Curva de Desenvolvimento – Tão velho quanto a Civilização…

Por Aguirre Chaves

Olá pessoal! No artigo de hoje, abordaremos um tema fundamental para dar vida a sociedades em mundos de RPG: os conflitos sociais. Se em nosso mundo, onde existem apenas “humanos normais”, vemos diversos conflitos e diferenças sociais diariamente, imaginem então o que aconteceria em realidades onde existem magos poderosos, elfos, anões, dragões e seres extraplanares?

Os conflitos sociais são a força motriz de diversos cenários de RPG. Por exemplo, em FFVII a história tem início quando Cloud, um mercenário, alia-se a um grupo de “terroristas” para destruir reatores de energia de uma mega-corporação, Shin-ra, e tentar salvar o planeta da poluição. E o que seria do mundo de Toril sem o conflito entre a Simbul e a magocracia do reino desértico de Thay?

Para recriarmos esses conflitos sociais e suas conseqüências em nossos cenários de RPG, precisamos antes entender algumas das relações entre os grupos que deles participam. Tomemos como primeiro exemplo um mundo medieval “normal”.

RELAÇÕES SOCIAIS EM CENÁRIOS MEDIEVAIS

Os indicadores típicos de poder nessas sociedades são títulos de nobreza, militares ou de honra; posse de um nome tradicional ou descendência de linhagens importantes; e posição ideológica influente, que pode advir de cultos religiosos, ordens arcanas ou até mesmo escolas filosóficas. Propriedades e poder econômico podem fazer diferença, mas não sobrepõe o lado tradicional e os costumes da comunidade.

Um bom exemplo para isso seria uma sociedade teocrática, onde os sacerdotes de determinada religião exercem ampla influência social e coordenam a vida local. É provável que, em um lugar assim, toda a vida das pessoas gire em torno de alianças com essa religião dominante e que o prestígio social venha justamente de posições dentro dessa ordem. Portanto, a forma mais simples que podemos imaginar de conflito social aqui vem junto com uma pergunta: o que aconteceria com os opositores dessa religião?

É natural que todos aqueles que estejam à margem dessa sociedade ou que tenham algum tipo de conflito com a religião dominante, formem uma oposição a ela. Essa oposição estende-se desde o simples descontentamento até rebelião por parte daqueles que se sentem excluídos ou lesados. E caso esse conflito desempenhe um papel importante no cenário, torna-se dever do mestre determinar quais são as possibilidades de envolvimento, voluntário ou involuntário, dos personagens jogadores com ela. Se eles podem opô-la e lutar pela ordem vigente, juntar-se à oposição e tentar mudar a sociedade ou se há a possibilidade de serem pegos no meio desse conflito sem querer, caso eles fossem indiferentes a ele ou viessem de outra região.

Outro fator importante é dar uma cara para essa oposição. A forma como esse aspecto será utilizado pelo mestre influencia diretamente no clima do jogo, uma vez que é essa “cara” que define se a oposição será um conflito aberto, de ideais ou armado, uma conspiração que opera sem o conhecimento da elite ou simplesmente uma tensão entre os membros privilegiados pela religião dominante e os demais.

Essa hipótese pode desenvolver-se também em lugares onde a nobreza e a linhagem sejam mais influentes e, caso o mestre deseje detalhar mais as relações sociais em seu cenário, todos os três fatores podem ser combinados, gerando uma intrincada cadeia de relações de poder. Nesse caso, teríamos não somente conflitos entre “dominantes e dominados”, mas também conflitos entre os membros proeminentes da sociedade pelo controle e manutenção do poder dos grupos aos quais pertencem.

Sob essa ótica, poderíamos desenvolver um cenário onde o governante local oprimisse os habitantes através de altos impostos e confisco de bens, gerando a insatisfação popular. Pensemos que, apesar de insatisfeito, o povo não pode se rebelar abertamente contra o governante, pois este possui mecanismos para garantir o seu poder, como uma tropa poderosa. As pessoas aqui, mesmo não podendo se rebelar abertamente, seriam hostis ao governante, podendo recorrer a métodos para burlar as leis, como desenvolvimento de mercado negro ou formas de burlar a fiscalização. Agora, imaginem se os personagens dos jogadores fossem viajantes de outro reino ou representantes de uma ordem religiosa que possui valores opostos aos do governo local. Ao presenciar as dificuldades locais, abrem-se diversas opções para eles: o grupo pode juntar-se a população para tentar minar o domínio do governante através de uma conspiração; eles podem pedir ajuda de seu reino, ou ordem religiosa, para depor o governante através de uma ação militar; ou, caso sejam aventureiros independentes, ainda podem buscar se aliar com outros governantes para derrubar o tirano local. Em qualquer um desses casos, teríamos além do conflito interno entre a “classe dominante” e a “classe dominada”, fatores externos influindo diretamente nas tensões sociais e na disputa por poder, que são uma possível ordem religiosa, governos externos ou outros grupos revolucionários.

RELAÇÕES SOCIAIS EM CENÁRIOS MODERNOS

Em cenários modernos o status social assume um papel complementar e, os fatores decisivos para determinar a influência de indivíduos ou grupos sociais tornam-se o poder econômico e a propriedade. Os meios de influência e de divulgação de informações são amplos, o que possibilita uma melhor organização de grupos sob um mesmo ideal ou a massificação do pensamento dos “dominados” por parte dos “dominantes”, criando um outro nível de conflito social. O transporte para partes distantes também se torna mais fácil, o que abre possibilidades para migração ou fuga de pessoas, de uma região para outra do mundo.

Dada a importância da propriedade privada, os conflitos sociais geralmente ocorrem entre “os que possuem” e “os que não possuem” e grandes proprietários de bens, como grandes empresas, tendem a agir sob suas próprias leis.

Uma empresa multinacional que decide trocar uma região na qual está instalada há muito tempo por outra, menos desenvolvida e que possa gerar-lhe mais lucros, criando assim um forte desemprego e uma queda na qualidade de vida na região abandonada, inclui-se perfeitamente nesse cenário. Os conflitos gerados por esse “abandono” de uma região em favor de outra, por parte da empresa, podem ser: com o aumento do desemprego e diminuição das oportunidades, pode ocorrer um aumento na criminalidade; os trabalhadores lesados podem organizar um boicote contra os produtos daquela empresa ou organizar-se em sindicatos para tentar lutar contra ela; podem ser criadas na região formas alternativas, informais ou ilegais de emprego para acomodar os desempregados, dentre diversas outras hipóteses.

Transportando esse tema para um cenário mais fantástico, podemos trabalhar com o exemplo de Shadowrun, cujo mundo moderno era igual ao nosso, até que subitamente a magia retorna e diversos seres fantásticos, como elfos, orks, elementais e dragões, voltam a aparecer e nascer no mundo. Após a primeira “onda de transformações”, novos conflitos tomam conta da sociedade. Trolls sofrem enorme preconceito racial, enquanto elfos são admirados por sua beleza e graça; os índios norte-americanos, ao recuperar suas magias e seu contato com os espíritos, se insurgem e fundam um enorme “estado indígena” no coração dos Estados Unidos; dragões e serpentes emplumadas dominam o México e outros países da América Central; e magia passa a existir lado a lado com tecnologia de ponta, o que demanda ainda maior cautela por parte dos magos, pois, por não poderem utilizar implantes cibernéticos, precisam compensar com esperteza e adaptabilidade para não morrer pela lâmina afiada de um samurai urbano.

Temas assim podem dar diversidade e um sabor especial a cenários modernos, onde, além das tão familiares tensões entre as classes sociais e conflitos de interesse, teríamos raças realmente diferentes, espíritos poderosos e monstros desconhecidos, o que adiciona uma certa imprevisibilidade ao clima do jogo. Um último fator muito importante são os conflitos sociais que podem surgir com o choque de culturas, como quando uma comunidade de um país migra para uma região com modo de vida diverso do seu ou, como acontece recentemente no conflito dos Estados Unidos com o Iraque, onde os soldados americanos se vêem como salvadores de um povo oprimido e, parte desse mesmo povo que eles desejam “salvar” se ergue contra eles, por considerá-los invasores e assassinos.

No fim, tudo depende do clima e da ambientação que o grupo de jogo deseja abordar. Temas políticos e fantásticos podem ser utilizados juntos ou separadamente, e com igual versatilidade, em cenários antigos ou contemporâneos. A idéia principal então é que enquanto existirem diferenças entre formas de pensar, distribuição de privilégios e estilos de vida, sejam elas voluntárias ou não, teremos muito “pano para manga” e vários conflitos diferentes para criarmos em nossos jogos. Esperamos vocês na próxima semana, onde daremos início a um novo arco de temas. Hasta!

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