Curva de Desenvolvimento – Fantástico… Porém Racional!

Por Giltônio Santos

Olá leitores! Durante várias semanas, temos focado aspectos geográficos, cosmologia, e a síntese de uma sociedade em cenários de fantasia. Muitos desses temas não são de fácil abordagem, nem sempre conseguimos ir direto ao ponto que desejamos, talvez nem sempre consigamos ser claros o suficiente. Sim, alguns tópicos exigem bastante para serem escritos, sua própria natureza dificulta o desenvolvimento de um artigo. Bem, hoje temos um desses pela frente…

O que temos na base de uma sociedade? Segundo alguns, as civilizações pré-colombianas estavam adiante de seu tempo, e isso se deve à complexidade de suas estruturas sociais, sua matemática e astronomia avançadas, além de outros aspectos culturais e do pensamento, que dizem muito a respeito delas. O mesmo já foi dito sobre os gregos, quando citando sua filosofia ou democracia, e em áreas diferentes, temos referenciais em outros povos.

Creio que isso mostra o quando sintetizar a cultura e o pensamento de uma sociedade é importante para que possamos estabelecer nosso conceito sobre ela. E de acordo com a nossa regra geral, se é assunto de relevância para a Terra, talvez seja importante em cenários de fantasia também. Como você deve estar tentando criar um mundo vivo, e pautado em verossimilhança, é provável que queira ler algo sobre o assunto.

CULTURA E CONHECIMENTO: AVANÇO X PRIMITIVISMO

Ambos têm seu papel, bastante relevante para cenários de fantasia, que normalmente bebem nas duas fontes. Embora nem todo cenário utilize esse recurso, muitos deles contam com o devido contingente de bárbaros, homens da floresta, ou grupos semelhantes, que erguem o pilar de algo que poderíamos chamar de uma cultura primitiva.

Do outro lado, estão sociedades que trazem consigo uma cultura avançada. Elas buscam o desenvolvimento da filosofia e da arte (em nosso caso, também da magia), seus indivíduos valorizam o pensamento puro e simples, como forma de avanço, e a produção de conhecimento não se efetua apenas através do empirismo típico dos povos mais primitivos; aqui, o conceito de ciência aflora, e ganha respeito.

Esse é um choque entre duas forças que implicam muito mais que simplesmente avanço e primitivismo. Dentro da questão de aspectos culturais e do pensamento, nos deparamos com a emoção versus a razão, superstição em face do ceticismo, e mesmo o velho debate entre fé e ciência. Então você se pergunta: será que isso é realmente importante para o meu cenário? Minha resposta é: se você pretende criar para ele sociedades que tenham um pouco mais de conteúdo, sim.

CIÊNCIA

Através da ciência a humanidade produz um conhecimento que afeta sua vida diretamente, no dia a dia, nas coisas mais simples, mesmo de forma inconsciente. Em grupos normais, o desenvolvimento científico é um processo lento, que tem início nas chamadas ciências naturais, tais como Física e Biologia, é só muito depois chega às avançadas ciências humanas como Direito ou Sociologia. A ciência primitiva está intimamente ligada à filosofia, e se prende bastante a teorias mantidas no plano mental. Num estágio avançado, no entanto, a comprovação da hipótese formulada, por meio de experimento, passaria a ser imprescindível.

A matemática é uma ciência especial, que merece ser tratada separadamente. Seu desenvolvimento, na maioria das vezes, serve como termômetro direto do grau de avanço de uma sociedade. Curiosamente, o ábaco ainda é um instrumento de cálculo mais preciso que qualquer calculadora, o que nos faz perceber como a ciência dos povos antigos deve ser respeitada. Mesmo assim, sem o logaritmo não existiria o computador; pelo menos não como conhecemos.

Outro ponto diferencial na criação das sociedades é analisar o grau de avanço da medicina. Bem, é verdade que cenários de fantasia dispõem de clérigos, quase sempre dispostos as trocar cura por doações para a igreja, mas isso não pode simplesmente substituir a medicina, muito mais disponível. Em algumas sociedades, inclusive, a magia pode ser encarada como uma força complexa e pouco confiável. Talvez essas pessoas até mesmo se recusem a receber cura mágica, preferindo a assistência de um médico! Quando isso acontecer, você saberá dizer o que a medicina de seu mundo pode curar?

Em cenários de RPG, costumamos deixar a ciência de lado, afinal, existem tantos outros fatores mais interessantes para se levar em consideração! O pensamento científico, no entanto, movido por curiosidade, admiração e ceticismo, pode levar uma sociedade a direções inusitadas, mesmo quando o mundo que está ao seu redor é habitado por magos, dragões e outras seres de fantasia.

ARTE

A arte de uma sociedade tem uma capacidade marcante de demonstrar seu desenvolvimento, seus valores, e seus entendimentos morais e éticos. Cenários de fantasia raramente levam isso em consideração, e os bardos do Norte costumam não ser muito diferentes dos menestréis do Sul. Formas de arte que não sejam a música e a poesia raramente têm a oportunidade de aparecer em um cenário de campanha, mas isso não significa que você não possa dar a elas um papel no seu.

Os artistas muitas vezes servem como catalisadores dos avanços de seu povo, mas também podem corroborar um sistema vigente, utilizando sua arte para reforçar a mentalidade das pessoas que estão no poder. Ao longo de nossa história, por exemplo, vimos uma arte medieval patrocinada pela Igreja Católica, projetando suas igrejas e encenando seus autos. Nessa mesma Europa, em outro tempo, os movimentos de vanguarda fixaram as bases para a constituição de uma arte moderna, que acompanhava as mudanças constantes do mundo, mesmo desafiando autoridades religiosas e seculares.

Um ponto importante da concepção de um cenário é a criação de sua história (da qual nós ainda falaremos, mais adiante), e você pode enriquecê-la muito, se tiver o cuidado de olhar para detalhes como a importância da arte na solidificação do pensamento majoritário e o papel dos artistas como um todo, seja na manutenção das estruturas, seja ajudando a derrubá-las, para que outras apareçam.

FILOSOFIA

É através da Filosofia que o homem ocidental se encontra com o pensamento em si. Durante a idade antiga, a arte e a ciência convergiam para esse campo do conhecimento, e os grandes filósofos eram também os naturalistas, matemáticos, dramaturgos e poetas de seu tempo. Se você está indo adiante com a idéia de criar um cenário complexo, intrigante, e que leva em consideração os detalhes mais sutis das sociedades existentes, este é o melhor ponto a partir do qual pode continuar.

Através da Filosofia, o homem fundamenta suas escolhas, sejam elas éticas ou morais. É também através dela que o homem chega ao pensamento científico, um passo enorme no sentido da racionalização de uma sociedade. Em seu cenário, um povo conhecido pela grandeza de seus filósofos será também conhecido pela sofisticação de sua sociedade, principalmente no tocante à política e aos avanços da ciência.

Um excelente NPC para um cenário de campanha seria, por exemplo, um filósofo ocupando um cargo importante dentro de um reino ou mesmo um império. Durante o auge das monarquias européias, muitos filósofos se destacaram escrevendo para fundamentar a monarquia, indo do direito divino ao contrato social. Ainda hoje, suas teorias são estudadas, até mesmo para a compreensão da política contemporânea.

Em cenários de fantasia, no entanto, temos nos magos, sacerdotes, bardos, e outros mais voltados para o conhecimento, os candidatos ideais ao desenvolvimento da filosofia de seu mundo. Se estiver interessando em adicionar esse grau de detalhe à campanha, faça algumas perguntas simples, como o que esses homens estudam e o que buscam fundamentar, quais os métodos através dos quais formulam e provam suas hipóteses, e qual é sua importância para o pensamento da sociedade como um todo. Pode parecer um pouco exagerado, mas você ficará impressionado como isso ajuda a conectar as coisas quando chegamos a um dos fatores fundamentais do cenário de campanha: a verossimilhança.

Bem, isso não é, de forma alguma, tudo o que poderíamos dizer sobre o tema, mas espero que seja o suficiente para que cada um vá adiante, em suas próprias reflexões. Se ainda estiverem por aí, espero encontrar vocês de novo na semana que vem, quando faremos uma análise um pouco mais profunda de tudo que pode ser certo ou errado a respeito de sua sociedade. Até mais!

4 Comentários

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  1. alvaro disse:

    este foi o melhor artigo que li muito bom mesmo parabens

  2. Renato Trimegisto disse:

    Quando a série terminar, tem como juntar tudo e lançar um e-book? Seria ótimo poder unir os artigos pra ler de uma vez só ou como consulta

  3. Remo disse:

    Giltônio, artigo excelente, abordou um tema pra lá de relevante — há muito desenvolvedor calejado de conteúdo que poderia aprender uma coisa ou duas com este texto.

    Sobre as ciências, me parece no mínimo bizarro que seja tão ignorada. Ciência é importantíssima, e o gênero fantasia não é exceção — em fantasia, magia nada mais é que a denominação dada para a (super-)tecnologia presente no cenário, e tecnologia é resultado de descobertas científicas. Se você já chegou a ler "A Guerra da Paz," do Vernor Vinge, deve ter notado como mesmo a teoria em si faz diferença — o entendimento teórico (e, principalmente, os *erros* na teoria) acerca de um aparato tecnológico específico é, em si, capaz de prover uma enorme vantagem para aqueles que melhor conhecem os pormenores. Tais detalhes são geralmente tachados de "perfumaria," o que me parece um equívoco: um elemento de cenário só é inútil quando você não sabe usá-lo.

    Quanto a arte, recomendo um documentário ótimo, "Como a Arte mudou o Mundo," que apresenta algumas teorias bem interessantes acerca do surgimento da arte — com critérios como propensão do cérebro a achar algo atraente, estados alterados de consciência por parte de homens pré-históricos e, é claro, a boa e velha propaganda.

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