Curva de Desenvolvimento – Sobre Deuses e Homens

As religiões executam um papel central nos mundos de fantasia medieval, e se durante a Idade Média praticamente toda cidade tinha ao menos uma igreja, imagine em cenários como Reinos Esquecidos e Tormenta, onde o número de deuses e de cultos é muito maior.

Em nosso mundo os fatores que influenciam e levam a formação de um determinado culto ou religião e são extremamente variáveis e interligados entre si, variando da inspiração na natureza, até o sistema econômico e político vigente na região. Mas quais são os fatores determinantes nos mundos citados acima, onde os deuses não apenas dão provas claras de sua existência, mas influenciam constantemente o rumo dos acontecimentos? Tentaremos abordar essa questão e a formação de cultos em cenários com outros tipos de panteões.

DEUSES ATUANTES

Em diversos cenários de fantasia medieval os deuses não apenas existem, como cedem poder a seus sacerdotes e afetam o mundo, seja através de avatares, ordens a seus adoradores, ou mesmo combatendo os deuses que pregam valores opostos aos seus. Em mundos assim a simples existência, reforçada pelas ações de fé de seus sacerdotes, são suficientes para a existência de cultos ao deus em questão. Esses cultos tendem a seguir exatamente o portfólio de seu patrono, já que a organização da igreja é baseada em seus valores, sendo geralmente guiada por aparições e ordens ditadas aos clérigos mais fervorosos e dedicados da organização. Os símbolos, cerimônias e rituais da igreja seguem essa mesma tendência, e refletem aspectos não só dos valores defendidos pela divindade, mas também sua história e relação com outros deuses.

Em cenários com vários deuses atuantes e presentes na vida cotidiana, o desafio das religiões não é o de convencer os outros que seu deus existe, ou mesmo que é único salvador, mas sim o de convencer as pessoas que aquela divindade e principalmente, os valores que ela defende, são os mais adequados para o dado presente. Assim um clérigo de uma deusa das tempestades não se vira a multidão para denegrir a imagem da igreja da fertilidade, mas sim argumenta que por mais que a fertilidade não existiria sem a presença das tempestades, que preparam a terra para o plantio. Para justificar a suposta impiedade de sua deusa, talvez ele poderia afirmar que a destruição que caminha junto com as tempestades serve para escolher aqueles mais aptos à sobrevivência, e destruir construções velhas e abandonadas para que novas sejam erguidas em seus lugares.

DEUSES OCULTOS

Esses cenários são aqueles onde independentemente dos deuses existirem ou não, eles não se manifestam ou tomam parte nas questões do mundo, deixando seu destino nas mãos dos homens. Neste tipo de situação as religiões têm muito mais liberdade em sua formação, e podem seguir diversos caminhos já que o próprio deus não toma parte, ao menos diretamente, na formação de seu culto.

Em sociedades menos desenvolvidas tecnologicamente, a natureza pode ser uma grande fonte de influência para as religiões e cultos, e toda seus panteões podem ser baseados em espíritos de animais, existentes ou imaginários, que povoem a região. Mesmo que o panteão seja formado tendo como base figuras humanas, elas podem ter características animalescas, ou demandarem de seus adoradores sacrifícios ou rituais em datas especiais como a chegada das estações e o inicio do plantio ou colheita.

Religiões e cultos também podem surgir com base em milagres e outros acontecimentos inexplicáveis por outros meios que não sejam os deuses. Enquanto a cura repentina de um ferreiro aleijado seria algo rotineiro em um cenário com deuses atuantes, aqui seria motivo de comoção e adoração, e se o ferreiro fosse particularmente virtuoso ou habilidoso esse milagre poderia facilmente ser creditado ao deus das forjas, que desejava ver o ferreiro de volta ao trabalho para alimentar sua família. Talvez o próprio ferreiro, ao morrer e deixar uma vida de realizações temperada por essa cura milagrosa, se torne uma espécie de padroeiro de seus colegas de profissão, e em décadas sua fama se espalhe por vilas e cidades do reino, que pode vir a reconhecê-lo oficialmente como um santo.

A situação sócio-econômica também pode servir de catalisador para o surgimento de uma nova religião, assim como também pode relegá-la ao esquecimento. Um reino extremamente empobrecido por uma guerra centenária poderia ser o berço de uma nova religião devotada aos deuses da harmonia e da vida, que dia após dia arrebanha mais fiéis para sua causa pacífica de oposição ao governo. Ao mesmo tempo essa religião não teria praticamente nenhum apelo em um grande centro comercial, por pregar que um homem não deve ganhar mais do que o necessário para alimentar sua família e demandar que o resto seja doado a caridade. Um bom exemplo disso é a análise que Max Weber faz da profunda relação entre o protestantismo e a ética capitalista.

Em mundos com deuses que não influem diretamente as diferentes religiões tendem a adotar uma postura de negação a fé alheia, enquanto aponta a sua como único caminho existente à salvação. Claro que isso é suposição simplista, e depende bastante do contexto do cenário, mas a não ser que os fiéis de todos os cultos acreditem na existência não apenas de seu deus, mas de todo um panteão, o proselitismo e a negação da fé alheia serão uma tentação sempre presente nos discursos dos clérigos. Os rituais e cerimônias das outras religiões também podem ser alvos de indagações, principalmente se os cultos tiverem valores e crenças diferentes ou mesmo incompatíveis, como ordem e caos ou mesmo fertilidade e guerra. Milagres e outros feitos inexplicáveis podem ser disputados entre os cultos, como provas que seu deus existe e está olhando pelo seu povo, e os sacerdotes podem tentar pressionar direta ou indiretamente o governo para acolher sua religião como a oficial do reino, ou ao menos seu deus como padroeiro da cidade.

SEU MUNDO, SUAS REGRAS

Muitos cenários de fantasia medieval são bastante dinâmicos, e ás vezes nem mesmo seus panteões são poupados das mudanças e reviravoltas constantes que marcam o gênero, ainda mais com possibilidades como a ascensão ou o deicídio. Assim é de se esperar que as religiões nesses cenários não sejam estáticas, mas que mudam suas crenças, rituais, práticas e costumes para melhor refletir as constantes alterações pelas quais sua divindade e sacerdotes de mais alto posto atravessam constantemente. Até mesmo a igreja católica passou por grandes transformações nos últimos cinco séculos, e mesmo que continue sendo uma das maiores forças conservadoras de nosso mundo, passou a abordar novos temas, adotar novas formas de atrair fiéis e abandonou práticas que hoje não fariam tanto sucesso, como por exemplo, a inquisição. Não existe razão para que as religiões de seu mundo permaneçam estáticas por milênios, afinal elas acompanham não apenas o surgimento de novos cultos, mas também os avanços científicos e filosóficos, as novas tecnologias, hábitos e conjunturas políticas e socioeconômicas.

Na próxima sexta-feira continuaremos tratando dos cultos religiosos, mas desta vez abordando alguns tipos mais comuns de cultos e suas implicações para seu cenário. Até lá!

Um Comentário

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  1. Elutark disse:

    Parabéns pelo artigo ele esta muito bom! Este assunto da pano para manga, uma coisa que eu gostaria de ver abordada e sobre a força "conservadora" religião, que a meu ver foi o principal motivo por manter a Idade Media sem um desenvolvimento técnico por longo tempo, Versus a força "modificadora" da magia.
    Modificadora eu entendo como pesquisadora, pois na era pré-ciência a magia tinha este papel, de pesquisar de questionar.

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