Curva de Desenvolvimento – Nem só de Humanos…

Por Richard Garrell

Os artigos anteriores sobre comunidades, cidades, povoamentos e afins foram concebidos seguindo a proposta do Curva de Desenvolvimento, de auxiliar o mestre de jogo em sua construção de um cenário fantástico. Porém, foram escritos tendo como ponto principal comunidades humanas; nesse artigo e em sua continuação, iremos examinar novamente povoamentos, mas dessa vez, visando especificamente algumas raças fantásticas.

A escolha dessas raças não foi fácil; a fantasia é notória por apresentar um sem número de raças fantásticas interessantes. Optei porém por pegar algumas das raças mais populares da fantasia; por serem particularmente icônicas, é possível utilizar sugestões dadas aqui diversas outras raças fantásticas.

A questão dos estereótipos também precisa ser mencionada: preferi seguir os modelos mais tradicionais e populares das raças apresentadas nesses dois artigos. Não por uma predileção particular por esses conceitos, mas mais uma vez, para tornar o artigo o mais abrangente possível. Com as sugestões apresentadas aqui e outros artigos do Curva de Desenvolvimento, é possível desenvolver com facilidade comunidades de versões alternativas dessas raças.

O primeiro passo a ser tomado pelo Mestre relativo ao povoamento de raças fantástica em seu cenário é analisar a própria natureza da raça em questão. Boa parte das raças fantásticas surgem com propósitos específicos; uma raça de homens-peixe demoníacos foi criada visando servirem como antagonistas para os marinheiros na Costa do Dragão- assim sendo, obviamente estarão distribuídos nos recifes dessa costa. Por outro lado, é possível também que características específicas de uma determinada raça sejam relativizadas em nome de uma trama no cenário de campanha. Os homens-lagarto eram originalmente um raça guerreira dos pântanos, mas após incursões militares particularmente bem sucedidas, ergueram um império sobre o Pântanos do Norte e as Planícies do Sul; a guerra dos anões das montanhas com os gigantes do fogo obrigaram os anões a se exilarem de suas moradas ancestrais e habitarem vales verdejantes. Assim, nem sempre a distribuição de uma raça no cenário obedecerá rigorosamente as características de povoamento iniciais da mesma. No entanto é importante lembrar que raças fantásticas tendem sempre a erguer suas vilas em cidades nos ambientes que lhes são mais propícias, e que algumas raças são de fato impossibilitadas de viverem em outro local devido a condições biológicas (como a maioria das raças aquáticas, ou raças subterrâneas com vulnerabilidade a luz do Sol). É completamente aceitável mudanças na distribuição das raças não-humanas, mas é importante lembrar que muitas regiões estão relacionadas de maneira intrínseca a determinadas raças (como veremos mais abaixo). Alterando por demais a forma que uma determinada raça fantástica se distribui no território de seu cenário pode levar a perda de identidade dessa raça (elfos selvagens que vivem nas grandes metrópoles de seu mundo não irão morrer pela distância de seu ambiente natural, mas muito dificilmente irão se assemelhar com elfos selvagens de verdade), a extinção da raça por motivos óbvios ou a uma simples estranheza que dificilmente será construtiva para seu cenário.

Outros artigos dessa série abordam descrições mais detalhadas de organizações sociais fantásticas, mas é interessante considerar alguns pontos relativos a ordem em uma comunidade. De maneira simplificada, trabalharemos com comunidades baseando-nos nos dois eixos de tendências: Bem x Mal, Ordem x Caos. A chance que seu cenário de fantasia seja baseado nesses dois eixos é grande, como já foi discutido em outros artigos; raças de um cenário de fantasia são construídas tendo-os em mente, assim, vamos utiliza-los para discutirmos um pouco sobre comunidades de raças fantásticas. Raças ordeiras se estabelecem de maneira estratégica e lógica em seu ambiente preferencial, ainda que de acordo com seu nível cultural; elas tendem sempre a maximizar seus ganhos e minimizar suas perdas, mesmo que isso signifique correr menos riscos (o que pode ser representado por domínios mais coesos, mas com fronteiras menos abrangentes). Raças caóticas por outro lado se estabelecem de maneira mais livre por seu território, nem sempre s e posicionando em locais necessariamente melhores, mas por sua distribuição dotada de maior aleatoriedade, podem desenvolver eventualmente territórios com fronteiras de grandes proporções – o que não significa que sejam capazes de mantê-las (o que não significa que outras raças saibam disso- a Floresta da Lua Eterna é a morada das fadas, e maior que boa parte dos reinos do cenário. As fadas mantém suas fronteiras baseadas em lendas antigas sobre seu número infinito na floresta profunda, embora a corte feérica não passe de duzentas ou trezentas criaturas). Raças benignas se distribuem de maneira harmônica em seu território, evitando grandes depredações da natureza ou confronto com outros habitantes de suas terras (levando em conta, é claro, que não sejam criaturas malignas). Porém graças as tendências benéficas dessas raças, não é incomum que escolhas questionáveis sejam feitas na relação da raça com seu território (os nobres e bondosos Anões do Sul se recusam a destruir florestas milenares para a construção de uma grande estrada que ligaria importantes cidades de seu império comercial) . Raças malignas não visam a harmonia com seu território, mas a conquista e utilização do mesmo para sua sobrevivência e cumprimento de demais objetivos. Elas respeitarão a natureza apenas caso forças naturais se oponham a elas (os orcs das Colinas Escarlates não destroem a Floresta Ancestral para a obtenção de lenha apenas porque a floresta é protegida por poderosos espíritos das árvores). Outras raças, mesmo malignas, provavelmente também serão um inimigo a raça de tendência maligna; haverão guerras de expulsão e conquista até que uma das raças seja derrotada. Raças alinhadas para o mal são expansionistas e dominadoras.

Com esses pontos levantados, na próxima semana faremos alguns estudos de caso, analisando várias raças populares da fantasia medieval, suas distribuições territoriais e um pouco de suas estruturas sociais. Até mais!

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