Curva de Desenvolvimento – As Cidades (Parte 2)

Nesta semana daremos continuidade ao tema da semana passada, tratando das cidades em um mundo de fantasia medieval, mas agora abordando com maior ênfase os efeitos e possibilidades da magia nas áreas urbanas e seus arredores. Afinal, não podemos esperar que uma cidade que tenha entre seus habitantes pelo menos alguns clérigos e magos seja exatamente igual a um povoado da Idade Média. E mesmo os camponeses, que dificilmente tem acesso a magia, são profundamente afetados por seus efeitos, seja através de melhorias nas colheitas proporcionadas por um mago contratado pelo lorde local, ou pela infelicidade de cruzar seu caminho com um cocatriz.

A MAGIA NA SOCIEDADE

Dentre seus diversos (e às vezes imprevisíveis) efeitos, a magia tende a tornar uma sociedade mais estável economicamente, através de maiores colheitas, proteção mais eficiente contra invasões e pestes. Dessa forma a cidade se torna capaz de suportar uma maior população, que pode atingir números impressionantes se comparados com as cidades da nossa Idade Média. Assim os reinos podem suportar uma expansão intensa e criar exércitos ainda mais numerosos, mas talvez a relação desproporcional entre nobres e camponeses se torne ainda mais aguda, já que esse aumento populacional se daria principalmente nas classes mais baixas, que teriam sido as mais afetas pela peste e fome. Uma possível conseqüência desse crescimento seria o surgimento de pequenos vilarejos ao redor da cidade principal, que dificilmente suportaria o crescimento populacional dentro de suas muralhas por muitas décadas.

A MAGIA NO COTIDIANO DA CIDADE

A simples presença de magia é o suficiente para modificar, às vezes de maneira drástica, outras imperceptíveis, o funcionamento de instituições e costumes que regem alguns aspectos da vida na cidade. A profundidade e extensão destas modificações variam de acordo com o mundo, em um cenário onde a magia é mais presente e comum, como Eberron, as mudanças no dia-a-dia devido à presença de magia são mais perceptíveis do que as mudanças em mundo de baixa magia, onde os usuários de magia existam em menor número ou sejam menos capazes de afetar a realidade.

Por exemplo, o sistema judiciário de uma cidade onde os magos sejam comuns pode ser muito mais efetivo com o uso de magias que detectem mentiras, assim como fugitivos podem ser mais facilmente localizados e trazidos à justiça. De forma semelhante às cidades podem fazer um bom uso da magia para a purificação, ou pelo menos o controle de qualidade da água, melhores colheitas, previsão de catástrofes naturais, controle de incêndios, exploração mais eficiente de recursos naturais, e até mesmo iluminação e transporte públicos, como novamente ocorre em Eberron, mesmo que alguns jogadores tenham achado um tanto estranho. Na verdade a grande sacada dos autores nesse ponto foi apresentar as conseqüências mais prováveis para a presença abundante de magia típica da maioria dos cenários de fantasia medieval.

SERVIÇOS MÁGICOS

Mesmo sem nenhum conhecimento dos caminhos da magia, ainda é possível ter acesso a seus benefícios, desde que se possa pagar é claro. Magos, druidas e clérigos podem não apenas realizam uma ampla gama de serviços, desde curar ferimentos e doenças, até reparar objetos, abrir ou trancar magicamente portas e baús, ler pensamentos e enviar mensagens, como os mais habilidosos podem também criar itens mágicos, que podem ser utilizados por qualquer um. A presença de itens mágicos pode depende principalmente do número de magos que existem na cidade e de seu poder, e mesmo em cenários onde a magia seja bastante comum esses artefatos serão caros e encontrados em grande número somente nas mãos de homens ricos e comerciantes.

Magos em um cenário de fantasia podem facilmente se manterem vendendo seus serviços, desde que conheçam algumas mágicas que sejam efetivas não apenas em situações muito específicas – como as de combate. Dessa forma é possível que um aprendiz passe a vida toda sem se aventurar em uma masmorra ou enfrentar um orc, e provavelmente tenha uma vida muito mais longa assim!

ECOLOGIA MÁGICA

A magia pode afetar uma cidade não apenas através de feitiços e itens mágicos, mas também pela presença, quase sempre indesejada, de criaturas mágicas em suas redondezas.

Ao criar uma cidade em seu mundo, dedique alguns instantes para definir quais criaturas mágicas existem na região, e se são comuns, raras ou incomuns. Esse processo pode ser feito da mesma forma que é feito o ecossistema convencional: Analise o clima e terreno do local, e procure colocar criaturas que sejam coerentes com seu habitat. Outra dica é procurar seguir ao menos um esboço de cadeia ecológica, ou seja, não apenas povoar uma região de predadores exclusivamente carnívoros, pois em pouco tempo eles trarão a própria extinção.

Tenha em mente que a base de um ecossistema é sua vegetação, ao menos na maioria dos casos. É por isso que ambientes desérticos abrigam menos formas de vida, já que possuem uma vegetação escassa e de menor variedade. Claro que algumas bestas mágicas não seguem esse conceito, existindo espécimes que se alimentam de ferrugem, magia, ou mesmo sequer se alimentam. A chave é saber misturara a ecologia “comum” com a mágica, para obter resultados coerentes e interessantes.

Como toque final, cabe ao mestre estabelecer como o ecossistema mágico influência a cidade próxima. Os camponeses já tiveram encontros trágicos com o bando de Ankhegs? Os guardas organizam grupos de busca para caçá-los? Ou talvez a presença de um Behir próximo às estradas tenha tornado os preços do mercado da vila um pouco mais elevados, já que duas caravanas foram destruídas nos últimos meses. A própria presença de criaturas mágicas pode ser um incentivo ao crescimento da região caso eles possam ser domesticados ou possuem alguma propriedade ou característica valiosa, como uma pele apreciada pela nobreza local, ou que de seu sangue possa ser feito um elixir que cura uma doença comum na região. Como sempre, o limite é apenas sua imaginação.

Assim terminamos nossas reflexões sobre as cidades. Estejam conosco mais uma vez na próxima semana, quando abordaremos alguns fundamentos básicos do povoamento, até mesmo de fantasia!

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