Entrevistas sobre 2009 – Maria do Carmo Zanini

É hora de dar sequência a série de entrevistas sobre o mercado de RPG em 2009, que entra em sua reta final agora em Abril. Recapitulando: alguns meses atrás dei início a um pequeno experimento – mandei  uma proposta de mini-entrevista para 14 figuras e grupos que considero importantes na cena do RPG nacional, com perguntas padronizadas sobre como avaliavam o ano que estava acabando. A idéia não era fazer uma mega pesquisa com centenas de entrevistados, mas tentar montar um mosaíco com algumas peças chaves do RPG por aqui, e com base nas opiniões e pontos de vistas de cada um iniciar uma discussão sobre os rumos do hobby no Brasil. As últimas entrevistas postadas aqui foram do Daniel Anand do blog Rolando 20 e do Armando Maximus do Portal RPGOnline, e agora vamos com as respostas da Maria do Carmo Zanini, editora e responsável pela linha do Mundo das Trevas na Devir:

1- Como você avalia o ano de 2009 para o mercado nacional de RPG? De forma geral foi um ano melhor ou pior que o anterior? Por quê?

Antes da resposta, dois poréns. Primeiro, eu passei cinco meses do ano de 2009 em licença-maternidade, pensando só em fraldas e mamadeiras; portanto, o ano foi uma espécie de lacuna profissional na minha vida e acabei não acompanhando de perto o que se produziu, publicou e comentou durante 2009. Nesse aspecto, só tenho impressões a dar, que podem simplesmente não significar nada. Segundo, estou presumindo que “mercado nacional de RPG” inclua jogos projetados e desenvolvidos lá fora, traduzidos para a língua portuguesa e publicados no Brasil, e não apenas os jogos desenvolvidos e publicados por autores e editoras nacionais.

Dito isso, minha impressão é de que o mercado nacional de RPG andou desaquecido uma boa parte do ano. Acho que, se alguém contar o número de títulos lançados pelas editoras do segmento aqui no Brasil em 2008 e 2009, é provável que esse desaquecimento apareça. As causas disso, se é que esse desaquecimento existe, talvez estejam: 1. na crise econômica, que nos atingiu com menos intensidade do que lá fora, mas se fez sentir mesmo assim (e as pessoas obrigadas a controlar o orçamento sempre cortam o entretenimento primeiro); 2. mas principalmente na aparente redução da, digamos assim, “bolha” do hobby. A meu ver, o RPG sempre foi uma atividade de nicho restrito, com relativamente poucos praticantes. Em alguns momentos da história do hobby, houve um crescimento acelerado do número de praticantes e, consequentemente, do número de títulos publicados. A isso estou chamando de “bolha”. A impressão que tenho é de que, nos últimos anos, estamos vendo o reflexo da diminuição de uma dessas bolhas.

Falando do Mundo das Trevas Storytelling, que é a linha com a qual trabalho, foram publicados pelo menos sete produtos em 2008, e apenas dois em 2009. Obviamente, minha licença-maternidade teve tudo a ver com essa queda na produção. Por outro lado, alguns títulos publicados em 2008 aparentemente só foram descobertos pelos consumidores em 2009. É o caso de Lobisomem: os Destituídos, que não teve o desempenho esperado no lançamento, mas vem saindo com regularidade nos últimos meses. A reimpressão do Livro de Regras do Mundo das Trevas em 2009 também parece ter agitado um pouco as coisas no desempenho geral da linha.

Em 2007 e 2008, a grande expectativa do mercado de RPG lá fora parecia girar em torno da quarta edição de Dungeons & Dragons. Algumas editoras norte-americanas esperavam que D&D renovasse o interesse dos gamers pelos RPGs. Não tenho certeza se essa expectativa foi atendida pelo novo D&D, mas acho que a publicação, no Brasil, da quarta edição pela Devir Livraria em 2009 voltou a colocar RPGs nas prateleiras das grandes livrarias. Obviamente, a melhor pessoa para comentar isso é o editor da linha, Otávio A. Gonçalves. (nota do Rocha: mandei um questionário da entrevista para o Otávio mas ele não respondeu ainda, ou seja, acho que infelizmente não veremos os comentário do editor do D&D no Brasil)

2- Qual foi a melhor notícia, iniciativa ou lançamento do RPG nacional este ano na sua opinião?

Pergunta complicada, porque notícia, iniciativa e lançamento implicam avaliações bem diferentes. Acho que, em termos de impacto no público consumidor, nada supera a publicação da quarta edição de Dungeons & Dragons.

3- De forma mais geral, como você enxerga o ano de 2009 para o mercado mundial de RPG? E qual a notícia, iniciativa ou lançamento que mais se destacou neste ano?

A impressão que tenho é a de que, à exceção da Wizards of the Coast, que passou 2009 publicando muita coisa de D&D 4 ed. e Star Wars Saga, as outras editoras, grandes e pequenas, tiraram o pé do acelerador. A White Wolf, por exemplo, lançou pouca coisa, se compararmos com a produção em anos anteriores, talvez porque já tenha esgotado as possibilidades de algumas linhas. E as publicações mais recentes enfatizaram o livro eletrônico e a impressão por demanda. Vi uma ou outra coisa interessante da Pinnacle, e Alderaac parece ter se concentrado nos card games. Impulsionados, talvez, pela facilidade da publicação eletrônica, os indies parecem ter proliferado, mas nesse meio há muita coisa ruim e várias mesmices.

Geist: the Sin-Eaters, da White Wolf, é o meu destaque para 2009. Se bem que Mouseguard, pelo que me lembro, foi muito comentado… E eu destacaria também Little Fears, the Nightmare Edition, de Jason Blair.

4- Quais foram seus principais projetos, lançamentos ou iniciativas em 2009? Eles responderam as suas expectativas?

Eu tinha grandes expectativas para 2009, como publicar Mago: o Despertar, por exemplo. Mas a licença-maternidade… No entanto, fico feliz por ter conseguido fazer uma reimpressão bem decente do Livro de regras do Mundo das Trevas, e a volta do livro às prateleiras parece ter ajudado a alavancar outras publicações da linha.

5- Quais são suas expectativas para o mercado de RPG nacional para 2010?

Se minha impressão estiver correta, com a redução da bolha, o nicho do RPG vai ficar mais apertado. A menos que alguém apareça com um jogo realmente original e interessante que agite o mercado, acho que poucos jogos vão sobreviver. E minha tendência é achar que os jogos mais conhecidos e estimados pelo público serão os sobreviventes.

6- Você já tem projetos, lançamentos ou iniciativas previstos para o ano que vem? Se sim nos fale um pouco sobre eles!

Além de lançar Mago: o Despertar e Nova Orleans: Cidade dos amaldiçoados, pois promessa é dívida, já está nos meus planos uma reimpressão de Vampiro: o Réquiem e a publicação de Changeling: the Lost, que, na minha opinião, é um dos melhores jogos do Mundo das Trevas Storytelling. Também planejo publicar pelo menos mais um suplemento para a linha básica (muito provavelmente Second Sight: poderes psíquicos e feitiçaria pé no chão para personagens mortais) e, se tudo der certo, continuar a publicar os roteiros introdutórios de Vampiro, Lobisomem e Mago. (mais uma nota do Rocha: quando a Maria do Carmo respondeu a entrevista Mago: o Despertar ainda não havia sido lançado. O livro já saiu e pode ser adquirido aqui)

Comentários: A Maria do Carmo foi a primeira entrevistada que do ponto de vista do aquecimento do mercado colocou 2009 como um ano mais fraco para o hobby em comparação com 2008. Claro que como ela mesmo diz, a linha do Mundo das Trevas sofreu uma diminuição no ritmo devido a sua maternidade, mas analizando a editora como um todo, ou seja, agregando a linha Dungeons & Dragons a análise, acho que o número de lançamentos da Devir em 2009 superou o de 2008 não? Mas concordo em um ponto – menos editoras nacionais lançaram livros de RPG em 2009 do que vimos em 2008.

Em relação a bolha e as expectativas para 2010, já acho o contrário – temos visto o sucesso daqueles que produzem bons RPGs indies e autorais, como foi o caso do Mouseguard ou mais recentemente do pessoal da Evil Hat Games, já que as compras pela internet se tornaram algo cotidiano, possibilitando o acesso a um número muito maior de pessoas, ou seja, tornando os micro-nichos dentro do nicho do RPG viáveis. Pessoalmente também acho que uma parcela do público que antes conseguia sanar suas necessidades de jogo com o D&D 3.5 e sua licença aberta, que viabiliza milhares de suplementos e variantes, não mais encontra isso na 4ª edição, e tem procurado resolver isso se voltando para lançamentos mais autorais e independentes. Mas isso é só um chute baseado na realidade do meu grupo de jogo.

No mais quero ver a edição nacional do Mago: o Despertar, meu jogo favorito do Mundo das Trevas já que dizem que edição nacional está excelente, e quando for lançado o Changeling: the Lost, que ainda não vi como ficou nesta (nem tão) nova linha da White Wolf. E claro, gostaria de agradecer a Maria do Carmo por ter arrumando um tempinho entre cuidar da filhota e do Mundo das Trevas para responder a entrevista!

7 Comentários

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  1. césar/kimble disse:

    O Mago traduzido realmente ficou muito bom. Eu sou chato com a qualidade dos livros, mas o livro está bonito e com uma boa qualidade de tradução.
    É ótimo saber que vão lançar Changeling porque só ouço elogios sobre esse livro. Não entendo porque lançar Nova Orleans considerando a quantidade de reclamações sobre esse livro (falta de consistência, informações contraditórias, etc.) enquanto existem outros similares e mais interessantes (como o Shadows over Mexico) mas pelo menos finalmente teremos um livro de cenário do WoD.

  2. Tek disse:

    Rocha, pode adiantar de quem (ou de qual "segmento") será a próxima entrevista?

  3. Rocha disse: (Author)

    A próxima é a de vocês : )

  4. Tek disse:

    Nossa, já? Então estão acabando né? Na RPGCon a gente podia fazer uma mesa redonda e discutir o primeiro semestre de 2010, o que acha?

    • Rocha disse: (Author)

      Está acabando sim, faltam mais duas ou três, se o D3 parar de enrolar e responder! Ué até podemos, eu tô garantido na RPGCon!

  5. Arquimago disse:

    Também estou esperando os livros novos, mas não joguei ainda no cenário novo, só li o livro básico e vampiro

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