Curva de Desenvolvimento – Uma Raça, Vários Povos…

Por Giltônio Santos

Na semana passada, estivemos discutindo sobre raças de fantasia, e como utilizá-las em seu cenário de campanha. Para hoje, temos um tópico semelhante, porém um pouco mais restrito. Depois de definir que raças habitam o seu cenário, é importante determinar se cada uma delas está unificada ou não. Cenários que possuam variações ambientais intensas, ou nações separadas durante muito tempo e por longas distâncias, acabam por gerar diversos ramos de uma única raça, com várias semelhanças, mas algumas vezes tão variadas culturalmente quanto o seriam duas raças distintas.

Drows, Anões da Ravina, Noldor, e os Halflings Selvagens de Athas são exemplos de variações étnicas dentro de um grupo, ocasionadas pela separação, dificuldades ambientais, ou mesmo na origem, devido a diferentes patriarcas ou ofícios variados. Essa é uma opção que enriquece qualquer cenário de fantasia, e como tal, tem sido utilizada extensivamente por quase todos os criadores que puderam contar com esse recurso. Na verdade, oferecer uma variação étnica é uma solução mais simples, rápida e até mais interessante, quando existe a necessidade de preencher um nicho dentro da criação com um povo novo.

Em nossa própria Terra, temos uma variação étnica tão grande que é quase impossível catalogar com exatidão os diferentes galhos que a árvore da humanidade já gerou. Em cada um dos continentes, contamos com povos que, embora pareçam iguais, carregam diferenças que já ocasionaram conflitos de grandes proporções, e até tentativas de extermínio em massa, como as que sucederam durante a segunda guerra mundial, e outras vezes, tanto antes quanto depois dela. Assim, temos uma série de fatores que são os mais importantes de se levar em consideração quando construir os grupos étnicos de seu cenário.

EU REALMENTE PRECISO DE OUTRA ETNIA?

Essa pergunta deve ser respondida agora. Será que você realmente está em busca de uma variação de uma de suas raças principais para cumprir um papel relevante na sua campanha? Pergunto isso porque talvez você esteja apenas tentando oferecer novas e interessantes opções para os jogadores, sem analisar qual é o verdadeiro objetivo por trás da criação de um grupo étnico. Toda variante deve ter um impacto no cenário, ou o impacto deve ter uma variante nela.

Se falarmos da primeira opção, temos um caso semelhante ao dos Drows. Nos reinos, eles existem com o objetivo de representarem uma grande força antagônica. Muito do que acontece de maligno pode ser associado a eles, e os seus esforços nessa direção não deixam a desejar. Se a opção é a segunda, criamos uma variante como resultado de um evento que transformaria de alguma forma uma raça pré-concebida. Os kenders de Krynn são tipicamente imunes aos efeitos do medo, mas um de seus ramos, chamados de “afligidos”, perderam essa imunidade, como resultado de experiências terríveis pelas quais passaram.

Por fim, é comum utilizar variantes para preencher nichos. Levando em consideração que cada uma delas é uma nova dose de trabalho, é bom saber se você realmente precisa disso. Em face do elfo tradicional, eu não preciso de um grupo étnico élfico formado por grandes espadachins; trata-se de uma característica da raça originária. Existem também situações em que a variação começa a se distanciar tanto do original que já nem parece a mesma raça. Nesse caso, talvez você devesse pensar na possibilidade de uma raça totalmente nova (e talvez seja melhor dar uma olhada no artigo da semana passada).

FATORES INTERESSANTES DE SE TRABALHAR

Alguns dos fatores mais interessantes, e mais fáceis de trabalhar em grupos étnicos, já foram citados acima. Você deveria levar em consideração que tipo de alterações uma determinada situação provocaria em certa raça, para então, rascunhar a versão alterada da raça básica.

Climas extremos tendem a gerar raças adaptadas a locais extremos. Suas habilidades devem refletir isso, assim como sua cultura. Bem, não falamos sobre cultura ainda? Teremos um tópico apenas para ela mais adiante, mas por hora, basta saber que o ambiente em que vivemos é capaz de promover sérias alterações em nossos valores e em nossa forma de pensar. Um povo originário de condições inóspitas tende a se agarrar a valores como força, coragem e astúcia. Eles desprezam aqueles que consideram fracos e, dependendo de suas inclinações morais, podem escravizar ou abandonar os mais fracos.

A raça “mais nobre” é um outro elemento tipicamente utilizado para cenários de fantasia, que, no entanto, ignora qualquer realidade de nosso mundo. Mas se você realmente não se importa com esse tipo de realismo, é comum, em cenários de fantasia, que um dos ramos da raça seja considerado de sangue nobre, destinado a governar os outros. Nem sempre isso é visto com bons olhos por outros grupos, mas é possível que seja gerada uma relação de noblesse oblige, em que a chamada raça nobre se torna responsável pela segurança de seus súditos. Ao longo de nossa história, essa relação se deu dentro de grupos integrados, não de diferentes raças, como sugere a fantasia típica. Cabe a você decidir qual dos dois cabe melhor ao seu cenário.

IMPACTO DO ENCONTRO

Se o seu cenário conta com uma diversidade de variações de uma mesma raça, é bem provável que elas acabem se encontrando. Levando em consideração que muitos mestres inclusive optam por cenários de raça única, em que todas as escolhas de personagem são apenas etnias, a chance de que membros de diferentes grupos venham a se encontrar cresce muito.

Nós trabalhamos muito com os exemplos da humanidade, então posso dizer que o impacto desse encontro é, na maioria das vezes, extremamente negativo, pelo menos para um dos lados. Resultaram, entre outros, a escravização de diversos povos africanos na América, o massacre dos índios que viviam aqui, tanto diretamente, quanto através de epidemias e opressão cultural, e também danos permanentes, durante as cruzadas, à rica civilização que os povos muçulmanos construíram no Oriente Médio.

É claro que esse encontro não é feito apenas de impactos negativos. A troca de experiências tem muito que acrescentar a qualquer cultura, principalmente se os representantes do outro lado já têm características semelhantes. Em cenários de RPG, você pode utilizar isso tanto como um pano de fundo que justifica o atual estágio cultural de determinado povo, quanto como uma experiência vivida em primeira mão pelos personagens dos jogadores, digna de ser interpretada e se tornar parte importante da estória que está sendo contada.

O simples fato de um povo estar subdividido em um cenário já pode gerar ganchos interessantes para suas campanhas. As razões para essa divisão, por exemplo, não precisam ser claras inicialmente. Na verdade, descobrir o porquê da separação entre as diversas etnias que habitam as Ilhas de Ktrain pode ser uma grande aventura, ou mesmo guardar a semente para uma campanha. Tudo isso depende do interesse que você, enquanto criador, tem pelo tema, e da forma como decide aplicar isso em sua campanha.

Acho que com isso estamos terminados por hoje. Esse é um tema que pode se expandir bastante, através de exemplos de criação e impacto no jogo. Se isso parecer interessante para o futuro, não esqueçam de mandar algumas linhas para nós, ajudando a aprimorar a coluna. Como sempre, espero que estejam conosco mais uma vez na semana que vem, trazendo o fogo de Prometeu para a humanidade!

3 Comentários

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  1. Acho muito legal essa serie, mas não acho as entradas mais antigas. Voce poderia disponibilizar?

    Valeu…

    • Rocha disse:

      Ei Leandro, no exato momento estou re-postando os artigos e atualizações de 2009 que havia perdido com uma falha no banco de dados. Assim que todo o arquivo de posts for reconstituído (inclusive tudo que já foi postado na Curva de Desenvolvimento) eu aviso aqui no blog ok?

  2. Beleza! To no aguardo…

    Valeu!!!

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