Curva de Desenvolvimento – Da Fusão, o Céu é o Limite

Por Aguirre Chaves

Olá pessoal! Dando continuação ao artigo da semana passada, lidaremos hoje com a tecnologia surgida a partir da época das grandes navegações, aproximadamente final do século XIV e início do século XV.

Serão abordados possíveis meios de evoluir a tecnologia em um jogo de RPG centrado em cenários medievais e pós-medievais, efeitos da magia sobre o desenvolvimento tecnológico e pontos importantes da evolução tecnológica humana. Todos componentes úteis para um mestre que deseje utilizar tecnologia avançada em seus jogos medievais ou que precise decidir sobre quais serão os avanços tecnológicos existentes em seu mundo e qual será sua relação com a sociedade e demais elementos que a compõe.

Por exemplo, será que a medicina, como uma ciência, se desenvolveria em um mundo fantástico onde existem magias de cura, e elas são de fácil acesso, da mesma forma que se desenvolveu em nosso mundo? Tornaria-se alquimia a ciência conhecida como química? Baseado nessas, e em outras perguntas, que buscarei orientar esse artigo. Vamos lá.

AVANÇO TECNOLÓGICO E IMPACTO SOCIAL

Por volta de 1450, na Europa, já era possível ganhar a vida como inventor. Os fatores dominantes para a época, e que orientaram a carreira de muitos desses profissionais, foram a invenção e aprimoramento das armas e da navegação. E ambos fatores serviam a um claro propósito, expandir os impérios e o poderio das grandes nações da época, notadamente Portugal e Espanha.

Por volta dessa época, cada guerreiro, pelo menos, na área do Mediterrâneo já havia se acostumado ao rugido e ao mau cheiro das armas de fogo. Essas armas derrubam com igual facilidade cavaleiros de armadura e paredes de um castelo. Importante observar que, no início, as armas de fogo não vieram para substituir as armas antigas, afinal, com o devido tempo, armas de sítio antigas podiam derrubar qualquer muralha; e arcos, longos e compostos, podiam e abatiam cavaleiros. As armas de fogo, então, serviam mais como suporte do que como parte principal dos exércitos, em parte por seu elevado custo de produção e dos riscos e cuidados que elas envolviam. Mas, com o tempo, a pólvora demonstrou sua grande virtude, pois seu poder não residia na força do usuário e sim na habilidade do fabricante. Assim, qualquer camponês, com algumas horas de prática, poderia aprender como mirá-las na direção correta e puxar o gatilho.

Em 1450, foi estabelecida em Portugal a primeira instituição formal para o estudo e ensinamento de navegação, a Escola de Sagres. Nessa época houve um grande avanço na tecnologia dos barcos, que ficaram maiores e passaram a suportar viagens mais longas, e de mapeamento, com a cartografia tornando-se uma ferramenta importante para assegurar o conhecimento de novos territórios e rotas marítimas.

É nesse período que surgem os primeiros piratas. A tecnologia então já disponibilizava uma enorme variedade de navios e um pequeno barco podia carregar uma quantidade comparativamente grande de poder de fogo. As armas disponíveis eram capazes de matar membros da tripulação rival sem causar grandes danos aos navios ou a carga e, uma vez que as comunicações viajam a velocidade dos navios, era muito improvável que um pirata fosse emboscado. Reparos também não eram grandes problemas, uma vez que não eram necessários uma infra-estrutura sofisticada e portos avançados para fazê-los, o que significava que piratas poderiam criar e manter suas próprias bases. A política dessa época também encorajava a pirataria e nações rivais normalmente ignoravam os crimes cometidos por piratas contra seus rivais, em alguns casos até mesmo contratando-os e financiando-os.

No campo da medicina a melhor opção era não adoecer ou se ferir. As técnicas para o tratamento de feridos ainda eram primitivas e não se conhecia tratamento para infecções e doenças. A cirurgia era limitada à amputação, remover projéteis de partes do corpo, cauterizar feridas e serrar ossos. Tudo isso sem o conhecimento de anestesia, esterilização de ferramentas médicas ou higiene, com a exceção do ópio, que já era usado para aliviar a dor. Esses conceitos que hoje consideramos fundamentais à prática médica surgem em grande parte entre 1850 e 1900. Sendo que, depois de 1885 já existia anestesia local para cirurgias menores; após 1870 procedimentos básicos de higiene reduziram grandemente a mortalidade e anti-sépticos já eram conhecidos; e em 1900 eram rotineiramente bem sucedidas as operações consideradas fatais em 1840.

Existem diversos outros fatos importantes que eu gostaria de citar, mas não o farei por causa do nosso espaço limitado. Creio que a esta altura todos vocês já imaginaram diversas possibilidades e impactos sociais para tudo isso que eu simplesmente enumerei. Os encorajo a discutirem isso com seus grupos de jogo, uma vez que são todos fatores importantes para o desenvolvimento tecnológico de um mundo e todos implicam grandes mudanças sociais que ficaram apenas implícitas no texto. Para ilustrar isso não posso deixar de citar Reinos de Ferro, que teve uma de suas aventuras, dividida em três livros, traduzida pela Jambô. Nesse cenário é mostrada uma forma como a tecnologia, principalmente a armamentista, poderia ter se desenvolvido em um cenário fantástico e o recomendo para todos que tenham a intenção de fazer o mesmo. Agora, adiante com nosso tema.

MAGIA E TECNOLOGIA

Há aqueles que digam que magia e tecnologia não se misturam e que uma inibe naturalmente a outra. Eu respeito tal opinião e concordo que em mundos altamente tecnológicos ou mágicos, o processo de desenvolvimento de uma restringe o desenvolvimento da outra. Mas não deixam de existir possibilidades para o desenvolvimento conjunto delas, sendo que uma pode até ajudar no aprimoramento ou compreensão da outra.

Em mundos medievais fantásticos as principais “ciências” são magia e alquimia. Sendo que usuários de magia e alquimistas são vistos com tanto respeito quanto o são os cientistas e pesquisadores no nosso mundo. Ambas, assim como nossa ciência, podem gerar incontáveis avanços e grande destruição para os cenários em que existam. Surgem daí diversas possibilidades de interação com a ciência como a conhecemos. Em mundos onde a magia não seja lugar comum, sendo reservada a pessoas ricas, de influência, sacerdotes ou membros de determinadas raças é normal que, para atender as necessidades da população e dos Estados, sejam desenvolvidas ciências de mais fácil acesso, técnicas de mais fácil aprendizado e tecnologias mais facilmente reproduzíveis em larga escala. Esses avanços tecnológicos podem até ser desenvolvidos ou estudados por magos e alquimistas, gerando possibilidades interessantes de mistura de magia com tecnologia, como gigantes de ferro, barcos com “tecno-mágica” de ponta e armas de fogo que misturem pólvora com propelentes e munição mágica.

Em cenários onde a magia e alquimia sejam proibidas ou punidas severamente, usuários dessa arte podem utilizar a ciência para mascarar seus estudos, muitas vezes fazendo pesquisas científicas em conjunto com suas próprias pesquisas arcanas e criando uma tecnologia mista. Em tal abordagem o clima seria um elemento principal da trama, ficando a cargo do mestre criar toda a tensão e intriga envolvida nas pesquisas e no ofício arcano.

Há também a possibilidade da tecnologia se desenvolver naturalmente em conjunto com a mágica, se esta não for demasiadamente comum. Afinal, sempre existem pessoas em busca de novas explicações para o mundo e, em cenários mais livres e com menos intervenção divina, é provável que avanços tecnológicos se façam presente e procurem explicar e moldar o mundo mesmo com a presença marcante de magia. O mesmo se daria na situação inversa, em mundos onde a tecnologia e a razão fossem dominantes.

Existem realmente inúmeras possibilidades aqui e acho que para desenvolvê-las só é necessário um pouco de trabalho e bom-senso. Afinal, para cada avanço tecnológico que você decida incluir em seu mundo fantástico é interessante pensar qual seria a influência dessa evolução na vida das pessoas comuns, o que se faz ainda mais verdadeiro para “tecno-mágica”. Dentre as possibilidades não estudadas estão a de cenários como Shadowrun, que mistura tecnologia avançada com magia; Mago: A Ascensão, que descreve um mundo atual e similar ao nosso, mas onde existem poderosos magos e seres sobrenaturais; e de Star Wars D20, que conta com diversos avanços tecnológicos interessantes para um cenário de ficção fantástica em conjunto com a “Força” dos Jedi.

Espero que essas pequenas idéias instiguem vocês a desenvolverem suas próprias hipóteses e nos levem a futuras e produtivas discussões sobre este e outros temas importantes para nós que jogamos e lidamos com RPG. Como sempre, aguardamos suas críticas e sugestões e contamos com sua presença na próxima semana, quando falaremos sobre um dos pontos importantes nas relações sociais. Que a Força esteja com vocês!

Estejam conosco novamente na semana que vem, abordando um aspecto bem complexo das sociedades reais, e que pode aparecer também na sua campanha!

2 Comentários

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  1. OD. disse:

    Certamente sempre haverá um modo de fundir tecnologia com magia… depende so da vontae do mestre e jogadores… Por experiencia propria vejo uma certa resistencia por parte de ambos(principalmente jogadores mais veteranos) que tentem a achar "muito final fantasy" ou algo do genero… Mas tambem ja tive seções muito boas com cenarios "tecnofantasy" e "steampunk", que basicamente misturam esses elementos.

  2. Elutark disse:

    Não resisti e tive que comentar, mas primeiro parabéns pelo blog, quanto a magia devemos lembrar que a alquimia se desdobrou na quimica, a astrologia na astronomia, os necromantes (a origem da palavra é aquele que ve o futuro nos mortos) contribuíram na medicina com a anatomia, e os magos bem estes se desdobraram na física. Só um pequeno exemplo para ilustrar, quando você lê os antigos grimorios, se tirar aqueles misticismo há citações de de física ótica e outros estudos que só foram comprovados séculos mais tarde.

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