Entrevistas sobre 2009 – Douglas D3

Em Dezembro de 2009 dei início a um pequeno experimento – enviei uma proposta de mini-entrevista para 14 figuras e grupos que considero importantes na cena do RPG nacional, com perguntas padronizadas sobre como avaliavam o ano que estava acabando. A idéia não era fazer uma mega pesquisa com centenas de entrevistados, mas tentar montar um mosaíco com algumas peças chaves do RPG por aqui, e com base nas opiniões e pontos de vistas de cada um iniciar uma discussão sobre os rumos do hobby no Brasil. Agora estamos em Maio e após esperar um pouco por algumas entrevistas, e enrolar um bocado também com algumas que já estavam prontas, é hora de terminar a série com as últimas 3 entrevistas.

Desta vez vamos com um velho conhecido dos jogadores de RPG nacionais, Douglas D3, durante muitos anos editor do Dungeons & Dragons na Devir, por um bom tempo um dos organizadores do EIRPG, e atualmente  organizador da bem sucedida RPGCON e do blog colaborativo D3system:

1- Como você avalia o ano de 2009 para o mercado nacional de RPG? De forma geral foi um ano melhor ou pior que o anterior? Por quê?

Foi um ano de altos e baixos. De alto, tivemos a explosão de material nos blogs, o desenvolvimento ou nascimento das diversas Iniciativas (4e, M&M, 3D&T e GURPS), a publicação de produtos em PDF, como o Cálice de Avandra e a volta da RPG Magazine, além de uma movimentação concreta na interrelação dos geradores de conteúdo, seja na fusão de blogs (como o próprio d3system e o Paragons, entre outros).

Como pontos baixos, tivemos o adiamento do EIRPG, os problemas de alfândega que impediram o apoio da Wizards of the Coast aos eventos brasileiros e da América do Sul, a ausência da Daemon e da Conclave no mercado e a interrupção do suporte ao D&D 3.5 pela Devir com o esgotamento do Livro do Jogador.

Foi um ano ruim, mas foi melhor que 2008. Os livros da Jambô e da Devir chegaram às prateleiras, novos eventos aconteceram no Sul, Norte e Nordeste, e o segundo semestre trouxe muitas promessas de renovação em títulos e linhas.

Vai soar tendencioso, mas os dois pontos mais altos foram: 1) A união da comunidade em torno da RPGCON, um evento feito na raça, que teve seus problemas, mas recebeu uma ótima aceitação e críticas positivas até inesperadas da comunidade e 2) os lançamentos de D&D 4ª Edição com regularidade nas mãos do novo editor, o Otávio Gonçalves.

2- Qual foi a melhor notícia, iniciativa ou lançamento do RPG nacional este ano em sua opinião?

Em 2009, eu fico com a 4ª Edição de Dungeons & Dragons, e seu rebento mais ilustre, a Iniciativa 4e capitaneada pelo Daniel Anand. Esse movimento criou outras iniciativas, trouxe mais gente para produzir material inédito de diversos sistemas e mostrou que os jogadores anseiam por mais conteúdo, mas nem sempre têm o acesso que a gente espera.

Menção honrosa à RPGCON, mas essa é “prata da casa”, então não vou me estender.

3- De forma mais geral, como você enxerga o ano de 2009 para o mercado mundial de RPG? E qual a notícia, iniciativa ou lançamento que mais se destacou neste ano?

Eu acompanhei a explosão de títulos e editoras durante a abertura da Licença D20. Muitos títulos eram bons (como Wheel of Time), outros eram difíceis de assimilar (como CoC d20), mas havia muito material sendo produzido. A GSL – a licença aberta da 4ª Edição – jogou água nessas editoras, congelando a liberdade dos criadores de conteúdo e cenários. Mesmo hoje, são poucos os autores que entraram na nova licença.

Por outro lado, a Paizo ofereceu uma alternativa para não deixar esse mercador perecer.

Não é uma questão de discutir o sistema “melhor” ou “pior”, mas sim a dinâmica de mercado lá fora. A Wizards tomou uma postura, que teve resposta das outras editoras.

Acredito que no mercado mundial, 2009 serviu para ampliar o precipício que existe entre a Wizards e as demais editoras, fundamentando cada “grupo” na sua plataforma e, de uma forma ou de outra, definindo o tamanho do público para cada lado.

Acho que D&D assumiu uma postura mais autêntica, próxima do produto original — um jogo de tabuleiro que permite o desenvolvimento de histórias e a interpretação, mas que não depende das últimas para funcionar – enquanto o restante do mercado deu um passo atrás e voltou a experimentar regras, sistemas e cenários distintos, liberto da fórmula de vendas que era o sistema d20.

Se isso é bom ou ruim, ainda veremos.

4- Quais foram seus principais projetos, lançamentos ou iniciativas em 2009? Eles responderam as suas expectativas?

Eu faço um monte de coisas. De longe, a RPGCON foi o melhor projeto. Quando a Janaína e o Wallace abraçaram a idéia, e a comunidade respondeu afirmativamente, o evento se tornou meu maior trabalho do ano.

Recapitulando, eu passei o bastão da 4ª Edição para o Otávio em abril. Em maio, fizemos o lançamento do d3system com os colaboradores, inauguramos a d3store (nossa, não temos nem um ano de loja ainda!) e disparei o projeto da RPGCON. Depois ajudamos em pequenos eventos (realizando ou divulgando). Todos esses projetos atenderam às expectativas.

No final do ano, com o esgotamento do Livro do Jogador 3.5 e a grande aceitação da Pathfinder, assumi o projeto OGL 20, que estava com a equipe da REDE RPG. Esse material ainda está no forno, em especial para se beneficiar do lançamento do Tormenta RPG, que trará regras básicas para o sistema d20; o Cálice de Avandra, a aventura da Iniciativa 4e, atingiu 50 exemplares vendidos, ficando bem abaixo das minhas expectativas. Assim, quero investir no mercado em PDF, mas ainda não sei como fazer isso para nosso mercado. O pessoal do RetroPunk tem um projeto de publicação em PDF do Trails of Cthullhu, e talvez eles descubram uma fórmula melhor.

Paramos com o d3system no final do ano, para colocar as vidas em ordem. Eu retorno com material ainda essa semana, agora com periodicidade nas publicações.

5- Quais são suas expectativas para o mercado de RPG nacional para 2010?

Quando recebi essa pergunta, minhas expectativas eram realizar a RPGCON, lançar o OGL 20 e produzir mais números da Iniciativa 4e.

Mas as coisas mudam rapidamente. Agora estou buscando uma forma de publicar um livro-jogo sobre situações cotidianas, prospectando a RPGCON para outros estados (Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais), aguardando as novidades sobre os lançamentos da Jambo e da Devir para definir a publicação da OGL 20, e terminando de organizar um espaço nerd na Virada Cultural de São Paulo.

Esse evento (dias 15 e 16 de maio, na Praça Roosevelt em SP) está consumindo meu tempo, mas é uma oportunidade de mostrar nosso universo para os “manda-chuvas” do setor público e, quem sabe, conseguir uma abertura para obter apoio e espaço no cenário cultural de SP e quem sabe do Brasil.

6- Você já tem projetos, lançamentos ou iniciativas previstos para o ano que vem? Se sim nos fale um pouco sobre eles!

Primeiro, a Dimensão Nerd na Virada Cultural: 15 e 16 de maio. RPG, live-action, associações, desfiles de fantasia e cosplay. A RPGCON está quase pronta, os ingressos e o site vão pro ar em maio.

Até setembro ou outubro, quero realizar outras edições da RPGCON em estados diferentes.

Quero lançar a OGL 20 (as regras do sistema d20) ainda nesse semestre.

Gostaria de retomar a produção das Revistas da Iniciativa 4e e conseguir conversar com o pessoal das outras iniciativas para compilar o material deles também. O retorno do d3system e a RPGCON devem ajudar nesse sentido.

Comentários: Opa, achei interessante como o D3 definiu 2009: “um ano ruim, mas melhor que 2008”. Acho que se os principais fatores para considerarmos 2009 como um ano ruim foram o não acontecimento do Encontro Internacional de RPG e o sumiço da Daemon e da Conclave do mercado, 2010 também está seguindo os mesmos rumos…

A Iniciativa 4e, e na sua esteira, a produção massiva de material por parte dos blogs foi um destaque do ano passado na opinião de muitos dos entrevistados, assim é claro, como a RPGCON e a regularidade da Devir com o lançamento do Dungeons & Dragons 4ª edição, então sem grandes surpresas aqui. Sobre o mercado internacional, concordo um bocado com a idéia que 2009 aprofundou a separação entre a WotC e as outras editoras, e de certa forma o movimento da maior editora de RPG do mundo em direção não só a um novo conjunto de regras, mas também a um novo modelo de jogo, acabou dando mais espaço para que editoras médias e pequenas pudessem experimentar mais sem a fórmula fácil, e relativamente segura, da compatibilidade com o sistema d20.

A RPGCON não foi só o projeto de 2009 deu trabalho ao D3, como também o que mais chamou a atenção da comunidade,  recebendo ume apoio absurdo dos jogadores, mas me chama a atenção que faltando menos de dois meses para a edição de 2010 do evento o site oficial não tenha praticamente nada além da logo… É uma pena ler que o primeiro livro de RPG vendido em formato PDF no Brasil, a aventura Cálice de Avandra, teve uma vendagem abaixo do esperado, mas de certa forma isso pode ser entendido como uma primeira experiência, que embora tenha sido muito legal não contou com ferramentas específicas, como por exemplo uma loja que funcionasse no formato e lógicas adequadas. Mas isso é material para outro post!

Os projetos para 2010 – além da RPGCON II em Julho é claro, também parecem promissores. A possibilidade de uma RPGCON em Minas é muito foda e seria totalmente bem vinda! A participação na Virada Cultural em São Paulo neste próximo fim de semana também parece que vai ser bem legal, com uma mega programação para quem animar. E quero muito ver revistas das outras iniciativas, em especial uma de Mutantes & Malfeitores! Agradeço o D3 pela entrevista, o cara apesar de totalmente envolvido em dezenas de projetos simultâneos é sempre bem receptivo e agregador, acho que é de mais coisas assim que o mercado nacional de RPG precisa…

3 Comentários

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  1. Tek disse:

    Podia pensar em levar o RPGCON pra Brasília, esses eventos têm bastante receptividade por lá. Pelo menos no formato que foi em 2009, acho que encaixaria…

  2. Arquimago disse:

    Realmente, o cara é ocupado e envolvido.

    Sobre o Cálice… eu comprei e tinha uns erros, mandei um e-mail comentando para eles melhorarem o material e ninguém nunca me respondeu (as vezes foi isso que aconteceu, alguém comprou falou que era "ruim" e dai poucos compraram). Mas concordo que o formato não era dos melhores, e também era fácil piratear, a minha pelo menos não veio com meu nome, ou seja para passar para alguém ninguém podia provar.

    Espero que a Retropunk não cometa esses erros.

    E também tem outro fator o Cálice não era tão chamativo, afinal tinham material similar ou melhor de grátis na net, o produto da retropunk é mais "exclusivo".

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