Curva de Desenvolvimento – Regras da Casa

Por Aguirre Chaves

Continuando nossa discussão a respeito de aspectos das sociedades fantásticas, hoje iniciaremos nossa abordagem sobre economia. Nesse artigo vamos lidar com a chamada “macroeconomia”, que é a mais comumente descrita nos cenários de RPG

A macroeconomia lida com as principais tendências da economia no que concerne, principalmente, o comportamento dos preços, utilização de recursos, comércio exterior, geração de renda e produção. São esses aspectos que estão envolvidos quando o mestre decide, por exemplo, qual será o preço da refeição completa e de uma noite em determinada estalagem, quais são as relações da região onde os personagens dos jogadores vivem com as regiões vizinhas, ou qual será o preço dos itens mágicos em determinada localidade de seu mundo. Em resumo, pode se dizer que a macroeconomia é “a economia dos Estados e das Nações”.

SISTEMAS ECONOMICOS

O sistema econômico sempre ocupa um lugar importante nos mundos de RPG, pois a partir dele podem ser estabelecidas diversas formas de relações sociais, desde formas de comércio até conflitos entre classes. O sistema econômico também determina como serão obtidos os bens em uma determinada sociedade, se será através da troca de produtos, utilização de moeda ou um misto de ambos.

Em ambientações medievais, por sua semelhança com a Idade Média européia, podemos encontrar diversos aspectos econômicos similares com esse período do nosso mundo. Apesar de que, na maior parte deles, existe um fator determinante que pode desequilibrar as relações econômicas e sociais: a magia. Nesses cenários, grande parte da sociedade é formada por camponeses que trabalham para grandes senhores de terra e a agricultura é o pilar central da economia. A maior parte das famílias ainda vive próxima às terras que cultivam e que, normalmente, são passadas de pai para filho, tendo pouco acesso à educação e a informação. Nesse quadro, as cidades começam a desempenhar um papel importante como centro de comércio e troca de serviços, mas diferente de hoje, ainda não são centros populacionais e nelas costumam morar apenas comerciantes, parte da nobreza e cidadãos que não trabalham diretamente com a terra, como artesãos.

O sistema econômico nesses cenários, mesmo com a presença de algum tipo de moeda, seja ela ouro, papel ou outro item de valor, ainda é, majoritariamente, baseado na troca de produtos e serviços, ficando a cargo dos negociantes decidir o valor daquilo que decidem trocar. Mas é possível que, em alguns casos, sejam feitos acordos entre diversas províncias ou reinos e que haja um consenso a respeito da moeda corrente, o que facilitaria a economia em um determinado país ou continente.

Já em cenários mais próximos ao nosso mundo, surgem possibilidades mais diversas e familiares de sistemas econômicos. É comum a existência de modelos similares ao capitalismo, onde existam um sistema monetário estabelecido e controlado pelo Estado e a presença de diversos acordos internacionais que facilitem o comércio entre países. Mas também são possíveis mudanças nesse quadro, que vão desde sistemas mistos, como encontrado em países socialistas que reservam áreas de seu território para a produção e comércio capitalistas, até possíveis futuros onde grandes corporações multinacionais controlam e determinam a economia, praticamente extinguindo a presença do Estado nesse campo.

PRODUÇÃO, PRESENÇA DO ESTADO NA ECONOMIA E POLÍTICA EXTERNA

Lidaremos agora com as formas de produção, o quão forte é o domínio dos governantes sobre a economia e qual é a relação dos “reinos” com seus vizinhos. O primeiro ponto a ser destacado é que, a produção medieval, ao contrário da encontrada no mundo moderno, não é massificada, sendo ainda comuns sociedades formadas por artesãos e demais profissionais que existem nas cidades. Manufaturas são o meio usual de produção, mas, ainda são encontrados itens feitos sob encomenda e destinados a um cliente específico, tanto no plano comercial quanto, por exemplo, no plano das artes. Na agricultura, a produção é, geralmente, destinada ao consumo interno do reino, havendo pouca tradição ou incentivo ao comércio de alimentos com outros reinos.

O Estado faz-se presente através do controle direto da quantidade e do que será produzido. Como a maioria dos agricultores vive nas terras de algum nobre importante ou de algum grupo religioso, é comum que parte de sua produção seja destinada a esses senhores de terra e que eles determinem o que será produzido pelos camponeses, daí a dificuldade de se criar um “comércio externo” de alimentos. Nas cidades o quadro depende mais ativamente do poder efetivo que o governante do reino possui. Peguemos o exemplo de uma forte monarquia, onde o Rei conta com o amplo apoio da população e mantém, por isso, uma grande influência na economia. Nesse caso, as corporações de ofício possuiriam sua produção determinada pelo governo, o Rei e seus nobres, bem como seu preço e regras para a competição entre si. Caberia ao monarca fornecer meios e incentivos para o comércio. Caso desejasse exportar seus produtos, sejam eles artigos de luxo ou de guerra, para algum de seus reinos aliados, ele poderia estabelecer uma série de incentivos que levasse as guildas da cidade a intensificar sua produção. E, caso quisesse reduzir a produção de seu reino, poderia estabelecer políticas de controle da produção ou criar um estoque de certos produtos vitais para o comércio interno ou externo, garantindo assim estabilidade para a sociedade. Seria seu papel também proporcionar segurança a essas guildas, tanto no plano econômico quanto no social, o que se reverteria para ele na forma de apoio político, através de súditos satisfeitos e fiéis, e econômico, através de impostos.

O comércio exterior é determinado pela força da economia interna de um reino. Se o reino é economicamente forte, torna-se capaz de produzir excedente e comercializar esses produtos com outras nações que estejam interessadas; se for fraco, torna-se difícil até mesmo o abastecimento do mercado interno, aumentando as pressões sociais e enfraquecendo o comércio. Veremos alguns desses aspectos mais detalhadamente quando falarmos de relações microeconômicas.

Existem também outras formas de relacionamento externo entre reinos como, por exemplo, a guerra. São comuns, em mundos medievais, exércitos mercenários e, não menos comuns, exércitos mercenários a serviço de determinado reino e que, em nome deste, oferecem seus serviços a reinos em guerra. Nesses casos um governante forte e sábio se aproveitará da instabilidade em outros reinos para: fortalecer suas relações com um reino aliado, enviando seu exército em auxílio deste; defender interesses expansionistas, enviando seu exército, no papel de mercenários, para resolver algum conflito e aproveitar-se da situação para estabelecer domínio na região instável; ou ainda, no caso de avistar um inimigo perigoso, enviar seu exército para auxiliar uma nação menor que esteja combatendo o inimigo em comum, evitando que o conflito chegue às suas terras e ainda fortalecendo suas relações com essa nação.

O DESEQUILIBRIO CAUSADO PELA MAGIA

Outro aspecto essencial a ser considerado em mundos de fantasia é a magia. Através dela as relações de comércio existentes podem ser alteradas e novas relações podem surgir. Irei simplesmente enumerar algumas influências importantes e deixarei a interpretação livre e a cargo de vocês:

*Magias que influenciam o transporte, como montaria fantasmagórica e teleportar objeto, podem facilitar enormemente o transporte de suprimentos, produtos, bens e pessoas através de um reino ou até mesmo do mundo. No caso, reinos ou grupos de comerciantes que tivessem fácil acesso a essas magias obteriam uma vantagem clara sobre seus concorrentes. E, se elas fossem lugar comum no mundo, o comércio exterior poderia ser intenso, uma vez que seriam muito mais fáceis o transporte de produtos e o escoamento da produção;

*Itens mágicos que permitem o estoque de grandes quantidades de objetos, como uma Mochila de Carga, seriam de extrema utilidade no transporte de alguns produtos ou de dinheiro, principalmente se usados em conjunto com magias como as descritas acima;

*Magias como ampliar plantas e ampliar animais podem ajudar na agricultura ao aumentar o potencial produtivo de uma plantação e criar, por curtos períodos de tempo, animais de tração mais fortes e aptos a trabalhos pesados;

*Magias que protegem lugares e coisas, como Alarme e Fechadura Arcana, aumentam a segurança com que produtos e bens podem ser guardados e transportados, diminuindo a possibilidade de assaltos;

*A magia também pode ser utilizada para sabotar a produção de uma nação ou comerciante inimigo. Controlar a água e controlar o clima podem criar inconvenientes naturais para a produção agrícola de determinada região, sendo possível até destruir toda uma safra. Sem contar as formas de destruição menos sutis que a magia arcana tem a sua disposição.

Bem, finalizarei por aqui. Ainda existem diversas outras possibilidades a serem utilizadas e espero que este artigo tenha servido para dar-lhes uma idéia sobre o tema. Na próxima semana daremos continuidade a essa discussão sob a ótica microeconômica. Aguardamos a opinião de vocês. Hasta!

2 Comentários

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  1. Danielfo disse:

    Isto sem falar nas mega fraude que podem ocorrer com o uso dos poderes.

    Se seu reino está com escassez de comida? Vai pedir uma empréstimo para poder comprar cerais da nação vizinha? Ou é melhor pedir aos deuses uma boa lavoura?

    Se a segunda opção for escolhida, de nada adiantará a super-produção do reino vizinho, ou os empréstimos do nação bancária. Inclusive aqueles estoques de cerais vão acabar atraíndo pragas o q trará doenças para o reino agrícola.

    Soluções mágicas realmente bagunçam tudo e deixam o progresso caótico.

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