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Curva de Desenvolvimento – A Lei é Dura, Mas é a Lei.

Por Giltônio Santos

Olá leitores! Já viajamos bastante pelos caminhos que formam uma sociedade. Falamos sobre política, tecnologia, grupos étnicos e pensamento, mas até então não falamos sobre a lei. É justamente por seu um aspecto tão importante da formação social que optamos por deixá-la mais para o final do módulo, quando muitas das coisas que são relevantes ao tema já foram devidamente abordadas. Esse artigo não tem a pretensão de ser um tratado sobre Direito, mas espero que ele pelo menos tenha algumas boas idéias sobre como construir o sistema legal das sociedades que povoam o seu cenário de fantasia.

Uma vez me disseram que o Direito existe para que as pessoas possam ser mais felizes. Entendi essa afirmação sob o seguinte prisma: nossa sociedade falhou na missão de alcançar a harmonia de forma inerente. Precisamos das leis, e através delas, regulamos a relação com o mundo ao nosso redor. Uma sociedade de leis justas e bem aplicadas tende a gerar indivíduos satisfeitos, na medida em que eles conseguem extrair do coletivo aquilo que seria razoável esperar. Diferente da realidade utópica da maioria das ciências, o Direito pensa pra si um mundo ideal no qual ele não seria necessário.

A LEI PRIMITIVA

Em cenários de fantasia, a lei é encontrada em sua forma mais primitiva entre civilizações baseadas nos povos antigos, ou ainda aquelas que possam ser consideradas como “bárbaras”. As primeiras tentativas de um povo de construir sistemas legais costumam resultar em determinações simples, como a famosa Lei de Talião, que ensina a prática do “olho por olho, dente por dente”. A separação entre a integridade física de um indivíduo e sua responsabilidade patrimonial é de difícil assimilação. Um homem que se torne endividado além das próprias condições poderá viver como escravo de seu credor, por exemplo. Em Roma, não era incomum que uma pessoa fosse esquartejada e seus pedaços dados a diferentes credores, para que fossem exibidos como troféus.

Enquanto a sociedade avança, mudam certos conceitos, e a lei se torna cada vez mais complexa. A separação entre a responsabilidade patrimonial e a integridade física se dá gradualmente. Essa separação é mais difícil, no entanto, quando a questão é criminal. Sociedades primitivas tendem a tratar seus criminosos de forma simples e direta, muitas vezes fatais. Essa lei primitiva está muito associada à moral, e as coisas que podem ser consideradas moralmente questionáveis formarão o núcleo do sistema primitivo. Roubo, furto, assassinato e adultério são talvez os maiores crimes. Você deve estar disposto a determinar o quanto tudo isso é importante em sua campanha, pois temos aí a descrição de algumas condutas que aventureiros praticam com uma freqüência perturbadora.

INTEGRAÇÃO ENTRE LEI E RELIGIOSIDADE

Isso aconteceu bastante ao longo da história, e pode acontecer também no cenário que você está criando. Legitimar o Direito através das determinações divinas é uma das formas mais antigas, e por incrível que pareça, ainda é bastante atual; basta pensar um detalhe: que casamento, aos olhos de nossa sociedade, ainda é o mais relevante: civil ou religioso? O segundo, com certeza. Embora ele não seja capaz de produzir efeitos para o mundo das leis, é ele quem legitima, aos olhos da sociedade, uma instituição que é legalmente perfeita.

Em alguns casos, a integração entre religião e lei é ainda mais intensa. A fonte legal primária para os muçulmanos não é outra que não o Alcorão, o que não é muito diferente da idade média no ocidente, onde a igreja dizia a lei, muitas vezes com fundamentos bíblicos. Esse é um cenário típico de regiões monoteísticas, onde dogmas divinos são bastante consensuais. Em locais que adotem o politeísmo, o potencial de determinação das leis através dos entendimentos de uma doutrina ficam severamente abalados. Nesses casos, temos o chefe do panteão como o provável guia do que é legítimo para a lei.

FORMAS CLÁSSICAS DE APLICAÇÃO

Os sistemas jurídicos clássicos, que ainda são muito relevantes para o nosso mundo, costumam ser divididos em duas correntes, sendo que diferentes nações, por questão de tradição, adotam uma ou outra. Tratam-se do Common Law e do Civil Law.

O primeiro compreende a jurisprudência e o entendimento do próprio órgão julgador como as fontes primárias do Direito. O papel do juiz é muito importante, já que ele muitas vezes julgará com base em seus valores, e na forma como a lei lhe foi passada. Também são muito importantes as decisões anteriores em casos semelhantes, sendo que com o tempo, elas podem se solidificar tanto quanto a própria lei. Historicamente, esse sistema foi adotado pela Inglaterra, e pelos países por ela colonizados, e tem muitos de seus fundamentos no Direito que era praticado em terras bárbaras, durante o Império Romano.

O segundo sistema tem como fundamento principal a própria lei. Embora a importância do juiz ainda exista nos países de Civil Law, seu poder de decisão diante de cada caso é severamente diminuído. Nem sempre o que é senso comum tem lugar nesses países, sendo que a efetivação do ordenamento jurídico se dá no papel, ou seja, quando um determinado entendimento se torna lei escrita. Embora possa parecer burocrático e pouco efetivo inicialmente, trata-se de um sistema mais seguro, por não se pautar tanto no juízo de valor do julgador. É o sistema utilizado na Alemanha e nos países latinos.

A LEI E O SEU CENÁRIO DE FANTASIA

Você pode escolher os sistemas mais interessantes para o seu cenário, mas nem sempre aplicá-los será uma tarefa simples. Nem mesmo criadores compulsivos como Tolkien ou Ed Greenwood se deram ao trabalho de detalhar as leis de seus universos. Na verdade, uma determinação por auto das leis que regem cada sociedade é o ideal, sendo que você pode contar com a parte de “role-playing” do jogo para ajudar a dar vida ao resto.

Se você decide, por exemplo, que um dos reinos de seu cenário possuirá uma legislação meticulosa como havia em Roma, não precisa criar cada uma de suas leis, basta interpretá-las! Como? Se cada vez que os jogadores precisam delas, elas se mostram extremamente burocráticas, se o simples fato de chegar ao provimento legal por si só já é quase uma aventura, logo os jogadores sentirão a idéia de sistema legal que o seu cenário quer passar.

Também é muito fácil mostrar aos jogadores outros sistemas. Numa vila onde as pessoas sempre se voltam para o sacerdote local em busca de respostas para suas disputas, há uma interessante mistura entre um sistema voltado para a religião e o Common Law. Um conselho de anciões pode parecer uma forma primitiva de aplicação da lei num olhar inicial, mas talvez eles sejam responsáveis por uma correta interpretação das sagradas escrituras, ou talvez falem diretamente ao oráculo dos deuses.

Cabe apenas a você utilizar as sugestões acima para dar alguma utilidade aos sistemas legais do seu cenário. É tudo uma questão de criatividade, mas também de interesse. Talvez você prefira um cenário onde os aventureiros são livres para fazerem o que bem entenderem, o que faz menos sentido, mas está mais de acordo com a vontade e o conceito de diversão de alguns grupos.

Como sempre, poderíamos estender essa discussão, mas acho que o que já foi dito acima pode ajudar o suficiente na aplicação da lei em seu cenário de fantasia. Estejam conosco de novo na semana que vem, e abordaremos um aspecto da sociedade que vai de encontro aos seus pressupostos mais básicos. Até mais!

Curva de Desenvolvimento – Fantástico… Porém Racional!

Por Giltônio Santos

Olá leitores! Durante várias semanas, temos focado aspectos geográficos, cosmologia, e a síntese de uma sociedade em cenários de fantasia. Muitos desses temas não são de fácil abordagem, nem sempre conseguimos ir direto ao ponto que desejamos, talvez nem sempre consigamos ser claros o suficiente. Sim, alguns tópicos exigem bastante para serem escritos, sua própria natureza dificulta o desenvolvimento de um artigo. Bem, hoje temos um desses pela frente…

O que temos na base de uma sociedade? Segundo alguns, as civilizações pré-colombianas estavam adiante de seu tempo, e isso se deve à complexidade de suas estruturas sociais, sua matemática e astronomia avançadas, além de outros aspectos culturais e do pensamento, que dizem muito a respeito delas. O mesmo já foi dito sobre os gregos, quando citando sua filosofia ou democracia, e em áreas diferentes, temos referenciais em outros povos.

Creio que isso mostra o quando sintetizar a cultura e o pensamento de uma sociedade é importante para que possamos estabelecer nosso conceito sobre ela. E de acordo com a nossa regra geral, se é assunto de relevância para a Terra, talvez seja importante em cenários de fantasia também. Como você deve estar tentando criar um mundo vivo, e pautado em verossimilhança, é provável que queira ler algo sobre o assunto.

CULTURA E CONHECIMENTO: AVANÇO X PRIMITIVISMO

Ambos têm seu papel, bastante relevante para cenários de fantasia, que normalmente bebem nas duas fontes. Embora nem todo cenário utilize esse recurso, muitos deles contam com o devido contingente de bárbaros, homens da floresta, ou grupos semelhantes, que erguem o pilar de algo que poderíamos chamar de uma cultura primitiva.

Do outro lado, estão sociedades que trazem consigo uma cultura avançada. Elas buscam o desenvolvimento da filosofia e da arte (em nosso caso, também da magia), seus indivíduos valorizam o pensamento puro e simples, como forma de avanço, e a produção de conhecimento não se efetua apenas através do empirismo típico dos povos mais primitivos; aqui, o conceito de ciência aflora, e ganha respeito.

Esse é um choque entre duas forças que implicam muito mais que simplesmente avanço e primitivismo. Dentro da questão de aspectos culturais e do pensamento, nos deparamos com a emoção versus a razão, superstição em face do ceticismo, e mesmo o velho debate entre fé e ciência. Então você se pergunta: será que isso é realmente importante para o meu cenário? Minha resposta é: se você pretende criar para ele sociedades que tenham um pouco mais de conteúdo, sim.

CIÊNCIA

Através da ciência a humanidade produz um conhecimento que afeta sua vida diretamente, no dia a dia, nas coisas mais simples, mesmo de forma inconsciente. Em grupos normais, o desenvolvimento científico é um processo lento, que tem início nas chamadas ciências naturais, tais como Física e Biologia, é só muito depois chega às avançadas ciências humanas como Direito ou Sociologia. A ciência primitiva está intimamente ligada à filosofia, e se prende bastante a teorias mantidas no plano mental. Num estágio avançado, no entanto, a comprovação da hipótese formulada, por meio de experimento, passaria a ser imprescindível.

A matemática é uma ciência especial, que merece ser tratada separadamente. Seu desenvolvimento, na maioria das vezes, serve como termômetro direto do grau de avanço de uma sociedade. Curiosamente, o ábaco ainda é um instrumento de cálculo mais preciso que qualquer calculadora, o que nos faz perceber como a ciência dos povos antigos deve ser respeitada. Mesmo assim, sem o logaritmo não existiria o computador; pelo menos não como conhecemos.

Outro ponto diferencial na criação das sociedades é analisar o grau de avanço da medicina. Bem, é verdade que cenários de fantasia dispõem de clérigos, quase sempre dispostos as trocar cura por doações para a igreja, mas isso não pode simplesmente substituir a medicina, muito mais disponível. Em algumas sociedades, inclusive, a magia pode ser encarada como uma força complexa e pouco confiável. Talvez essas pessoas até mesmo se recusem a receber cura mágica, preferindo a assistência de um médico! Quando isso acontecer, você saberá dizer o que a medicina de seu mundo pode curar?

Em cenários de RPG, costumamos deixar a ciência de lado, afinal, existem tantos outros fatores mais interessantes para se levar em consideração! O pensamento científico, no entanto, movido por curiosidade, admiração e ceticismo, pode levar uma sociedade a direções inusitadas, mesmo quando o mundo que está ao seu redor é habitado por magos, dragões e outras seres de fantasia.

ARTE

A arte de uma sociedade tem uma capacidade marcante de demonstrar seu desenvolvimento, seus valores, e seus entendimentos morais e éticos. Cenários de fantasia raramente levam isso em consideração, e os bardos do Norte costumam não ser muito diferentes dos menestréis do Sul. Formas de arte que não sejam a música e a poesia raramente têm a oportunidade de aparecer em um cenário de campanha, mas isso não significa que você não possa dar a elas um papel no seu.

Os artistas muitas vezes servem como catalisadores dos avanços de seu povo, mas também podem corroborar um sistema vigente, utilizando sua arte para reforçar a mentalidade das pessoas que estão no poder. Ao longo de nossa história, por exemplo, vimos uma arte medieval patrocinada pela Igreja Católica, projetando suas igrejas e encenando seus autos. Nessa mesma Europa, em outro tempo, os movimentos de vanguarda fixaram as bases para a constituição de uma arte moderna, que acompanhava as mudanças constantes do mundo, mesmo desafiando autoridades religiosas e seculares.

Um ponto importante da concepção de um cenário é a criação de sua história (da qual nós ainda falaremos, mais adiante), e você pode enriquecê-la muito, se tiver o cuidado de olhar para detalhes como a importância da arte na solidificação do pensamento majoritário e o papel dos artistas como um todo, seja na manutenção das estruturas, seja ajudando a derrubá-las, para que outras apareçam.

FILOSOFIA

É através da Filosofia que o homem ocidental se encontra com o pensamento em si. Durante a idade antiga, a arte e a ciência convergiam para esse campo do conhecimento, e os grandes filósofos eram também os naturalistas, matemáticos, dramaturgos e poetas de seu tempo. Se você está indo adiante com a idéia de criar um cenário complexo, intrigante, e que leva em consideração os detalhes mais sutis das sociedades existentes, este é o melhor ponto a partir do qual pode continuar.

Através da Filosofia, o homem fundamenta suas escolhas, sejam elas éticas ou morais. É também através dela que o homem chega ao pensamento científico, um passo enorme no sentido da racionalização de uma sociedade. Em seu cenário, um povo conhecido pela grandeza de seus filósofos será também conhecido pela sofisticação de sua sociedade, principalmente no tocante à política e aos avanços da ciência.

Um excelente NPC para um cenário de campanha seria, por exemplo, um filósofo ocupando um cargo importante dentro de um reino ou mesmo um império. Durante o auge das monarquias européias, muitos filósofos se destacaram escrevendo para fundamentar a monarquia, indo do direito divino ao contrato social. Ainda hoje, suas teorias são estudadas, até mesmo para a compreensão da política contemporânea.

Em cenários de fantasia, no entanto, temos nos magos, sacerdotes, bardos, e outros mais voltados para o conhecimento, os candidatos ideais ao desenvolvimento da filosofia de seu mundo. Se estiver interessando em adicionar esse grau de detalhe à campanha, faça algumas perguntas simples, como o que esses homens estudam e o que buscam fundamentar, quais os métodos através dos quais formulam e provam suas hipóteses, e qual é sua importância para o pensamento da sociedade como um todo. Pode parecer um pouco exagerado, mas você ficará impressionado como isso ajuda a conectar as coisas quando chegamos a um dos fatores fundamentais do cenário de campanha: a verossimilhança.

Bem, isso não é, de forma alguma, tudo o que poderíamos dizer sobre o tema, mas espero que seja o suficiente para que cada um vá adiante, em suas próprias reflexões. Se ainda estiverem por aí, espero encontrar vocês de novo na semana que vem, quando faremos uma análise um pouco mais profunda de tudo que pode ser certo ou errado a respeito de sua sociedade. Até mais!

Curva de Desenvolvimento – Uma Raça, Vários Povos…

Por Giltônio Santos

Na semana passada, estivemos discutindo sobre raças de fantasia, e como utilizá-las em seu cenário de campanha. Para hoje, temos um tópico semelhante, porém um pouco mais restrito. Depois de definir que raças habitam o seu cenário, é importante determinar se cada uma delas está unificada ou não. Cenários que possuam variações ambientais intensas, ou nações separadas durante muito tempo e por longas distâncias, acabam por gerar diversos ramos de uma única raça, com várias semelhanças, mas algumas vezes tão variadas culturalmente quanto o seriam duas raças distintas.

Drows, Anões da Ravina, Noldor, e os Halflings Selvagens de Athas são exemplos de variações étnicas dentro de um grupo, ocasionadas pela separação, dificuldades ambientais, ou mesmo na origem, devido a diferentes patriarcas ou ofícios variados. Essa é uma opção que enriquece qualquer cenário de fantasia, e como tal, tem sido utilizada extensivamente por quase todos os criadores que puderam contar com esse recurso. Na verdade, oferecer uma variação étnica é uma solução mais simples, rápida e até mais interessante, quando existe a necessidade de preencher um nicho dentro da criação com um povo novo.

Em nossa própria Terra, temos uma variação étnica tão grande que é quase impossível catalogar com exatidão os diferentes galhos que a árvore da humanidade já gerou. Em cada um dos continentes, contamos com povos que, embora pareçam iguais, carregam diferenças que já ocasionaram conflitos de grandes proporções, e até tentativas de extermínio em massa, como as que sucederam durante a segunda guerra mundial, e outras vezes, tanto antes quanto depois dela. Assim, temos uma série de fatores que são os mais importantes de se levar em consideração quando construir os grupos étnicos de seu cenário.

EU REALMENTE PRECISO DE OUTRA ETNIA?

Essa pergunta deve ser respondida agora. Será que você realmente está em busca de uma variação de uma de suas raças principais para cumprir um papel relevante na sua campanha? Pergunto isso porque talvez você esteja apenas tentando oferecer novas e interessantes opções para os jogadores, sem analisar qual é o verdadeiro objetivo por trás da criação de um grupo étnico. Toda variante deve ter um impacto no cenário, ou o impacto deve ter uma variante nela.

Se falarmos da primeira opção, temos um caso semelhante ao dos Drows. Nos reinos, eles existem com o objetivo de representarem uma grande força antagônica. Muito do que acontece de maligno pode ser associado a eles, e os seus esforços nessa direção não deixam a desejar. Se a opção é a segunda, criamos uma variante como resultado de um evento que transformaria de alguma forma uma raça pré-concebida. Os kenders de Krynn são tipicamente imunes aos efeitos do medo, mas um de seus ramos, chamados de “afligidos”, perderam essa imunidade, como resultado de experiências terríveis pelas quais passaram.

Por fim, é comum utilizar variantes para preencher nichos. Levando em consideração que cada uma delas é uma nova dose de trabalho, é bom saber se você realmente precisa disso. Em face do elfo tradicional, eu não preciso de um grupo étnico élfico formado por grandes espadachins; trata-se de uma característica da raça originária. Existem também situações em que a variação começa a se distanciar tanto do original que já nem parece a mesma raça. Nesse caso, talvez você devesse pensar na possibilidade de uma raça totalmente nova (e talvez seja melhor dar uma olhada no artigo da semana passada).

FATORES INTERESSANTES DE SE TRABALHAR

Alguns dos fatores mais interessantes, e mais fáceis de trabalhar em grupos étnicos, já foram citados acima. Você deveria levar em consideração que tipo de alterações uma determinada situação provocaria em certa raça, para então, rascunhar a versão alterada da raça básica.

Climas extremos tendem a gerar raças adaptadas a locais extremos. Suas habilidades devem refletir isso, assim como sua cultura. Bem, não falamos sobre cultura ainda? Teremos um tópico apenas para ela mais adiante, mas por hora, basta saber que o ambiente em que vivemos é capaz de promover sérias alterações em nossos valores e em nossa forma de pensar. Um povo originário de condições inóspitas tende a se agarrar a valores como força, coragem e astúcia. Eles desprezam aqueles que consideram fracos e, dependendo de suas inclinações morais, podem escravizar ou abandonar os mais fracos.

A raça “mais nobre” é um outro elemento tipicamente utilizado para cenários de fantasia, que, no entanto, ignora qualquer realidade de nosso mundo. Mas se você realmente não se importa com esse tipo de realismo, é comum, em cenários de fantasia, que um dos ramos da raça seja considerado de sangue nobre, destinado a governar os outros. Nem sempre isso é visto com bons olhos por outros grupos, mas é possível que seja gerada uma relação de noblesse oblige, em que a chamada raça nobre se torna responsável pela segurança de seus súditos. Ao longo de nossa história, essa relação se deu dentro de grupos integrados, não de diferentes raças, como sugere a fantasia típica. Cabe a você decidir qual dos dois cabe melhor ao seu cenário.

IMPACTO DO ENCONTRO

Se o seu cenário conta com uma diversidade de variações de uma mesma raça, é bem provável que elas acabem se encontrando. Levando em consideração que muitos mestres inclusive optam por cenários de raça única, em que todas as escolhas de personagem são apenas etnias, a chance de que membros de diferentes grupos venham a se encontrar cresce muito.

Nós trabalhamos muito com os exemplos da humanidade, então posso dizer que o impacto desse encontro é, na maioria das vezes, extremamente negativo, pelo menos para um dos lados. Resultaram, entre outros, a escravização de diversos povos africanos na América, o massacre dos índios que viviam aqui, tanto diretamente, quanto através de epidemias e opressão cultural, e também danos permanentes, durante as cruzadas, à rica civilização que os povos muçulmanos construíram no Oriente Médio.

É claro que esse encontro não é feito apenas de impactos negativos. A troca de experiências tem muito que acrescentar a qualquer cultura, principalmente se os representantes do outro lado já têm características semelhantes. Em cenários de RPG, você pode utilizar isso tanto como um pano de fundo que justifica o atual estágio cultural de determinado povo, quanto como uma experiência vivida em primeira mão pelos personagens dos jogadores, digna de ser interpretada e se tornar parte importante da estória que está sendo contada.

O simples fato de um povo estar subdividido em um cenário já pode gerar ganchos interessantes para suas campanhas. As razões para essa divisão, por exemplo, não precisam ser claras inicialmente. Na verdade, descobrir o porquê da separação entre as diversas etnias que habitam as Ilhas de Ktrain pode ser uma grande aventura, ou mesmo guardar a semente para uma campanha. Tudo isso depende do interesse que você, enquanto criador, tem pelo tema, e da forma como decide aplicar isso em sua campanha.

Acho que com isso estamos terminados por hoje. Esse é um tema que pode se expandir bastante, através de exemplos de criação e impacto no jogo. Se isso parecer interessante para o futuro, não esqueçam de mandar algumas linhas para nós, ajudando a aprimorar a coluna. Como sempre, espero que estejam conosco mais uma vez na semana que vem, trazendo o fogo de Prometeu para a humanidade!

Curva de Desenvolvimento – Quando a Ajuda Vem de Cima

Saudações mais uma vez! Hoje, continuamos nossa discussão sobre a cosmologia do cenário indo a um outro ponto relevante, porém nem sempre utilizado. Falamos da intervenção divina, o momento em que os seres superiores agem no sentido de afetar diretamente o cenário, geralmente para trazer alguma vantagem aos seus seguidores, ou para abalar as estruturas anteriormente estabelecidas. Acredite, introduzir os deuses como personagens relevantes num cenário pode parecer simples, mas não é. Assim, tentamos levar em consideração uma série de fatores ao considerar a presença divina em seu mundo:

OS DEUSES ESCOLHEM LADOS?

Essa pergunta é bem importante. Se os deuses realmente intervêm no mundo, eles os fazem por interesses pessoais, ou para fomentar as batalhas de seus seguidores? Na mitologia grega, em mais de uma ocasião, os deuses exerceram sua influência sobre o mundo por objetivos pessoais, que não tiveram muito a ver com seus seguidores. Zeus, por exemplo, era conhecido por suas escapadas, que geraram Hércules e Perseu, entre outros, sem afetar diretamente as pessoas que cuidavam de seus interesses (seus domínios, se preferir).

Por outro lado, durante a Guerra de Tróia, temos esses mesmos deuses gregos escolhendo lados, intervindo nos resultados, e protegendo diretamente seus seguidores mais fiéis. Para eles, realmente pouco importava quem ganharia ou perderia, o interesse dos seres divinos em rotas de comércio, ou nos direitos maritais de Menelau inexistiam; o que havia era a necessidade de proteger e defender aqueles que podiam ser considerados os melhores entre seus seguidores. Assim, Afrodite abençoava as flechas de Páris, enquanto Athena dava a Ulisses o melhor de sua sabedoria, fazendo dele um estrategista singular.

A intervenção divina em seu mundo de campanha pode dizer muita coisa sobre a personalidade dos deuses. Voltando à Grécia, não devemos esquecer que seu panteão era formado por seres de características bem humanas; vaidosos, impulsivos, ciumentos e arrogantes, assim como seus fiéis. A forma como escolheram se meter nos assuntos dos mortais muitas vezes reflete isso.

A INTERVENÇÃO DIVINA É SIMÉTRICA?

Na maioria dos casos, a resposta é não, mas você pode resolver fazer diferente. Quando temos uma divisão bem marcada entre o lado bom e o lado mau do panteão, os deuses bons não costumam intervir diretamente na vida das pessoas, preferindo que suas ações sejam sentidas de forma mais sutil. É claro que isso não os impede de enviar um representante, vez ou outra, para ajudar um seguidor em uma situação especialmente complicada. Mesmo esses, no entanto, não precisam ser figuras óbvias, como um anjo descendo sobre um campo de batalha. Os deuses maus, por outro lado, gostam de aparecer em toda a sua glória, atacando diretamente quando possível, e espalhando terror nos corações bons.

É possível trabalhar no caminho inverso? Sim, mas não podemos deixar de avisar que você estará pisando num campo onde a fantasia raramente se aventura (o que não deixa de ser algo bom!). O contato com as entidades boas tem um efeito estranho em seus seguidores. A consciência da própria razão não produz nos bons homens o comportamento que se esperaria. Eles tendem a se tornar opressores, caçadores do mal, e donos da verdade, se corrompendo por fim. A ironia maior é que nessa hora seus deuses simplesmente deixarão de vir ao mundo por eles, abrindo espaço para a chegada dos deuses malignos. Os fatos anteriores e posteriores a um marco como esse, por si só, dariam uma grande campanha.

A simetria nas intervenções divinas normalmente se dá através de regras. Nesses casos, muitos deuses evitarão agir diretamente, pois isso abre um espaço para que seus inimigos também o façam. Um cenário assim definitivamente carece de ações diretas dos deuses, valorizando os atos de seus seguidores.

QUAL É A FREQÜÊNCIA EM QUE OCORREM?

Essa é outra pergunta crucial, que está diretamente conectada à importância dos deuses em seu cenário. Os deuses de Krynn agem diretamente o tempo inteiro, pois seus interesses estão amplamente conectados ao mundo. Isso já surtiu bons e maus efeitos em relação a seus seguidores, pois nem sempre suas ações terminaram da forma esperada. Os deuses de Faerûn retiram seu poder da força de suas próprias religiões, então é natural que estejam sempre trabalhando para seu avanço. Os deuses de Eberron estão tão desconectados no mundo que pessoas cujos ideais agridem diretamente seu etos podem acabar participando da religião, até mesmo como sacerdotes!

A verdade é que deuses muito distantes podem acabar sendo esquecidos por aqueles que deveriam prestar homenagem a eles. Em seu cenário, você deve determinar a relação de cada deus com o mundo, para só depois decidir a freqüência com a qual eles utilizam seus poderes diretamente para afetar os acontecimentos.

Um cenário em que os deuses sejam figuras pouco presentes é um prato cheio para o aparecimento de seitas de falsos deuses. Trata-se de um elemento interessante de se explorar (e falaremos sobre elas em outra ocasião), cuja proliferação pode levar os seres divinos a reações diversas, desde a decisão de agir de forma mais direta no mundo, até acessos de ira, levados pelo orgulho.

Existem duas maneiras de determinar isso. Você pode dizer como são os deuses, para então determinar a freqüência com que ocorrem suas intervenções, ou pode primeiro definir a assiduidade dos deuses em relação aos seguidores, para depois explicar o porquê, descrevendo em mais detalhes o seu comportamento.

A QUEM FAVORECEM?

Esse é o detalhe final a respeito das intervenções divinas: para quem elas são direcionadas? Parece óbvia a resposta? Pois saiba que muitos deuses pouco se importam com os atos e movimentações realizadas por seus seguidores mais poderosos. Na verdade, eles já recebem intervenções todos os dias, na forma dos pequenos ou grandes milagres que são as magias divinas. Por isso, é natural que muitos deuses olhem para sacerdotes menores, ou mesmo para os não iniciados, que ainda sim permanecem firmes em sua fé.

Quando falamos em fantasia e em intervenções divinas, o personagem que imediatamente vai ao centro de nossas atenções é provavelmente um sacerdote ou paladino. Mas eles não formam a base sólida dos seguidores de um deus; mesmo porque, se os deuses legassem tudo a eles, não encontrariam seguidores em outros grupos. Será que você sabe como trazer a intervenção divina para outros tipos de personagem?

Um fator a levar em consideração é que ela deve ser mais sutil do que as magias conjuradas por clérigos e druidas. Essas “pequenas intervenções” parecem, aos olhos dos simples mortais, não mais do que uma manobra do destino. A poeira que voa nos olhos do inimigo do guerreiro, e a corda da forca que se arrebenta, encima da hora, para salvar o ladino condenado, não são mais do que formas que deuses sábios encontram de manter a fé, sem perder o véu de mistério.

Da próxima vez que pensar nas intervenções divinas em seu cenário de campanha, pense nos personagens menos prováveis, e talvez eles sejam os mais dignos de receberem um reforço divino numa hora inesperada. Como sempre, temos também que lembrar: intervenções divinas são acontecimentos especiais, não o arroz com feijão de seu cenário. Afinal, qual a diferença entre deuses que se intrometem demais e NPCs muito poderosos? Praticamente, nenhuma.

Bem, é o suficiente por hoje. Espero que, mais uma vez, tenhamos conseguido jogar um pouco de luz num assunto relevante nas construções fantásticas. Estejam conosco mais uma vez na semana que vem, e falaremos mais dos pequenos e grandes milagres da fé!