidão e sacrifício. Não obstante, ela não precisa necessariamente requerer grande vontade por parte de seu usuário; ele é apenas um intermédio entre o deus e o mundo mortal.

Note que existe uma grande diferença entre intervenções divinas e magias provenientes dos deuses. Na maior parte do tempo, o canalizador da magia divina escolhe quando quer que ela tome efeito, mesmo que isso só ocorra com a vontade do Deus. No caso da intervenção, não existe um canalizador, e o deus age diretamente sobre o mundo num ponto em que for conveniente.

CARACTERÍSTICAS

Na fantasia, a Magia Divina é tradicionalmente retratada como menos destrutiva que a Magia Arcana, embora isso não signifique que ela não possa ser altamente destrutiva. Outras duas associações comuns da Magia Divina são os poderes de curar e de lidar com os mortos-vivos. Em muitos cenários tradicionais de fantasia a maior expressão do poder mágico dos deuses é a habilidade de um representante sagrado seu, um clérigo, curar os feridos com feitiços divinos.

Se os sacerdotes benignos são verdadeiras representações da vida, os malignos, por outro lado, agem no sentido contrário, sendo tipicamente associados aos mortos-vivos. Na construção de seu cenário, você normalmente os terá como um recurso rico, oponentes capazes de render toda uma campanha, ou mesmo mais de uma, se tornando forças a serem reconhecidas dentro do cenário.

Se você quiser tomar um rumo diferente com a magia divina do seu cenário, no entanto, ainda poderá fazê-lo. Os elementos acima citados não são intrínsecos a esse tipo de magia, mas sim elementos caracterizadores da mesma, que refletem a relação dos clérigos com as sociedades de um cenário fantástico. Por serem detentores do poder de curar (e em alguns casos, até mesmo de ressuscitar, como veremos abaixo), são de importância crucial para a sociedade em que estão inseridos. Em um cenário onde a magia divina não expressa uma relação particular com a preservação da vida e a magia é encarada com desconfiança, é plausível que clérigos, mesmo apresentando poderes fantásticos, sejam perseguidos tanto quanto qualquer outro usuário de magia.

Também é comum retratar clérigos em cenários fantásticos dotados da capacidade de expulsarem (ou controlarem, quando seguidores de deuses malignos) os mortos-vivos. É outro elemento que não se configura como intrínseco à Magia Divina, mas serve para representar a condição de santidade do servo dos deuses. Expulsar e destruir o morto-vivo utilizando-se do poder divino é garantir que o morto finalmente encontrará seu descanso eterno. Controlá-lo, por outro lado, é um ato de vilania máxima, representando a atuação de deuses malignos no cenário. Servos divinos sem esse tipo de manifestação de fé perderiam também parte de sua relevância social, embora bem menos que na questão da cura.

Outros poderes são característicos da Magia Divina. Servos de deuses naturais, ou talvez aqueles que canalizam não a vontade de um deus diretamente, mas de forças divinas primitivas, costumam possuir poderes relacionados ao crescimento natural, que são particularmente importantes em cenários fantásticos com tons medievais, habitados tipicamente por uma grande massa de camponeses. Nesses cenários, servos de deuses com poderes sobre as colheitas teriam importância crucial.

A ressurreição é um poder muitas vezes associado a Magia Divina, e bastante polêmico. O acesso a magias capazes de ressuscitar costuma nos cenários clássicos estar destinado apenas aos mais poderosos e fiéis servos de um deus. Ainda assim, a inserção da ressurreição em um cenário pode gerar diversos problemas para o Mestre. Não basta inseri-la em um cenário, é necessário, por exemplo, ponderar a sua atuação em relação aos reinos dos mortos.

O milagre surge como o poder mágico supremo oriundo dos deuses. Em teoria, qualquer manifestação da fé que dê origem a um resultado místico pode ser encarada como um milagre, mas não estamos falando disso aqui, estamos falando de destruição de cidades com colunas de fogo, de tempestades sem iguais, de dezenas de guerreiros levantando do campo de batalha para lutar novamente sob o estandarte de um deus. O milagre é possível em um cenário com uma participação relevante dos deuses no mundo dos mortais (podendo até mesmo ser corriqueiro em um cenário de Alta Magia), mas sugerimos que seja utilizado com cautela pelo Mestre no desenvolvimento da história de seu cenário, pois é uma forma de intervenção divina marcante, e seus resultados muitas vezes podem ser catastróficos!

Se você optou por levar a magia divina como um elemento importante de seu cenário, então agora já tem os pontos mais importantes a serem considerados, lembre-se de levá-los em consideração durante a construção da campanha, e esteja conosco mais uma vez na semana que vem, viajando um pouco além da fronteira do plano material.

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