Curva de Desenvolvimento – Economia para quem Produz

Nessa semana continuaremos tratando da economia, mas abordando aspectos mais microcósmicos dos sistemas econômicos, ou seja o efeito que as medidas e sistemas econômicos tem sob a vida dos cidadãos comuns do reino.

Alguns mestres não chegam a tal nível de detalhamento em seus jogos, e não existe nada de errado nisso. No entanto em cenários como Dark Sun e Midnight, onde a escassez e situação econômica precária são pontos chaves no clima do jogo, ou mesmo em jogos um pouco mais focados no dia-a-dia dos personagens, questões como a distribuição de renda e a maneira como os mercados e guildas de ofícios se comportam se tornam muito mais relevantes para o bom andamento do jogo. Como sempre é uma questão de opção por parte do mestre, que decide quais elementos se aplicam a seu cenário e quais não se encaixam a seu estilo de jogo.

A MOEDA LOCAL

Independente de quão diferente um cenário seja, o dinheiro sempre ocupa o importante papel de igualar os valores, permitindo que itens de tipos e valores diferentes sejam trocados entre si. O dinheiro não necessariamente tem que ser papel moeda, ouro ou pedras preciosas, mas sim qualquer coisa que tenha um valor igual para as pessoas, independentemente de suas necessidades imediatas como a fome ou frio, e que não seja comum o suficiente para que todos o possuam em grande quantidade de forma a inflacionar o sistema.

Mas mesmo em cidades e reinos com uma moeda forte, muitas transações ainda serão feitas na base da troca de produtos. Isso se da devido a uma série de fatores, sendo o principal deles a dificuldade que, por exemplo, um pastor tem de transformar suas 4 ovelhas em 70 peças de ouro, e só então gastar essas moedas em sacos de farinha. Ora, se existir a demanda dos dois lados é muito mais simples trocar as ovelhas pela farinha. Isso é ainda mais verdadeiro em feiras ao ar livre, onde os preços são extremamente variáveis, definidos pela demanda e lábia dos compradores e vendedores. Em um local onde a troca de mercadorias se torne mais popular que a transação usando moeda, existe uma forte tendência a desvalorização da moeda oficial, já que passará a ser menos aceita, e dessa forma se torna menos valiosa. Esse tipo de situação é comum durante períodos de uma grave crise, onde os mercadores e consumidores perdem a confiança na capacidade reguladora do governo, ou mesmo no valor de sua moeda.

GUILDAS DE OFÍCIOS

As guildas de ofícios tiveram um papel importante na Idade Média, e deveriam exercer as mesmas funções em grande parte dos cenários de fantasia medieval. Elas proporcionam uma estrutura e regulação econômica para uma cidade, protegendo seus membros tanto da taxação excessiva por parte do governo, como defendendo seus interesses na compra de matéria prima e disputa com outras guildas. Geralmente as guildas de ofícios limitam o preço mínimo dos serviços de seus associados como forma de proteger seu ofício.

Se uma guilda tem o apoio da esmagadora maioria dos profissionais de seu ofício ela se encontra em uma situação capaz de afetar toda a economia local, seja regulando os preço, uma medida um tanto eficiente principalmente para serviços indispensáveis, ou mesmo pressionando o governante local para lhes fornecer facilidades e melhores condições. As maiores guildas de ofícios podem até mesmo rivalizar com o governo local, não apenas na questão econômica, mas em poderio político e até mesmo militar. Felizmente as maiores cidades têm várias guildas dos principais ofícios, mas um bom líder e uma causa em comum pode unifica-las em trégua até que seus objetivos sejam atingidos.

GUILDAS DE MERCADORES

As guildas de mercadores tendem a se formar antes das diversas guildas de ofícios, e estão presentes em quase toda cidade medieval. Nas cidades menores ou com governos enfraquecidos, os mercadores podem exercer as tarefas que deveriam ser da Assembléia Municipal, como regular taxas, direitos e condições de financiamento. Mesmo que a cidade tenha uma assembléia forte, é certo que terá entre seus membros alguns integrantes de guilda de mercadores locais.

Os mercadores são um ótimo mecanismo para dar inicio a uma aventura, já que estão sempre viajando e precisam de mão de obra e proteção. Os mercadores medievais praticamente não se envolviam com a produção, mas apenas com o transporte e negociação da mercadoria e assim uma parte dos mercadores passavam meses viajando de cidade em cidade, sempre comprando aqueles itens que saberiam ter mais valor nas cidades seguintes.

As guildas de mercadores também exercem seu monopólio nas relações com as guildas de ofícios, determinando quais serão suas parceiras na venda de certos produtos durante as viagens. Como a guilda de mercadores vive do comércio de inúmeros produtos, enquanto as guildas de ofícios não usufruem dessa diversidade, é muito mais fácil para os mercadores pressionarem os artesãos, pois na pior das hipóteses eles podem se dar ao luxo de não trabalhar com os produtos de determinada guilda de ofício. No entanto essa guilda, por não ter outros produtos e serviços para negociar, e por não poder perder o maior canal de escoamento de seus produtos, estará em sérias dificuldades caso negue trabalhar dentro das imposições da guilda de mercadores locais.

MERCADO NEGRO

Em cenários onde os preços sejam regulados, tanto pelas guildas ou pelo governo local, são grandes as chances que exista um mercado negro, principalmente em grandes cidades. O mercado negro pode ser odiado e combatido com todas as forças pelo governo ou guildas de mercadores, ou pode existir em conivência com um deles, que pode se opor ao tráfico de mercadorias apenas como fachada, mas se utilizar dele para aumentar seus lucros. As situações mais comuns que causam o surgimento dos mercados negros são:

– Quando existe uma maior procura por um item que foi tabelado abaixo do preço de mercado: Nessa situação o mercado negro é a única forma de se conseguir o produto sem passar por um mecanismo de seleção de consumidores como fila ou sorteio, já que a procura pela mercadoria é grande demais e ela se torna escassa. O mercado negro passa a ser utilizado principalmente pela camada mais rica da população, que não deseja ser submetida à seleção, ou que não pretende diminuir o seu consumo do item, e para isso paga mais caro para obtê-lo.

– Quando um item fica encalhado por ter sido tabelado acima de seu valor de mercado: Nesse cenário um produto é tabelado acima de seu real valor, talvez por uma guilda de ofícios gananciosa, ou alguma medida do governo. Assim o mercado livre surge dentro dos próprios produtores, que seja para confrontar a taxação de preços, ou apenas para sobrevivem, vendem seus produtos a um preço mais baixo que a tabela, e claro se arriscando um bocado por isso. O mercado negro passa a ser usado pelos mais pobres e aqueles que necessitam mais do produto, enquanto a classe mais abastada ainda pode pagar o preço tabelado.

– Quando um item tem sua circulação proibida: Esta é a situação mais comum e a mais familiar aos jogadores. Os itens com maiores chances de serem proibidos são alucinógenos, venenos, e armas exóticas ou mágicas, mas nada impede que em seu cenário outros tipos de mercadorias sejam proibidos. Em Midnight por exemplo todo tipo de arma mágica, assim como pergaminhos são proibidos e alcançam um valor inimaginável, isso é se alguém ousar vende-los devido ao policiamento e punição de morte aqueles que são pegos portanto os itens mágicos.

Esperamos ter sido de alguma ajuda na árdua tarefa de criar seu próprio cenário! Espero que estejam aqui mais uma vez na próxima semana, falando da fé dos homens, e remexendo as raízes da civilização e seus conflitos… Até lá!

2 Comentários

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  1. alvaro disse:

    como sempre competencia extrema no post meu predileto da area cinza com toda a certeza aguardando o proximo com todo o afinco e anseio !

  2. Elutark disse:

    Simplesmente ADORO esta serie de artigos, e não poderia deixar de dar palpite,
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Liga_Hanse%C3%A1tica
    este endereço leva a um artigo da wikipédia sobre a Liga Hanseática a maior guilda de mercadores do mundo na idade media, é fundamental que qualquer mestre tenha pelo menos uma noção de até onde foi o poder de uma guilda no mundo real.

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