Curva de Desenvolvimento – Religião, sentido estrito

Por Aguirre Chaves

Tal como em nosso mundo, as religiões em cenários de RPG exercem grande influência na vida e no pensamento da sociedade. Alguns dos pontos principais que determinarão quais são as características da religião são: a constância de contato com as divindades do panteão e o modo de ver o mundo e as tradições da região onde surgiram.

A freqüência com que os deuses aparecem para seus fiéis, se é que eles se manifestam, determina quão fiéis são os pensamentos dos seguidores ao conceito do deus que os originou, sendo que esses ideais e os deuses podem mudar consideravelmente ao longo do tempo, mesmo que a religião permaneça a mesma. A presença divina também determina os dilemas básicos das religiões, uma vez que um culto não precisa provar a existência de um deus que interfere regularmente no mundo, e sim o porquê de seguí-lo.

Já a região onde os cultos surgem, tende a interferir diretamente na filosofia da religião e no aspecto dos deuses. Tomemos como exemplo os celtas da Grã-bretanha, cujo panteão era intimamente ligado com o modo de vida do povo daquela região. Cada um dos deuses celtas influenciava um aspecto importante da vida para aquele povo e era comum que grandes heróis possuíssem algum traço de sangue divino ou sangue de seres sobrenaturais, como fadas. Existiam deuses da noite, da caça, da floresta, da magia e o ciclo das estações influenciava diretamente o período em que esses deuses eram cultuados através de festivais. Grande parte dos deuses celtas também possuía animais sagrados que os simbolizavam, por exemplo, Cernunnos era representado por um gamo e Morrigan e Cathubodva tinham os corvos como seus mensageiros.

Podemos perceber essas semelhanças entre os povos e suas religiões em diversas outras culturas de nosso mundo, como nos índios norte-americanos e seus espíritos da colheita e da caça, nos gregos com seus deuses do vinho, das artes e da filosofia e nos vikings com seus deuses das runas, dos mares e dos trovões.

Em todos esses povos, os deuses são enormemente “humanos”, possuem os mesmos dilemas que pessoas normais possuiriam e muitas vezes servem de exemplo para as ações da sociedade. Até mesmo deuses de religiões monoteístas, como o deus cristão, que “fez o homem à sua imagem e semelhança”, guardam algumas dessas afinidades com povo e a região onde surgiram e se desenvolveram.

INFLUÊNCIA DIVINA NA RELIGIÃO

Vejamos com mais detalhes os cenários onde os deuses são uma presença marcante na vida social e possuem o costume de intervir no mundo e na vida de seus fiéis, seja através de mensagens, avatares, sonhos ou quaisquer outros “milagres”, como geralmente ocorre em mundos do sistema D20 ou, de uma forma um pouco diferente, em Lobisomem: O Apocalipse.

Nos cenários usuais de D20, os deuses conquistam fiéis através de provas diretas de seu poder e influência, seja abençoando uma colheita, salvando uma comunidade de um desastre certo ou ajudando um reino em guerra a eliminar seus adversários. Importante observar que esses feitos podem ser realizados diretamente pelos deuses, através de seu poder ou do de seus avatares, ou indiretamente, através de seus fiéis. O maior desafio das religiões é, com tantos deuses no mundo, provar a validade de seu deus e o que faz dele a melhor escolha para as pessoas. Outro desafio comum é o conflito aberto, seja filosófico ou armado, entre religiões que possuem ideologia e práticas opostas, por exemplo, uma religião benevolente e pacífica teria, naturalmente, como seu maior adversário uma religião que seguisse um deus belicoso e tirano.

A crença aqui tende a ser tão diversa quanto os aspectos da vida, sendo comum a existência de diversos panteões. É comum também a existência de deuses com uma mesma área de influência, mas ideologias e práticas opostas. Por exemplo, um mesmo povo poderia reconhecer a existência de um deus que representa o lado neutro e imparcial da morte, como uma representação do inevitável ciclo da vida e de outra divindade que representa a morte violenta, o massacre, o assassinato e a destruição. Mesmo que ambos compartilhem o mesmo conceito, a morte, as visões sobre ela são radicalmente diferentes.

Em Lobisomem: O Apocalipse, os aspectos mais fortes da religiosidade Garou são animistas. Mesmo Gaia sendo a deidade principal e àquela a qual os Garou devotam suas vidas e mortes, existem séries de outros espíritos poderosos e influentes com os quais os lobisomens lidam constantemente. A relação deles com esses espíritos é mediada por diversos rituais que crescem em dificuldade de execução e importância tanto quanto mais poderoso for o espírito. E são esses espíritos que ensinam aos Garou os seus dons mágicos e parte de seus costumes, por isso, os theurge, lobisomens nascidos sob a lua crescente e sacerdotes dentre os Garou, são considerados sábios e essenciais na sociedade. Esse relacionamento próximo com a natureza e com os espíritos (tanto naturais quanto ancestrais) nos remete diretamente às religiões animistas de origem africana, das quais deriva o nosso candomblé e a crenças indígenas da América.

À IMAGEM E SEMELHANÇA

Outro tipo possível de culto religioso pode basear-se em duas hipóteses: 1) os humanos teriam criado deus a partir de seu desejo por uma explicação para coisas que vão além de sua compreensão; 2) os humanos podem criar ou transformar tradições religiosas de acordo com as necessidades de sua sociedade. Nessas duas hipóteses, caso os deuses existissem, eles seriam criação (no primeiro caso, deus seria uma criação inconsciente e no segundo, a divindade seria uma criação consciente) dos seres que os cultuam e, muito provavelmente, justificariam suas ações e representariam sua natureza verdadeira.

Para o primeiro caso eu cito Berserk, um manga escrito há mais de 10 anos por Miura Kentarou. No capítulo 83, o autor revela parte da cosmologia do mundo através da conversa de um dos personagens, Griffith, com o suposto “Deus” de seu mundo. Griffith, que estava para se tornar divino após usar um artefato mágico chamado Behelit, fica inconsciente e se vê flutuando em meio a um “mar de emoções”, que segundo a voz do “Deus” são as mesmas emoções que todo ser humano guarda nas profundezas de sua alma. Enquanto conversam, “Deus” revela a Griffith que ele nasceu desse oceano de emoções sombrias que fazem parte do inconsciente coletivo humano e que ele é a “consciência” daquele oceano, as sombras que existem dentro de cada ser humano, a idéia de Mal. Ele revela que surgiu porque os humanos desejavam razões para a vida, para a tristeza, para o destino, para a dor e para todo tipo de sentimentos e sensações que possuem e que Ele havia nascido exatamente para prover essas razões, para controlar o destino da humanidade de acordo com a “essência” dos humanos. Esse “Deus” de Berserk é um ótimo exemplo de divindade criada pelo desejo coletivo de uma raça, uma divindade que expressa e guia essa raça de acordo com sua verdadeira natureza. Uma deidade assim domina e influencia todos os aspectos da vida e, uma das formas possíveis de “adorar” tal ser seria seguir exatamente o que ele representa, a natureza da raça, aceitar todos os desejos e sentimentos sem restrição. Apesar de ser inicialmente difícil imaginar, um cenário governado por um “Deus” assim proporcionaria ótimas oportunidades para interpretação, uma vez que poderiam ser explorados vários temas que são inquietantes para nós, como seres humanos. Afinal, todos esses “desejos sombrios” poderiam ser formas diferentes da influência de “Deus” na vida mundana e, justamente os que se rendem a esses sentimentos, estariam de acordo com a vontade divina, tornando o autocontrole um verdadeiro esforço heróico.

Para o segundo caso, existe um exemplo mais próximo de nós, a reforma protestante. Um dos fatores essenciais para o desenvolvimento do protestantismo na Europa, foi que naquela época, com o crescimento do comércio proporcionado pelo período das Grandes Navegações, diversos comerciantes foram se afastando da fé católica, que promovia interesses contrários ao seu desejo de enriquecimento e acumulação de bens. O protestantismo preenche esse vazio religioso quando propõe, por exemplo, que as riquezas são um sinal da graça de “Deus”. Assim, a fé protestante cresce rapidamente entre a nova classe de comerciantes e torna-se popular também entre muitos monarcas, principalmente nos principados germânicos. Posteriormente, como estudado em um dos livros de Max Weber, vemos que o protestantismo acaba por impulsionar o desenvolvimento do capitalismo, mas isso já é um assunto para outros artigos. Mesmo que uma religião não tenha como interesse principal alterar sua forma de culto para se adequar a novas exigências sociais, vemos que é algo possível e nada incomum de acontecer. Tanto catolicismo quanto protestantismo são religiões cristãs, mas sua forma de culto tem variado cada vez mais desde a cisão inicial entre as duas.

Espero que essas breves idéias possam servir de auxílio e inspiração para vocês. Ainda existem diversos outros tipos de cultos religiosos a serem abordados, como o Budista, o Taoísta e o Islâmico, mas após esse artigo, espero ouvir as perguntas e a crítica de vocês, para que possamos continuar com o desenvolvimento das nossas idéias através da troca de experiências. Vemos-nos semana que vêm, discutindo um tema raramente abordado, mas que com certeza está lá em todos os cenários. Hasta!

4 Comentários

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  1. alvaro disse:

    como sempre muito competente seus artigos acho que a ideia de reforma é uma ideia muito interessante !

  2. Elutark disse:

    Confesso que esta serie de artigos esta me motivando a escrever um cenário, e sobre religião gostaria de ler um artigo focando uma religião sem um deus como a budista nos cenários de RPG, um foco diferente e interessante saindo do "arroz com feijão" de uma religião politeísta.

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