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O que a tiragem significa?

Volta e meia aparece a discussão sobre as tiragens de livros de RPG no Brasil. Um dado que  é divulgado com certa tranquilidade em outras paragens, e no RPG nacional por vezes adotou uma característica meio nebulosa, conhecido muitas vezes apenas pelos “insiders“… Recentemente, a discussão voltou a tona, e desta vez  as tiragens serviram como lastro para o argumento que o RPG teve uma fase áurea que já acabou. Mas o que diabos a tiragem de um livro significa hoje?

A definição da nossa amiga Wikipedia é simples, mas trás o cerne do elemento que quero discutir aqui:

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De volta da RPGCON 2010

Como já é de praxe, depois de dormir um pouco é hora de escrever minhas impressões sobre a RPGCON 2010 que aconteceu neste último fim de semana em São Paulo. Para quem já foi no evento e conhece a proposta e pegada da RPGCON pode seguir direto com a leitura. No entanto para aqueles que são marinheiros de primeira convenção ou querem saber como surgiu o maior evento de RPG dos últimos dois anos, recomendo dar uma lida rápida no relato da RPGCON de 2009. O post havia se perdido no crash do Área Cinza, mas várias pessoas legais me enviaram backups, então perdidos mesmo foram só os comentários…

Eu e os trutas Tiago, Giltônio e Garrell chegamos na sexta e de cara já trombamos com o Salomão que foi uma espécie de guia para os rolês de comilança e bebedeira na terra da garoa! Além de totalmente sangue bom (deve ser por causa da descêndencia mineira), na sexta mesmo o Salomão começou a agregar a galera, e acabamos fechando o dia bebendo com os também forasteiros  Wallace, CF e Thiago, e o Trevisan velho de guerra.

Sábado caímos cedo para o evento, afinal nossa palestra sobre produção independente de RPG estava marcada para às 10:30 – mesmo horário do jogo entre Argentina e Alemanha e do Encontro de Blogs, ou seja, não esperávamos uma vasta platéia! Eram 11 horas e o auditório estava vazio, e pensamos em desistir e  montar nossa barraquinha na Feira de RPG Independente, mas o sábio Giltônio insistiu que começassemos e garantiu que a sala logo encheria se a discussão rolasse…

Dito e feito. Após uma breve apresentação começamos a desembolar a conversa e o pessoal foi aparecendo, fazendo perguntas e contribuindo para que a discussão fosse muito mais rica. Logo o Guilherme da RetroPunk, editora que surgiu recentemente com uma proposta foda de lançar ótimos livros independentes e que pra mim é a grande promessa para dar uma agitada no RPG nacional no próximo ano, se identificou na platéia e fez um monte de colocações excelentes. Falamos um bocado sobre nossa experiência com a venda no mercado gringo através de PDFs, da proposta e da forma como construímos o Mamute, da neurose obsessiva que muita gente tem com o profissionalismo, como se uma proposta amadora não pudesse ser bem feita, da importância em escolher um formato adequado ao seu material, enfim, foi uma ótima conversa embora um tanto informal e meio atropelada. Gostaria mesmo de agradecer quem trocou o Encontro de Blogs (e o primeiro tempo de Alemanha e Argentina) para conversar com a gente!

Giltônio, Tiago, Garrell e eu

Depois da palestra e de uma ótima conversa com a galera sobre a venda de PDFs e a possibilidade de desembolar isso no Brasil, fomos para o pátio central montar nossa humilde barraquinha e atacar os passantes até que comprassem seus Mamutes! A atividade de ficar na banquinha trocando idéias e apresentando a proposta do fanzine para o pessoal daí pra frente dominou nossa experiência de RPGCON, mas de forma alguma isso foi ruim, na maior parte do tempo a galera era super interessada, fazia sugestões, perguntava do processo de produção e de futuros lançamentos… E tivemos a força inestimável do Renato Caipira, brodér refugiado de BH, que quebrou vários galhos durante o sábado. Valeu cara!

Na parte da tarde participei da palestra das editoras, que foi bem descrita pelo Shingo do Paragons, e na qual o Giltônio foi convidado a subir ao palco no meio da fala do Trevisan para falar do Mamute e da Secular (assim como o Gulherme da Retro) e mandou muito bem. Fiquei só até a metade pois estava mais pilhado de voltar a barraquinha e vender Mamutes, mas a palestra estava bem cheia e com um clima mais animado que a do ano passado, que foi meio morta. Depois rolou a palestra de Tormenta, na qual dei só uma passada rapidinha e pude ver o pessoa da Spell fazendo e recebendo respostas engraçadas do Trio, mas depois de um tempo a brincadeira perdeu a graça… Após mais uma maratona de vendas – no primeiro dia vendemos cerca de 45 Mamutes, para um público que em sua maioria já conhecia o zine através daqui do AC, ou pela divulgação em outros blogs (em especial pelo Trevisan, .20, Jambô e Paragons, valeu pela força pessoal!), tivemos a previsível e chata indecisão de onde beber! Novamente este ano fomos para o já clássico Omalley’s, mas acho que talvez fosse mais legal um rolê meio oficial do evento, marcado em um lugar grande, acessível e com antecedência, para que todo mundo pudesse ir. Acabou que nessa indecisão de última hora o pessoal se dividiu, uma boa parte foi para um buteco na Augusta e outra para o bar irlândes, que repito, é incrivelmente foda, mas como boa parte desse pessoal se encontra só uma vez por ano, podíamos privilegiar a troca de idéias e bebedeira, mesmo que fosse em um lugar menos fodão. Acho que vou pegar pra organizar isso ano que vem! De lá caímos direto para uma festa em que o Garrell tocou em um bairro meio longe, mas acho que fiquei mal acostumado com as festas daqui de BH e nem achei grandes coisas. Mas deu pra ficar bem bêbado…

Família Mamute representando na palestra das editoras

Domingão de ressaca, e ao montar nossa barraquinha para o segundo dia de labuta, o Garrell nos aparece com uma bandeira do Bob Marley, que ele já tinha levado para a balada na noite anterior. Não pensamos duas vezes e mandamos a bandeira junto com nosso tímido banner o que logo começou a chamar a atenção da galera. Aliás, o perfil das pessoas que se aproximavam da barraquinha no segundo dia era claramente diferente – nunca tinham ouvido falar do Mamute, Área Cinza, Secular Games e essas bobeiras de internet. Chegamos no mundo real! Obviamente isso dificultou o processo de vendas, mas também foi interessante, pois vimos que muitas pessoas que nunca ouviram falar da gente e das nossas presepadas, ao conhecerem a proposta do Mamute e olharem as suas matérias decidiram apostar 7 pratas no nosso trampo.

Como no domingo o movimento na nossa barraquinha estava mais derrubado, e muita gente estava curiosa com o que a bandeira do Bob Marley fazia ali, resolvemos animar mais a parada e com a ajuda inestimável do D3 e do Jaime montamos umas caixinhas de som no iPhone do Garrell e já mandamos um set de reggae para animar mais aquele domingo ensolarado Numa boa, à partir daí tivemos alguns dos momentos mais divertidos do evento, com as dancinhas, fotos com o rei do reggae, piadas nonsense e conversas bem espertas com a galera interessada. Adorei a banquinha do domingo, que seguiu bem a proposta do zine – já que não vamos ganhar dinheiro de verdade com a parada, vamos nos divertir!

Em um próximo post quero falar mais da venda do Mamute e das minhas impressões, mas vamos voltar aqui para a RPGCON. Fechando o domingo e o evento, tivemos a palestra Mesa de Vidro, onde os organizadores se sentam com os participantes para escutarem sugestões, críticas, e darem um retorno de como foi o processo de organização. Pra mim esta é a alma da RPGCON – um evento aberto, colaborativo, que pode ser tão bom ou ruim de acordo com o tanto que você se envolver e fizer acontecer. Na mesa de vidro o D3 abriu falando do principal erro da organização na sua avaliação: a falta da opção de receber por cartão de crédito nas lojas, e explicou que houve um atraso na negociação com a empresa que gerencia os cartões Visa e Master. Também foram apontados outros erros e pontos que poderiam ter sido melhores, como os stands, novamente a sinalização e as poucas opções de lanches no evento. Reparem que são críticas somente a estrutura e organização, se não me engano no que se refere ao conteúdo das palestras, organizações presentes, stands, e atividades em geral a RPGCON 2010, assim como no ano anterior, só recebeu elogios. Nesse excelente relato do evento pelo Shingo (droga, ele de novo!) o pessoal têm discutido o evento e seus pontos fracos, inclusive com a participação do Wallace, um dos organizadores, funcionando quase como uma continuação da mesa de vidro. Altamente recomendado!

Agora meu ponto de vista. Achei o evento muito parecido com a RPGCON do ano passado, tanto nos pontos positivos como nos negativos. Programação vasta, interessante, com uma transparência e abertura a participação da comunidade que eu nunca vi no RPG nacional, com uma proposta de agregar e fomentar, estes são os destaques do evento, e que pra mim o tornam incomparavelmente melhor que os 4 Encontros Internacionais de RPG que participei. Aliás como disse na Mesa de Vidro, a proposta dos eventos pra mim são tão diferentes que  embora ano passado a RPGCON tenha ocupado a lacuna do EIRPG, não acho que faça muito sentido comparar um com o outro. Colocando de uma maneira simplista, o primeiro era o evento de uma empresa, com as coisas boas e ruins que vem com isso; o segundo é um evento da comunidade, também com seus pontos fortes e fracos próprios.

E comparando a RPGCON 2010 com a RPGCON 2009, vejo que pouca coisa mudou, tanto nos erros como nos acertos. Como disse para o Wallace e Luciana, e depois na própria Mesa de Vidro, algumas coisas que rolaram em 2009 foram completamente compreensíveis, tendo em vista que o evento do ano passado foi organizado em dois meses. Este ano esta justificativa não se aplicava, e isso tornou a repetição das mesmas questões (como a do cartão de crédito, divulgação e sinalização) bem mais grave na minha opinião. São questões importantes que de certa forma tiraram um pouco o brilho do evento, mas que não foram suficientes para estragar a parada, de forma nenhuma. Aliás segundo o D3 este ano o evento teve cerca de 3100 participantes, contra 2800 do ano passado, o que mostra um crescimento, mas que com uma divulgação mais robusta e para além dos parceiros da internet poderia ter sido ainda maior.

Em 2011 estaremos na RPGCON novamente, não só para assistir as palestras, comprar os lançamentos legais e garimpar a feira de livros usados, mas também para sugerir a programação, oferecer palestras, divulgar nosso trampo e conhecer o que os outros estão criando. Não sei para vocês, mas me parece bem mais interessante, desafiador e divertido que uma mera feirinha de RPG!

Momento utilidade pública:

Muita gente já escreveu relatos da RPGCON 2010, e listarei aqui neste post todos que encontrar. Se você escreveu algum relato ou diário da RPGCON, ou leu algum que ainda não está por aqui, coloque nos comentários que atualizo assim que puder ok?

Publicação de RPG em PDF – Perguntas [Parte 1]

Mês passado começamos uma discussão por aqui sobre a viabilidade e os formatos da publicação de livros de RPG no formato PDF no Brasil. Eu sei, se passaram mais de 40 dias e as coisas aqui no Área Cinza ficaram bem paradas, mas é hora de voltar e retomar essa idéia, que já gerou um bocado de questões muito interessantes.

Dentro desta minissérie de artigos, já tivemos dois – a primeira parte da história da Secular Games, falando um pouco das nossas expectativas da entrada neste mercado e forma de produção dos livros; e o Levantando questões sobre a publicação de RPG em PDF, que teve uma resposta fenomenal. É tentando responder as perguntas feitas ali que vou escrever este artigo, e provavelmente mais uns dois ou três nessa linha.

Neste primeiro artigo das perguntas, dei uma dividida para agrupar as questões mais diretamente relacionadas. Acho que poderíamos chamar esse bloco de Perguntas sobre a Produção:

1- A minha principal questão em relação aos pdfs é ligada ao trinômio ilustração-preço-vendagem.

Parece um paradoxo. Pra ter um bom produto em pdf preciso de boa qualidade gráfica. fazer um doc do word com umas fontes bonitihas e gerar um pdf não me levará a lugar algum. No entanto, ilustrações de boa qualidade, uma capa apresentável e uma diagramação aceitável não são baratas, e aumentam consideravelmente o valor final do produto, que precisa ser baixo para vender. Como resolver essa questão, que fica ainda mais complicada se pensarmos em mercado nacional? (Mr. Pop)

Essa é uma ótima questão! Pode parecer um senso comum, mas acho que o caminho mais apropriado é alcançar um meio termo nesta tríade entre design gráfico-preço-vendagem. É fato que todos nós queremos lançar um produto ótimo, no sentido de melhor possível, e muitas vezes usamos como parâmetros produtos de editoras maiores que tem muito mais grana que nós para medimos como devem ser nossos livros. Eu mesmo fui um dos que ao saber que o Wayne Reynolds trabalha como freelancer não resistiu olhar quanto ele cobra por uma capa, e sim, é muito mais do que nós da Secular jamais poderemos pagar!

Mas esse é um caso extremo. Uma editora de PDF que planeje lançar alguns livros por ano tem que criar uma estratégia para maximizar o aspecto gráfico de seus produtos, sem que isso aumente demais o seu custo de produção. Por exemplo, a respeito da identidade visual, livros de uma mesma série (como os Advanced Character Guide, ou mesmo livros de um mesmo cenário, como Tormenta) podem usar as mesmas bordas, fontes e formato da diagramação. Assim, mesmo que tenha que pagar para um designer fazer isso, é um custo que poderá ser dividido entre os outros livros que usarem a mesma base.

No que tange a diagramação, é fato que a diagramação de um profissional difere e muito daquela feita por um amador (e as revistas Dragão Brasil e Dragon Slayer, na época que coexistiram nas bancas eram um exemplo gritante deste fator), mas isso pode ser atenuado. A primeira dica é usar um programa decente de diagramação, e minha weapon of choice é o Adobe InDesign, ferramenta poderosa e de uso bem intuitivo se você já brincou um pouco com o Photoshop e outros da família Adobe. Mesmo com outros programas, uma boa idéia é aproveitar um modelo já existente, seja um dos padrões que acompanham a ferramenta, ou aquele criado pelo seu designer quando desenvolveu a identidade visual do produto (ou linha). Eu sou sociólogo e minha experiência prévia com diagramação era inexistente, mas com o InDesign, e a identidade visual desenvolvida pelo Leo diagramei com tranquilidade (embora não seja a coisa mais divertida do mundo!) todos os livros da Secular, e modéstia a parte ficaram muito bons para um leigo. Ou seja, tenha alguém que entenda por perto, arrume um programa decente, e tente não inventar muito, pelo menos no começo, e com alguma sorte a diagramação não vai ser um peso no seu orçamento.

Mas todos nós sabemos que o buraco acontece mesmo nas ilustrações. Um livro de RPG sem elas não deve dar muito certo, e aqueles que possuem ilustrações ruins são ainda piores. Acho que a primeira dica aqui é ser minimalista e criativo – não adianta querer ter uma ilustração a cada 3 páginas e desenhos de página inteira na abertura de cada capítulo, se você tem somente 100 reais para investir em arte. O melhor é adaptar, espaçando mais as ilustrações, vendo quais você pode reaproveitar de maneira inteligente (as imagens de capa e abertura de capítulo por exemplo podem ser desmembradas, a Paizo faz isso demais!). Mas mesmo com essas gambiarras, ilustrações são caras…

Nós da Secular tínhamos a vantagem de ter um ilustrador de mão cheia entre nós (o Ig Barros), além do Leo Braca, que é um excelente designer. Mas mesmo assim o Ig nunca deu conta de ficar por conta e ilustrar tudo por conta de seus outros trabalhos, e nos colocou em contato com alguns excelentes ilustradores. Mesmo cobrando um preço camarada, esses ilustradores chapas do Ig cobravam mais do que tínhamos em caixa no início da editora (éramos todos estagiários!), o que era totalmente justificado, pois eles foram escolhidos pelo Ig exatamente por serem fodas! Chegamos a um acordo então: pagá-los através de porcentagem.

O esquema era assim – a cada 3 meses 30% do lucro líquido de um título era dividido entre os ilustradores, de acordo com uma tabelinha que o Ig elaborou comigo, que seguia o número de ilustrações, tamanho, cor, etc.. Isso nos possibilitou colocar nossos primeiros 4 títulos no mercado sem ter um investimento inicial em arte, mas hoje não é um modelo que eu acho mais apropriado para a Secular. Isso porque em primeiro lugar demanda uma camaradagem pré-existente com o ilustrador, pois no mínimo ele tem que ter uma boa dose de fé no seu produto, para apostar que ele vai vender o suficiente para pagar um valor justo pelo seu trabalho. Segundo, mesmo que esse vínculo de confiança seja estabelecido, acredito que este é um formato de relação com o ilustrador que é desgastante a médio e longo prazo. Imagina que saco ficar recebendo 10-15 reais a cada 3 meses por dois desenhos, não seria muito melhor receber logo 60 pratas na bucha do que ficar prolongando o pagamento a conta-gotas? Na real essa lógica só vale se o ilustrador é muito camarada, ou se ele trabalha bastante nesse esquema, aí sim, depois de um tempo ele vai receber todo mês uma quantia menos miserável. Ainda assim acho uma forma de pagamento bem abstrata. E que é um saco de contabilizar para quem administra a grana da editora!

Como hoje temos uma boa grana para investir de lucros dos nossos produtos anteriores, se formos lançar algo certamente não vai ser seguindo essa lógica da porcentagem. Mas isso não quer dizer que ela não seja válida: é uma excelente estratégia para editoras lançarem seus primeiros produtos e foi ela que possibilitou a Secular construir um caixa sem tocarmos nos nossos salários de fome.

Outra estratégia interessante para ilustrações é usar banco de imagens e art packs apropriados para RPGs, pacotes de ilustrações que depois de comprados dão o direito do comprador os utilizar em seus próprios produtos.  Um bocado deles podem ser encontrados na RPGNow por um preço bem camarada, e embora a grande maioria seja de qualidade duvidosa, existem algumas ilustrações bem usáveis por ali. Nunca usamos estes estoques de imagens e nem os pacotes, mas acho que é uma estratégia muito boa para cortar custos e conseguir algumas imagens legais por um preço muito baixo. Talvez até misturar: algumas imagens mais direcionadas ao produto e pagas normalmente, e outras dos art packs como fillers

Finalmente meu chapa Richard Garrell se adiantou e começou a responder no próprio tópico, algo que acredito que seja a conclusão desta história toda:

Muito interessante a questão levantada sobre a arte.

É indiscutível que o produto tem que ser bonito. Aliás, isso vale inclusive para RPG. Eu gosto de livros bonitões. Acho um saco por exemplo a mania fanzineira da SJG de fazer livros feiosos (muito embora isso tenha mudado na 4ª edição, e os boardgames sejam bonitões!).

Assim, é fundamental um projeto gráfico bacana. Nessa dai por exemplo acho que a Secular sai na frente da esmagadora maioria das editoras de pdfs que já vi livros.

Embora o conteúdo dos livros não seja extraordinário (o que eu achei incrível mesmo, o Loremaster, infelizmente nunca saiu), são .pdfs muito bonitos, realmente diferenciados.

Acredito que é um padrão que deve ser observado e mantido. Por outro lado, existe um motivo prático para que isso aconteça: a editora possui dentre seus fundadores um designer bom de serviço, e conta com a camaradagem do Ig Barros, um desenhista excepcional. É verdade que nem todo mundo tem essa sorte.

Assim, acredito que o segredo é mesmo enfiar a mão na cumbuca e tirar algum dinheiro para pagar pelo menos um designer. Devo destacar que ilustrações não necessariamente imprescindíveis. Um designer que tenha um banco de imagens legal já pode fazer várias coisas interessantes, por exemplo. (Garrell)

Concordo totalmente. É possível utilizar seus contatos e soluções criativas, como escrevi ali em cima, para diminuir os custos, mas algum investimento é necessário para lançar um produto bacana.  E aposto que o Mr. Pop já sabe disso… O lance é tentar achar formas de equilibrar esse investimento com o preço final do produto.

2- Quanto a parte de ilustração eu realmente acho difícil conseguir uma ilustração sem saber desenhar… mas quanto a editoração eu realmente preciso pagar alguém pra fazer?

Não existem programas de fácil acesso e fácil de mexer para que um leigo com algumas horas de dedicação possa fazer um material com um mínimo de qualidade? (Leonardo)

Bom abordei um pouco sobre isso na resposta acima, mas o Vinicius mandou uma boa resposta também (e aposto que ele é designer ou alguém que trabalha com a parte gráfica!):

Mais ou menos Leonardo. Assim como desenhar costuma ser requisito para gerar boas ilustrações para os livros de RPG, há uma diferença grotesca dum editor profissional para um amador que resolva usar um programa para montar o PDF dele. Claro, dá para fazer – da mesma forma que dá para fazer livro em PDF com ilustração barata :P. Idealmente, você quer alguém que sabe da coisa para editorar seu livro. (Vinicius)

Realmente, a diferença é notável entre um editor visual profissional e alguém que está improvisando. Mas o ponto aqui na resposta do Vinicius é o “idealmente”. Claro que se for possível, seja por ter grana em caixa, ou um amigo designer, o ideal é ter alguém profissional nesta área. Mas se não for esta sua realidade, ainda acredito que dê para fazer o básico sem muitas inovações, e sem também correr muitos riscos, na maioria dos casos desde que acompanhado por alguém que te dê umas dicas e um bom programa.

Mas desviando um pouco da pergunta, já que estamos falando de editor, o que acham da necessidade de um editor “convencional”, alguém que edita o texto do escritor? Cada vez mais acho que esta função é determinante para se criar um produto de qualidade e interessante, e nós na Secular nunca tivemos muito bem alguém fazendo isso, embora nos revezássemos informalmente na função à medida que um de nós escrevia um título. Ainda assim, é algo que eu tenho pensando muito ultimamente…

Para finalizar duas perguntas do Cochise:

3-  PDF é um produto pouco atrativo. O pdf é basicamente um livro no computador. E o melhor lugar para os livros é o papel. O formato eletrônico deveria ser mais interativo. As fichas completáveis do Tio Nitro são um bom exemplo de para onde as coisas deveriam ir. Não proponho que se abandone o formato pdf, mas que se o enriqueça. Os recursos ele tem, mas não são tão usados isso encarece um pouco mais o produto final. (Cochise)

Bom Cochise o PDF não me parece um produto pouco atrativo. Ele tem características positivas e negativas em relação ao livro convencional de papel, mas do jeito que você coloca parece que ele é claramente inferior em tudo. O livro em PDF tem custo de produção menor, logo pode ser vendido mais barato, não tem custo de envio, uma tremenda vantagem para quem quer comprar livros no exterior, no caso do RPG pode ser usado e consultado com mais facilidade na mesa do jogo se tiver um computador a mão, enfim…

Mas também concordo que os recursos dos livros eletrônicos estão longe de serem plenamente utilizados. Um bom exemplo neste sentido são os mapas da Oonne’s, que são cheios de camadas, e você pode escolher qual delas imprimir. Mas realmente, ainda falta muito pra caminhar…

4- Até o modelo se popularizar é inviável lançar módulos básicos, apenas suplementos. Mais especificamente para o jogo mais jogado de licença aberta, D&D e derivados (Cochise)

Como você mesmo apontou, isso é verdadeiro se falamos de Dungeons & Dragons e licença d20 né? Algumas editoras tiveram sucesso com módulos básicos em PDF, como a Evil Hat e seus Spirit of the CenturyDon’t Rest Your Head. Acho que mesmo neste momento antes da popularização plena dos PDF no RPG (e de forma mais geral na produção literária), os sistemas e cenários autorais são um grande e interessante nicho, talvez não tão grande quanto o do D&D, mas certamente possuem o seu lugar. Na verdade acho que hoje, com a 4ª edição, a insuportável GSL e o incrível suporte do D&D Insider, os livros autorais, independentes e bem feitos são uma aposta até mais sólida no mercado de RPG em PDF que o bom e velho d20.

Publicação de RPG em PDF – A história da Secular Games [Parte 1]

Como disse no post da última quarta-feira, vou começar uma pequena série de artigos sobre a publicação de livros de RPG em formato eletrônico, utilizando como base principalmente minha experiência na Secular Games, editora que formei junto com alguns amigos que participavam do Círculo na época. Pensei inicialmente em utilizar os seguintes recortes ao escrever cada post, de forma a abordar as questões de diversos ângulos, misturando o que vivemos com o mercado gringo com teorias e propostas para a publicação de livros de RPG em PDF no Brasil :

  • A história da Secular Games: dois ou três posts abordando quem somos, o que fizemos nestes 3 anos, porque da editora ter ficado parada por tanto tempo, e a proposta de retorno em 2009.
  • Avaliação dos produtos lançados pela Secular: análises dos 5 livros produtos lançados pela editoraentre 2006 e 2008, onde pretendo discutir o formato de cada livro, como fizemos com a arte e diagramação, como estipulamos o preço e retorno em vendas.
  • Perguntas e teorias sobre a publicação de RPG em PDF no Brasil: tentativa de responder as perguntas feitas pelos leitores do blog no post Levantando questões sobre a publicação de RPG em PDF, e tentar pensar um modelo viável para este mercado no Brasil.

Claro que este é apenas um esboço para seguir com os artigos, mas acho que já é uma boa trilha – que pode ser alterada caso as perguntas e direção da conversa apontem para outros caminhos. Como hoje é domingão e o tempo já está escasso, preferi começar com a primeira parte da história da Secular Games, que já havia postado por aqui em 2007 nos primórdios do Área Cinza. O artigo abaixo foi escrito em Janeiro de 2007 como comemoração de 1 ano da editora, e embora o grosso seja reaproveitado, vou fazer comentários sobre algumas coisas que estes dois anos de distanciamento me permitiram avaliar, além de complementar em alguns pontos. E depois da reunião da última semana, nós da Secular estamos em um clima de empolgação bem parecido com este que vivemos em 2007!

O texto abaixo, foi escrito com o objetivo de ser usado para a divulgação de nossa promoção de aniversário e oferecer um breve resumo do nosso primeiro ano no mercado internacional de livros eletrônicos. Algumas coisas descritas abaixo já estão acontecendo a todo vapor, como a tradução do Vikings: Midgard e os últimos ajustes do Secular Games Stat Block Recorder, nosso próximo lançamento. Além disso temos tido algumas idéias interessantes e um plano B que muito em breve pode vir a se tornar o plano A!

Começando do começo! A Secular Games foi fundada no início de 2006,e contava com uma boa parte do Círculo – eu, Tiago, Giltônio, Leo Braca e Ig Barros, e tinha como foco a produção de material para o mercado gringo em formato eletrônico, além de possivelmente adaptar algumas feitas pelo Círculo (ou editoras nacionais) para serem lançadas lá fora. Na época o Círculo estava muito focado em produzir para as revistas de RPG nacionais, e queríamos testar as águas gringas, assim como aproveitar algumas coisas que criamos para o mercado interno e lançar lá fora, como fizemos com o Shadows of Shinobi, nosso segundo livro que na verdade é uma versão expandida de uma matéria bacanuda para a DB #115, com a capa pelo Ig.

A idéia era termos uma equipe auto-suficiente, capaz de produzir livros precisando de pouco ou nenhuma profissional externo, reduzindo assim nossos custos. Tiago e Giltônio ocupavam a função de escritores, com o Giltônio puxando um pouco a função de designer principal por seu domínio de regras da 3ª edição do Dungeons & Dragons, o sistema de regras que escolhemos para nossos principais produtos. O Leo Braca é um designer profissional de mão cheia, e cuidava da identidade visual dos livros, e o Ig Barros dispensa maiores apresentações, e embora à época ele não fosse a potência dos quadrinhos que é hoje, já mandava muito bem nas ilustrações! Nisto eu sou meio que um 2 de paus, cuidando um pouco da parte de manutenção do site e diagramação dos livros com o Leo, dando uns palpites nas regras e textos com Giltônio e Tiago, e cuidando de burocracias e gerenciamento em geral. Esta formação nos permitiu lançar livros esteticamente muito bem acabados com um custo praticamente zero, já que o trampo era feito quase todo por sócios da editora. Mas vamos continuar com o texto sobre o aniversário de 1 ano da Secular…

Nossos três produtos se saíram muito bem em 2006. O primeiro deles, o Advanced Character Guide: Arcane Archer completa um ano junto com a editora e superou em mais de 20% nossa expectativa de vendas do primeiro ano. Como resultado pretendemos dar continuidade a linha Advanced Character Guide em 2007, com os livros Advanced Character Guide: Arcane Trickster eAdvanced Character Guide: Loremaster, este último escrito por Rafael Smith, em nosso primeiro trabalho com um escritor freelancer nacional, e que esperamos ser o primeiro de muitos.

Neste mês de Fevereiro a Secular Games completou um ano de existência. Foi um ano e tanto para todos nós, e dentre as inúmeras coisas que aprendemos sobre o mercado de livros eletrônicos a principal delas é que ele é muito mais complicado do que imaginávamos!

Shadows of Shinobi, uma versão expandida da matéria de capa da Dragão Brasil #115 eo  Lines of Legend: Winter Elves, o primeiro da nova série sobre raças, também não decepcionaram, e têm correspondido nas vendas as boas resenhas e comentários nos sites de notícias. O feedback aos nossos produtos têm sido excelente, e a maior crítica que recebemos em nossos dois primeiros produtos – em relação a pequenos erros gramaticais, não se repetiu no Lines of Legend: Winter Elves, primeiro livro no qual contamos com o auxílio do Paul King, um revisor norte-americano que tem contribuído com a Secular de maneira fenomenal.

Se cometemos alguns erros por falta de experiência com o mercado de PDFs, o principal deles foi traçar uma previsão bastante otimista da velocidade com que lançaríamos nossos produtos. Para o ano passado a nossa previsão era de lançarmos oito produtos, uma média de um a cada mês e meio. A realidade se mostrou bem mais complexa, e o padrão de qualidade que desejávamos em nossos lançamentos se mostrou mais demorado de se alcançar do que havíamos previsto, o que resultou no lançamento de apenas três produtos em doze meses.

Realmente, as vendas do Advanced Character Guide: Arcane Archer superaram nossas expectativas iniciais, e seguir com a linha focadas na expansão das classes de prestígio do Livro do Mestre da 3.5 parecia ser a coisa certa a se fazer. No entanto nunca conseguimos lançar os livros Advanced Character Guide: Arcane Trickster eAdvanced Character Guide: Loremaster em grande parte por desorganização e priorização de outros projetos, além das boas e velhas vidas sociais, acadêmicas e profissionais de cada um.

Essa foi a dura realidade, e na minha opinião, de certa maneira um erro em nossa estratégia. Focamos nossos esforços em livros maiores, com cerca de 40 páginas, que obviamente levavam mais tempo para serem produzidos. Mesmo que fôssemos seguir esta estratégia hoje, o ideal seria misturar produtos menores, de cerca de 10 páginas, entre estes lançamentos maiores, de forma a manter o fluxo de produtos, e conseqüentemente a atenção sobre a Secular lá fora. Uma explicação melhor sobre a importância de manter um fluxo de produtos pode ser encontrada nos próximos parágrafo:

No entanto esta falha nos ensinou uma série de coisas. A primeira delas foi a importância do efeito alavanca que os lançamentos causam sobre as vendas dos produtos mais antigos. O mercado de livros eletrônicos é bem diferente do de livros impressos, e como tal tem suas próprias vantagens e desvantagens. A principal vantagem é o fato de podermos manter um livro a venda por anos, sem nenhum custo de distribuição, estocagem e reimpressões. Sempre que um consumidor se interessar por um produto d20 sobre ninjas, o Shadows of Shinobi estará disponível para ele imediatamente por $5 dólares, o que não ocorreria, por exemplo, com um livro esgotado ou simplesmente antigo. No entanto o volume de lançamentos em sites como a RPGNow é de dezenas por semana, o que significa que os livros eletrônicos, pelo menos das editoras médias e pequenas, têm um tempo de exposição bem menor que o dos livros impressos, que ficam por meses nas prateleiras das lojas chamando a atenção de potenciais compradores.

É ai que o fluxo constante de lançamentos entra. A cada novo lançamento exposto na página principal, os outros livros da editora também ganham visibilidade, o que gera um aumento substancial de suas vendas. Na verdade, percebemos que o impacto dos lançamentos sobre as vendas dos produtos antigos é muito superior a qualquer aumento proporcionado por resenhas e anúncios.

Preferimos então tentar novamente atingir o ritmo de lançamentos que consideramos ideal, e para isso tivemos que organizar nosso processo de criação de maneira mais precisa. Atualmente a produção de um livro conta com três etapas (Design, Desenvolvimento e Editoração). Com este modelo acreditamos que seja possível coordenarmos de maneira simultânea a produção de três produtos.

Além dos já citamos Advanced Character Guide: Arcane TricksterAdvanced Character Guide: Loremaster, pretendemos lançar no primeiro semestre de 2007 o Secular Games Stat Block Recorder e a versão em inglês do Vikings: Midgard, o aclamado livro da editora Conclave, que terá seu primeiro preview disponibilizado em breve.

A produção dos livros em etapas teoricamente nos tornaria capazes de produzir vários livros ao mesmo tempo, e embora seja um ótimo modelo, não tínhamos tempo hábil para nos dedicarmos com tamanha precisão. Ainda assim 2006 foi o melhor ano para a Secular em termos de lançamentos, e embora tenhamos aprendido bastante sobre o mercado gringo e as dificuldades da produção de livros de RPG não conseguimos efetivamente transformar isso em uma melhoria em nosso fluxo de produção, não por falta de retorno ou aceitação dos produtos, mas devido a uma série de desafios profissionais e acadêmicos que enfrentávamos na época. Por isso mesmo a tentativa de utilizar escritores freelancers, como forma de otimizar nosso fluxo de lançamentos, mas que infelizmente não decolou porque nossa equipe de produção gráfica enfrentava exatamente os mesmos problemas!

Ainda assim com todos os problemas e apenas três lançamentos, conseguimos vender cerca de U$1000 de nossos produtos, com um ganho bruto (descontando a porcentagem cobrada pelas lojas virtuais) de aproximadamente U$700, o que eu não considero nada mal para uma empreitada que era organizada em nosso tempo livre como um hobbie.

Nas próximas partes da história da Secular os anos de 2007 e 2008, onde demos uma parada completa, e as idéias para um retorno em 2009. O post seguinte sobre a publicação de RPG em formato PDF será respondendo algumas das excelentes perguntas feitas por aqui!