Curva de Desenvolvimento – Onde a Aventura Começa e Termina!

Por Giltônio Santos

Olá leitores! O assunto que temos pela frente hoje não poderia passar despercebido em nosso módulo sobre povoamento de cenários de fantasia. Falaremos um pouco, então, sobre as vilas fantásticas. É de lá que os aventureiros costumam sair para suas aventuras, e para lá retornam, em busca de novos equipamentos, provisões, ou mesmo para reencontrar amigos, parentes, ou um eventual romance.

O vilarejo é a unidade povoada mais básica que um cenário de fantasia pode ter, e você poderá utilizá-lo para oferecer aos jogadores de sua campanha um olhar sobre a mentalidade das pessoas de um determinado reino, ou dará a eles uma boa chance de interagir com figuras que não possuem a sofisticação daqueles que vivem nas cidades maiores. Vivendo uma vida distante dos grandes centros, o habitante local pode nem mesmo ter uma noção ampla de todas as maravilhas que povoam um cenário de fantasia, como vai ficar claro, mais adiante.

O QUE PODEMOS ENCONTRAR?

A vila fantástica é, primariamente, um local de descanso para os aventureiros, mas pode servir também como palco de uma grande aventura. Certos elementos são quase obrigatórios, como a loja do ferreiro ou a taverna, velha conhecida dos amantes de RPGs de fantasia. Construir a população do vilarejo, ou pelo menos a maior parte dela, ajuda a potencializar o sentimento de realidade que é proporcionado aos jogadores.

Um passeio rápido pela rua principal permitirá ter contato com personagens fundamentais, como os representantes das autoridades locais, sejam elas governantes ou responsáveis legais (ambos os aspectos já tratados aqui, em nosso módulo sobre sociedade), ou tipos inesquecíveis, como o garoto de recados, o velho sábio, ou o comerciante tagarela.

Como disse, a vila fantástica pode também ser o lugar da aventura, então se prepare para encontrar os criminosos eventuais, os tipos misteriosos, e também os encrenqueiros de plantão, dispostos a uma boa briga com um grupo de aventureiros recém-chegado.

A VILA E O MUNDO MÁGICO

Num mundo de fantasia, os vilarejos podem ser forçados a conviver com elementos um pouco diferentes dos que temos na vida real, mas isso não é obrigatório. Se você optar por um mundo de baixa magia, ou onde grupos de aventureiros são escassos, o povo de uma vila pode passar gerações inteiras sem ter contato com um mago ou similar. Para essas pessoas, o misticismo é tão folclórico quanto o era para os habitantes de nosso próprio mundo, durante a era medieval.

Essa, no entanto, não é a escolha mais comum. Na verdade, a maioria dos cenários de fantasia apresenta esses locais ermos totalmente integrados ao que se sabe em geral sobre a magia. O fazendeiro pode guardar suas economias para a eventual cura clerical, e as pessoas de posses visitam sempre os magos capazes de ver os acontecimentos futuros (e suas predições muitas vezes se provam verdadeiras!).
Uma outra opção é pensar que esses habitantes de regiões distantes sabem da existência da magia, mas encaram seus efeitos com desconfiança, preferindo manter distância de tudo que é mágico, além de evitarem (quando não expulsarem!) os místicos que eventualmente apareçam na vizinhança. Essa perspectiva é bastante interessante, embora possa causar algum aborrecimento ao longo da campanha. Será divertido perceber que os aventureiros ficam cada vez mais distantes do “interior”, preferindo os locais onde seus grandes feitos são reconhecidos e admirados pela população em geral.

Um conceito interessante, muito explorado nos Reinos Esquecidos, é o de uma população que seria apenas uma outra vila comum, mas vive sob a proteção de um arcano poderoso. A visão que pessoas assim possuem da magia se altera totalmente, dando espaço para que aqueles capazes de usá-la sejam vistos como verdadeiros heróis, se utilizarem seu poder para proporcionar coisas boas, e como os mais terríveis dos vilões, se em algum momento mostrarem que seu poder mágico é voltado para o mau.

AMEAÇAS

Mundos de fantasia são povoados com todo tipo de criaturas místicas, e muitas delas são malignas, dispostas a conquistar e escravizar qualquer população infeliz o suficiente para surgir em seu caminho. Assim, é natural que a vila dos homens acabe por ficar em um território freqüentemente ameaçado, sendo que a ameaça mais típica seriam humanóides bárbaros e especialmente cruéis, como goblins e orcs.

Nesses casos, temos uma excelente semente de aventuras, ainda mais para um grupo de aventureiros bons, dispostos a ajudar a população flagelada. Além disso, trata-se de uma grande oportunidade para você, criador, construir um local icônico de sua campanha, uma pequena vila que, apesar das ameaças constantes e da tragédia sempre rondando, batalha pela continuidade. Um grande exemplo deste tipo de localidade é o vilarejo de Homlet, descrito na aventura Temple of Elemental Evil; sua população tem convivido por décadas com os monstros que saem do vilarejo vizinho de Nulb ou da masmorra próxima, e ainda sim conseguem prosperar, até mesmo servindo de lar para aventureiros que, no passado, enfrentaram as ameaças próximas.

CUIDADO COM OS FORASTEIROS!

Uma pessoa pode viver a vida inteira sem jamais sair da vila onde nasceu. Assim, é natural que aqueles que vêm de fora sejam encarados com certa desconfiança, ou até mesmo com agressividade pura e simples. Embora gostemos de retratar as vilas como o paraíso dos aventureiros, cheias de pessoas que mal vêem a hora de colocar a mão em algumas moedas de ouro antigas, um cenário realista faria melhor que isso.

Aventureiros são pessoas de fora na maior parte das vezes. Eles andam armados, se divertem em tavernas e arrumam confusão com freqüência razoável. Quando um aventureiro fere um camponês em uma briga de taverna, este pode mesmo morrer em decorrência da punição imposta por um oponente tão superior (os jogadores normalmente não ficam para saber o resultado). É importante determinar o que as pessoas de uma vila pensariam de indivíduos que produzem um impacto tão negativo em suas vidas cotidianas. Afinal de contas, não existe ouro no mundo que se possa trocar por uma vida segura.

Um outro ponto interessante de se detalhar é a rivalidade entre os vários povoados de uma mesma região, que os aventureiros podem observar em primeira mão. Esse sentimento não costuma se degenerar em violência física e moral, mas com certeza oferecerá aos jogadores boas oportunidades de interpretação, além de colorir um pouco mais o desenvolvimento de seu cenário de campanha.

NO CENTRO DAS ATENÇÕES

Você pode também colocar um pequeno vilarejo como centro de sua campanha. Imaginemos um povoado relativamente simples, e sem qualquer coisa de especial, até que um feiticeiro negro descobre que, séculos atrás, um demônio de grandes poderes foi aprisionado ali, e está pronto para ressuscitar! Os aventureiros acabam também tomando conhecimento dos fatos, e precisam impedir que o vilarejo seja arrasado, e o demônio libertado no mesmo processo.

Esse é apenas um exemplo de como um local insípido pode repentinamente se tornar o foco de toda a aventura. Talvez um complexo de túneis abaixo termine no túmulo e os aventureiros precisem encontrar a casa que dá passagem para essa masmorra antes do inimigo, ainda tomando o cuidado de não serem descobertos, o que poderia gerar pânico e conduta caótica por parte da população. Se você quiser transformar sua vila no lugar mais importante da campanha, pode ficar tranqüilo, pois motivos não faltarão.

Bem, creio que as reflexões acima já ajudarão a criar e definir os mais simples centros de habitação de seu cenário fantástico. Mais uma vez, convido vocês a estarem conosco na próxima semana, para encerrarmos mais um módulo da coluna, falando sobre uma forma de povoamento que pode trazer a tragédia assim como a prosperidade para os que chegam e para os que já estão lá. Até mais!

Um Comentário

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  1. harmoniarpg disse:

    Minha coluna predileta da blogsfera. O problema é aguardar as atualizações, muita agonia. concordo também em abordarem sobre conflitos políticos ou de poderes dentro da região, que geram outro plot para aventura.

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