All posts tagged PDF

Entrevistas sobre 2009 – Rolando 20

A série de entrevistas sobre mercado de RPG em 2009 continua, desta vez com o Daniel Anand do Rolando 20, provavelmente o melhor site nacional de Dungeons & Dragons. Relembrando, a proposta desta série é realizar uma mini-entrevista padronizada com 14 figuras e grupos que considero importantes na cena do RPG nacional,  principalmente sobre como avaliam 2009 e quais as suas expectativas para este ano. A idéia não é fazer uma mega pesquisa com um monte de entrevistas, mas tentar montar um mosaíco com algumas peças chaves do RPG por aqui, e com base nos seus pontos de vista iniciar uma discussão sobre os rumos do hobby no Brasil. Então vamos a entrevista!

1- Como você avalia o ano de 2009 para o mercado nacional de RPG? De forma geral foi um ano melhor ou pior que o anterior? Por quê?

Eu acho que foi um ano melhor que 2008, mas não tão melhor assim no geral.

Para o D&D, a coisa foi super bacana: tivemos vários lançamentos consistentes, superando as expectativas (embora não as promessas). Hoje temos um excelente material para jogadores e DMs que quiserem conhecer o Dungeons & Dragons, em português, e com algum suporte local da RPGA (em alguns centros, um suporte fantástico).

Além disso, tivemos a volta dos livros jogo, tivemos lançamentos de outros cenários (como o Manual dos Malfeitores e Lugares Misteriosos para nWoD), tivemos publicações em PDF (Old Dragon, Cálice de Avandra).

Estamos indo bem para um ano complicado desses, onde tivemos uma mega crise mundial, que afetou todas as indústrias.

2- Qual foi a melhor notícia, iniciativa ou lançamento do RPG nacional este ano na sua opinião?

Ah, sem dúvida o D&D 4e em português. Demorou, mas tivemos um tratamento VIP no D&D. Livros com erratas, com qualidade excelente e preço que surpreendeu todo mundo.

3- De forma mais geral, como você enxerga o ano de 2009 para o mercado mundial de RPG? E qual a notícia, iniciativa ou lançamento que mais se destacou neste ano?

Bom, é difícil falar de mercado mundial. Europa (especialmente Alemanha) e Japão, por exemplo, tem características totalmente diferentes. O que a gente pode dar uma olhada é no mercado americano, que é o que mais reflete aqui no Brasil. E por lá aconteceu um fenômeno bacana, que foi o surgimento de vários novos RPGs não d20, que na minha opinião foi algo positivo para o mercado.

A OGL teve um papel muito bacana na diversificação das empresas de RPG, porque o D&D nos EUA é de longe o maior (e praticamente sinônimo) de RPG. Mas acabou dando uma engessada em sistemas e na inovação, que ocorreu só em RPGs independentes. Com a nova licença dracônica e inutilizável da WotC, vários novos sistemas e cenários começaram a aparecer.

Desde retro-clones ou evolu-clones como o Pathfinder, mas também sistemas totalmente novos, como o Dragon Age RPG, o novo Warhammer e por aí vai. Eu gostei muito de ver a Fantasy Flight Games e seu Warhammer 3e, que inova em termos de sistema de regras, mas volta ao RPG mais focado na história, agora que o D&D abraçou de verdade o seu lado tático.

4- Quais foram seus principais projetos, lançamentos ou iniciativas em 2009? Eles responderam as suas expectativas?

Em 2009 tivemos a Iniciativa 4e, que superou bastante as minhas expectativas. Mesmo tendo um pouco de dificuldades no final do ano, criamos em conjunto muito material bacana para o D&D 4e em português, de qualidade superior a muito material publicado por aí, fiquei bem feliz mesmo com o resultado. Tanto que tivemos iniciativas similares para outros sistemas, o que só traz ainda mais opções aos RPGistas. A revista da Iniciativa, produzida pelo D3System, também ficou muito bacana.

Algo que não saiu como eu esperava foi o meu trabalho junto com o D3System: tive dificuldades de tempo, assim como outros membros, e nosso desempenho na segunda metade do ano deixou a desejar. Esperamos fazer um um 2010 bem melhor!

5- Quais são suas expectativas para o mercado de RPG nacional para 2010?

Olha, como jogador de RPG, nenhuma: o único RPG que tenho em português é o GURPS, e não tenho nenhuma expectativa em relação à 4a edição em português. Mesmo o M&M já tinha em Inglês antes de sair por aqui. No entanto, como blogger, podcaster e entusiasta da 4a edição do D&D, espero ver os lançamentos de D&D irem de vento em popa: os reinos esquecidos para 4e, livro do jogador 2, e por aí vai. E, quem sabe, material nacional publicado para a 4e também.

6- Você já tem projetos, lançamentos ou iniciativas previstos para o ano que vem? Se sim nos fale um pouco sobre eles!

Meu maior objetivo em 2010 é conseguir manter o blog, o podcast e a Iniciativa 4e todos sendo devidamente atualizados! Estou brincando um pouco com o formato de vídeo, e estava pensando em ter um videocast de resenhas, vamos ver. Além disso, eu e o Davi estamos escrevendo uma aventura de D&D 4e, para ser publicada em PDF, e espero terminar em 2010 também. Não sabemos ainda como, mas provavelmente será no esquema do Cálice de Avandra, veremos. Também queremos criar outra Iniciativa Aprimorada, mas queremos fazer isso junto com o próximo encontro de RPG.

Comentários: Concordo demais com o Anand (e com a maioria dos entrevistados!) que 2009 foi um ano melhor que o retrasado, embora o enfoque dele tenha sido no campo estritamente das publicações – e não temos como negar que o ano passado teve muito mais lançamentos de peso no mercado nacional que 2008, com o destaque indo para o tratamento excelente que a Devir tem dado ao Dungeons & Dragons por aqui.

Sobre o mercado gringo o ponto levantado pelo Daniel é importante, afinal quase não conhecemos bem a realidade do que rola em outros países além dos EUA, que possuem cenas de RPG com características bem próprias. Ainda assim, é bacana ver que o efeito da licença aberta utilizada com a terceira edição do D&D ainda tem tido interessantes ecos no mercado, mas como bem aponta o Anand, de uma maneira menos engessada e até mais experimental do que a maioria do material que foi produzido nos anos de Dungeons & Dragons 3.5.

Retornando as coisas legais no RPG brasileiro em 2009, a Iniciativa 4e, com a produção conjunta de vários blogs para a nova edição do D&Da o redor de temas específicos mostrou que se a idéia é boa um monte de gente se agrega para participar e colaborar, tanto é que o efeito foi o apontado pelo Anand: jogadores de outros sistemas, como Mutantes & Malfeitores e 3D&T, adotaram a idéia e construiram suas iniciativas de maneira semelhante!

Outro destaque do ano passado foi o lançamento da aventura Cálice de Avandra, primeiro livro de RPG em português a ser vendido em PDF que eu tenho notícia, e que testou os limites e possibilidades desta forma de distribuição no Brasil. Acho que foi uma jogada inteligente, o pessoal da Iniciativa 4e e do D3system começou pequeno, sem grandes promessas, mais para testar as águas, e a aventura que é resultado deste processo tem uma produção legal e parece bem interessante. O tema obviamente me interessa, e na minha lista de coisas para fazer a conversa mais específica sobre o Cálice de Avandra é uma das prioridades. Quem sabe não falamos sobre ela e a aventura nova dos irmãos do Rolando 20 de uma tacada só?

Gostaria de agradecer ao Daniel Anand pelas respostas e contribuição com a idéia da série de entrevistas. Espero que continue em 2010 rolando 20!

Publicação de RPG em PDF – Perguntas [Parte 1]

Mês passado começamos uma discussão por aqui sobre a viabilidade e os formatos da publicação de livros de RPG no formato PDF no Brasil. Eu sei, se passaram mais de 40 dias e as coisas aqui no Área Cinza ficaram bem paradas, mas é hora de voltar e retomar essa idéia, que já gerou um bocado de questões muito interessantes.

Dentro desta minissérie de artigos, já tivemos dois – a primeira parte da história da Secular Games, falando um pouco das nossas expectativas da entrada neste mercado e forma de produção dos livros; e o Levantando questões sobre a publicação de RPG em PDF, que teve uma resposta fenomenal. É tentando responder as perguntas feitas ali que vou escrever este artigo, e provavelmente mais uns dois ou três nessa linha.

Neste primeiro artigo das perguntas, dei uma dividida para agrupar as questões mais diretamente relacionadas. Acho que poderíamos chamar esse bloco de Perguntas sobre a Produção:

1- A minha principal questão em relação aos pdfs é ligada ao trinômio ilustração-preço-vendagem.

Parece um paradoxo. Pra ter um bom produto em pdf preciso de boa qualidade gráfica. fazer um doc do word com umas fontes bonitihas e gerar um pdf não me levará a lugar algum. No entanto, ilustrações de boa qualidade, uma capa apresentável e uma diagramação aceitável não são baratas, e aumentam consideravelmente o valor final do produto, que precisa ser baixo para vender. Como resolver essa questão, que fica ainda mais complicada se pensarmos em mercado nacional? (Mr. Pop)

Essa é uma ótima questão! Pode parecer um senso comum, mas acho que o caminho mais apropriado é alcançar um meio termo nesta tríade entre design gráfico-preço-vendagem. É fato que todos nós queremos lançar um produto ótimo, no sentido de melhor possível, e muitas vezes usamos como parâmetros produtos de editoras maiores que tem muito mais grana que nós para medimos como devem ser nossos livros. Eu mesmo fui um dos que ao saber que o Wayne Reynolds trabalha como freelancer não resistiu olhar quanto ele cobra por uma capa, e sim, é muito mais do que nós da Secular jamais poderemos pagar!

Mas esse é um caso extremo. Uma editora de PDF que planeje lançar alguns livros por ano tem que criar uma estratégia para maximizar o aspecto gráfico de seus produtos, sem que isso aumente demais o seu custo de produção. Por exemplo, a respeito da identidade visual, livros de uma mesma série (como os Advanced Character Guide, ou mesmo livros de um mesmo cenário, como Tormenta) podem usar as mesmas bordas, fontes e formato da diagramação. Assim, mesmo que tenha que pagar para um designer fazer isso, é um custo que poderá ser dividido entre os outros livros que usarem a mesma base.

No que tange a diagramação, é fato que a diagramação de um profissional difere e muito daquela feita por um amador (e as revistas Dragão Brasil e Dragon Slayer, na época que coexistiram nas bancas eram um exemplo gritante deste fator), mas isso pode ser atenuado. A primeira dica é usar um programa decente de diagramação, e minha weapon of choice é o Adobe InDesign, ferramenta poderosa e de uso bem intuitivo se você já brincou um pouco com o Photoshop e outros da família Adobe. Mesmo com outros programas, uma boa idéia é aproveitar um modelo já existente, seja um dos padrões que acompanham a ferramenta, ou aquele criado pelo seu designer quando desenvolveu a identidade visual do produto (ou linha). Eu sou sociólogo e minha experiência prévia com diagramação era inexistente, mas com o InDesign, e a identidade visual desenvolvida pelo Leo diagramei com tranquilidade (embora não seja a coisa mais divertida do mundo!) todos os livros da Secular, e modéstia a parte ficaram muito bons para um leigo. Ou seja, tenha alguém que entenda por perto, arrume um programa decente, e tente não inventar muito, pelo menos no começo, e com alguma sorte a diagramação não vai ser um peso no seu orçamento.

Mas todos nós sabemos que o buraco acontece mesmo nas ilustrações. Um livro de RPG sem elas não deve dar muito certo, e aqueles que possuem ilustrações ruins são ainda piores. Acho que a primeira dica aqui é ser minimalista e criativo – não adianta querer ter uma ilustração a cada 3 páginas e desenhos de página inteira na abertura de cada capítulo, se você tem somente 100 reais para investir em arte. O melhor é adaptar, espaçando mais as ilustrações, vendo quais você pode reaproveitar de maneira inteligente (as imagens de capa e abertura de capítulo por exemplo podem ser desmembradas, a Paizo faz isso demais!). Mas mesmo com essas gambiarras, ilustrações são caras…

Nós da Secular tínhamos a vantagem de ter um ilustrador de mão cheia entre nós (o Ig Barros), além do Leo Braca, que é um excelente designer. Mas mesmo assim o Ig nunca deu conta de ficar por conta e ilustrar tudo por conta de seus outros trabalhos, e nos colocou em contato com alguns excelentes ilustradores. Mesmo cobrando um preço camarada, esses ilustradores chapas do Ig cobravam mais do que tínhamos em caixa no início da editora (éramos todos estagiários!), o que era totalmente justificado, pois eles foram escolhidos pelo Ig exatamente por serem fodas! Chegamos a um acordo então: pagá-los através de porcentagem.

O esquema era assim – a cada 3 meses 30% do lucro líquido de um título era dividido entre os ilustradores, de acordo com uma tabelinha que o Ig elaborou comigo, que seguia o número de ilustrações, tamanho, cor, etc.. Isso nos possibilitou colocar nossos primeiros 4 títulos no mercado sem ter um investimento inicial em arte, mas hoje não é um modelo que eu acho mais apropriado para a Secular. Isso porque em primeiro lugar demanda uma camaradagem pré-existente com o ilustrador, pois no mínimo ele tem que ter uma boa dose de fé no seu produto, para apostar que ele vai vender o suficiente para pagar um valor justo pelo seu trabalho. Segundo, mesmo que esse vínculo de confiança seja estabelecido, acredito que este é um formato de relação com o ilustrador que é desgastante a médio e longo prazo. Imagina que saco ficar recebendo 10-15 reais a cada 3 meses por dois desenhos, não seria muito melhor receber logo 60 pratas na bucha do que ficar prolongando o pagamento a conta-gotas? Na real essa lógica só vale se o ilustrador é muito camarada, ou se ele trabalha bastante nesse esquema, aí sim, depois de um tempo ele vai receber todo mês uma quantia menos miserável. Ainda assim acho uma forma de pagamento bem abstrata. E que é um saco de contabilizar para quem administra a grana da editora!

Como hoje temos uma boa grana para investir de lucros dos nossos produtos anteriores, se formos lançar algo certamente não vai ser seguindo essa lógica da porcentagem. Mas isso não quer dizer que ela não seja válida: é uma excelente estratégia para editoras lançarem seus primeiros produtos e foi ela que possibilitou a Secular construir um caixa sem tocarmos nos nossos salários de fome.

Outra estratégia interessante para ilustrações é usar banco de imagens e art packs apropriados para RPGs, pacotes de ilustrações que depois de comprados dão o direito do comprador os utilizar em seus próprios produtos.  Um bocado deles podem ser encontrados na RPGNow por um preço bem camarada, e embora a grande maioria seja de qualidade duvidosa, existem algumas ilustrações bem usáveis por ali. Nunca usamos estes estoques de imagens e nem os pacotes, mas acho que é uma estratégia muito boa para cortar custos e conseguir algumas imagens legais por um preço muito baixo. Talvez até misturar: algumas imagens mais direcionadas ao produto e pagas normalmente, e outras dos art packs como fillers

Finalmente meu chapa Richard Garrell se adiantou e começou a responder no próprio tópico, algo que acredito que seja a conclusão desta história toda:

Muito interessante a questão levantada sobre a arte.

É indiscutível que o produto tem que ser bonito. Aliás, isso vale inclusive para RPG. Eu gosto de livros bonitões. Acho um saco por exemplo a mania fanzineira da SJG de fazer livros feiosos (muito embora isso tenha mudado na 4ª edição, e os boardgames sejam bonitões!).

Assim, é fundamental um projeto gráfico bacana. Nessa dai por exemplo acho que a Secular sai na frente da esmagadora maioria das editoras de pdfs que já vi livros.

Embora o conteúdo dos livros não seja extraordinário (o que eu achei incrível mesmo, o Loremaster, infelizmente nunca saiu), são .pdfs muito bonitos, realmente diferenciados.

Acredito que é um padrão que deve ser observado e mantido. Por outro lado, existe um motivo prático para que isso aconteça: a editora possui dentre seus fundadores um designer bom de serviço, e conta com a camaradagem do Ig Barros, um desenhista excepcional. É verdade que nem todo mundo tem essa sorte.

Assim, acredito que o segredo é mesmo enfiar a mão na cumbuca e tirar algum dinheiro para pagar pelo menos um designer. Devo destacar que ilustrações não necessariamente imprescindíveis. Um designer que tenha um banco de imagens legal já pode fazer várias coisas interessantes, por exemplo. (Garrell)

Concordo totalmente. É possível utilizar seus contatos e soluções criativas, como escrevi ali em cima, para diminuir os custos, mas algum investimento é necessário para lançar um produto bacana.  E aposto que o Mr. Pop já sabe disso… O lance é tentar achar formas de equilibrar esse investimento com o preço final do produto.

2- Quanto a parte de ilustração eu realmente acho difícil conseguir uma ilustração sem saber desenhar… mas quanto a editoração eu realmente preciso pagar alguém pra fazer?

Não existem programas de fácil acesso e fácil de mexer para que um leigo com algumas horas de dedicação possa fazer um material com um mínimo de qualidade? (Leonardo)

Bom abordei um pouco sobre isso na resposta acima, mas o Vinicius mandou uma boa resposta também (e aposto que ele é designer ou alguém que trabalha com a parte gráfica!):

Mais ou menos Leonardo. Assim como desenhar costuma ser requisito para gerar boas ilustrações para os livros de RPG, há uma diferença grotesca dum editor profissional para um amador que resolva usar um programa para montar o PDF dele. Claro, dá para fazer – da mesma forma que dá para fazer livro em PDF com ilustração barata :P. Idealmente, você quer alguém que sabe da coisa para editorar seu livro. (Vinicius)

Realmente, a diferença é notável entre um editor visual profissional e alguém que está improvisando. Mas o ponto aqui na resposta do Vinicius é o “idealmente”. Claro que se for possível, seja por ter grana em caixa, ou um amigo designer, o ideal é ter alguém profissional nesta área. Mas se não for esta sua realidade, ainda acredito que dê para fazer o básico sem muitas inovações, e sem também correr muitos riscos, na maioria dos casos desde que acompanhado por alguém que te dê umas dicas e um bom programa.

Mas desviando um pouco da pergunta, já que estamos falando de editor, o que acham da necessidade de um editor “convencional”, alguém que edita o texto do escritor? Cada vez mais acho que esta função é determinante para se criar um produto de qualidade e interessante, e nós na Secular nunca tivemos muito bem alguém fazendo isso, embora nos revezássemos informalmente na função à medida que um de nós escrevia um título. Ainda assim, é algo que eu tenho pensando muito ultimamente…

Para finalizar duas perguntas do Cochise:

3-  PDF é um produto pouco atrativo. O pdf é basicamente um livro no computador. E o melhor lugar para os livros é o papel. O formato eletrônico deveria ser mais interativo. As fichas completáveis do Tio Nitro são um bom exemplo de para onde as coisas deveriam ir. Não proponho que se abandone o formato pdf, mas que se o enriqueça. Os recursos ele tem, mas não são tão usados isso encarece um pouco mais o produto final. (Cochise)

Bom Cochise o PDF não me parece um produto pouco atrativo. Ele tem características positivas e negativas em relação ao livro convencional de papel, mas do jeito que você coloca parece que ele é claramente inferior em tudo. O livro em PDF tem custo de produção menor, logo pode ser vendido mais barato, não tem custo de envio, uma tremenda vantagem para quem quer comprar livros no exterior, no caso do RPG pode ser usado e consultado com mais facilidade na mesa do jogo se tiver um computador a mão, enfim…

Mas também concordo que os recursos dos livros eletrônicos estão longe de serem plenamente utilizados. Um bom exemplo neste sentido são os mapas da Oonne’s, que são cheios de camadas, e você pode escolher qual delas imprimir. Mas realmente, ainda falta muito pra caminhar…

4- Até o modelo se popularizar é inviável lançar módulos básicos, apenas suplementos. Mais especificamente para o jogo mais jogado de licença aberta, D&D e derivados (Cochise)

Como você mesmo apontou, isso é verdadeiro se falamos de Dungeons & Dragons e licença d20 né? Algumas editoras tiveram sucesso com módulos básicos em PDF, como a Evil Hat e seus Spirit of the CenturyDon’t Rest Your Head. Acho que mesmo neste momento antes da popularização plena dos PDF no RPG (e de forma mais geral na produção literária), os sistemas e cenários autorais são um grande e interessante nicho, talvez não tão grande quanto o do D&D, mas certamente possuem o seu lugar. Na verdade acho que hoje, com a 4ª edição, a insuportável GSL e o incrível suporte do D&D Insider, os livros autorais, independentes e bem feitos são uma aposta até mais sólida no mercado de RPG em PDF que o bom e velho d20.

Publicação de RPG em PDF – A história da Secular Games [Parte 1]

Como disse no post da última quarta-feira, vou começar uma pequena série de artigos sobre a publicação de livros de RPG em formato eletrônico, utilizando como base principalmente minha experiência na Secular Games, editora que formei junto com alguns amigos que participavam do Círculo na época. Pensei inicialmente em utilizar os seguintes recortes ao escrever cada post, de forma a abordar as questões de diversos ângulos, misturando o que vivemos com o mercado gringo com teorias e propostas para a publicação de livros de RPG em PDF no Brasil :

  • A história da Secular Games: dois ou três posts abordando quem somos, o que fizemos nestes 3 anos, porque da editora ter ficado parada por tanto tempo, e a proposta de retorno em 2009.
  • Avaliação dos produtos lançados pela Secular: análises dos 5 livros produtos lançados pela editoraentre 2006 e 2008, onde pretendo discutir o formato de cada livro, como fizemos com a arte e diagramação, como estipulamos o preço e retorno em vendas.
  • Perguntas e teorias sobre a publicação de RPG em PDF no Brasil: tentativa de responder as perguntas feitas pelos leitores do blog no post Levantando questões sobre a publicação de RPG em PDF, e tentar pensar um modelo viável para este mercado no Brasil.

Claro que este é apenas um esboço para seguir com os artigos, mas acho que já é uma boa trilha – que pode ser alterada caso as perguntas e direção da conversa apontem para outros caminhos. Como hoje é domingão e o tempo já está escasso, preferi começar com a primeira parte da história da Secular Games, que já havia postado por aqui em 2007 nos primórdios do Área Cinza. O artigo abaixo foi escrito em Janeiro de 2007 como comemoração de 1 ano da editora, e embora o grosso seja reaproveitado, vou fazer comentários sobre algumas coisas que estes dois anos de distanciamento me permitiram avaliar, além de complementar em alguns pontos. E depois da reunião da última semana, nós da Secular estamos em um clima de empolgação bem parecido com este que vivemos em 2007!

O texto abaixo, foi escrito com o objetivo de ser usado para a divulgação de nossa promoção de aniversário e oferecer um breve resumo do nosso primeiro ano no mercado internacional de livros eletrônicos. Algumas coisas descritas abaixo já estão acontecendo a todo vapor, como a tradução do Vikings: Midgard e os últimos ajustes do Secular Games Stat Block Recorder, nosso próximo lançamento. Além disso temos tido algumas idéias interessantes e um plano B que muito em breve pode vir a se tornar o plano A!

Começando do começo! A Secular Games foi fundada no início de 2006,e contava com uma boa parte do Círculo – eu, Tiago, Giltônio, Leo Braca e Ig Barros, e tinha como foco a produção de material para o mercado gringo em formato eletrônico, além de possivelmente adaptar algumas feitas pelo Círculo (ou editoras nacionais) para serem lançadas lá fora. Na época o Círculo estava muito focado em produzir para as revistas de RPG nacionais, e queríamos testar as águas gringas, assim como aproveitar algumas coisas que criamos para o mercado interno e lançar lá fora, como fizemos com o Shadows of Shinobi, nosso segundo livro que na verdade é uma versão expandida de uma matéria bacanuda para a DB #115, com a capa pelo Ig.

A idéia era termos uma equipe auto-suficiente, capaz de produzir livros precisando de pouco ou nenhuma profissional externo, reduzindo assim nossos custos. Tiago e Giltônio ocupavam a função de escritores, com o Giltônio puxando um pouco a função de designer principal por seu domínio de regras da 3ª edição do Dungeons & Dragons, o sistema de regras que escolhemos para nossos principais produtos. O Leo Braca é um designer profissional de mão cheia, e cuidava da identidade visual dos livros, e o Ig Barros dispensa maiores apresentações, e embora à época ele não fosse a potência dos quadrinhos que é hoje, já mandava muito bem nas ilustrações! Nisto eu sou meio que um 2 de paus, cuidando um pouco da parte de manutenção do site e diagramação dos livros com o Leo, dando uns palpites nas regras e textos com Giltônio e Tiago, e cuidando de burocracias e gerenciamento em geral. Esta formação nos permitiu lançar livros esteticamente muito bem acabados com um custo praticamente zero, já que o trampo era feito quase todo por sócios da editora. Mas vamos continuar com o texto sobre o aniversário de 1 ano da Secular…

Nossos três produtos se saíram muito bem em 2006. O primeiro deles, o Advanced Character Guide: Arcane Archer completa um ano junto com a editora e superou em mais de 20% nossa expectativa de vendas do primeiro ano. Como resultado pretendemos dar continuidade a linha Advanced Character Guide em 2007, com os livros Advanced Character Guide: Arcane Trickster eAdvanced Character Guide: Loremaster, este último escrito por Rafael Smith, em nosso primeiro trabalho com um escritor freelancer nacional, e que esperamos ser o primeiro de muitos.

Neste mês de Fevereiro a Secular Games completou um ano de existência. Foi um ano e tanto para todos nós, e dentre as inúmeras coisas que aprendemos sobre o mercado de livros eletrônicos a principal delas é que ele é muito mais complicado do que imaginávamos!

Shadows of Shinobi, uma versão expandida da matéria de capa da Dragão Brasil #115 eo  Lines of Legend: Winter Elves, o primeiro da nova série sobre raças, também não decepcionaram, e têm correspondido nas vendas as boas resenhas e comentários nos sites de notícias. O feedback aos nossos produtos têm sido excelente, e a maior crítica que recebemos em nossos dois primeiros produtos – em relação a pequenos erros gramaticais, não se repetiu no Lines of Legend: Winter Elves, primeiro livro no qual contamos com o auxílio do Paul King, um revisor norte-americano que tem contribuído com a Secular de maneira fenomenal.

Se cometemos alguns erros por falta de experiência com o mercado de PDFs, o principal deles foi traçar uma previsão bastante otimista da velocidade com que lançaríamos nossos produtos. Para o ano passado a nossa previsão era de lançarmos oito produtos, uma média de um a cada mês e meio. A realidade se mostrou bem mais complexa, e o padrão de qualidade que desejávamos em nossos lançamentos se mostrou mais demorado de se alcançar do que havíamos previsto, o que resultou no lançamento de apenas três produtos em doze meses.

Realmente, as vendas do Advanced Character Guide: Arcane Archer superaram nossas expectativas iniciais, e seguir com a linha focadas na expansão das classes de prestígio do Livro do Mestre da 3.5 parecia ser a coisa certa a se fazer. No entanto nunca conseguimos lançar os livros Advanced Character Guide: Arcane Trickster eAdvanced Character Guide: Loremaster em grande parte por desorganização e priorização de outros projetos, além das boas e velhas vidas sociais, acadêmicas e profissionais de cada um.

Essa foi a dura realidade, e na minha opinião, de certa maneira um erro em nossa estratégia. Focamos nossos esforços em livros maiores, com cerca de 40 páginas, que obviamente levavam mais tempo para serem produzidos. Mesmo que fôssemos seguir esta estratégia hoje, o ideal seria misturar produtos menores, de cerca de 10 páginas, entre estes lançamentos maiores, de forma a manter o fluxo de produtos, e conseqüentemente a atenção sobre a Secular lá fora. Uma explicação melhor sobre a importância de manter um fluxo de produtos pode ser encontrada nos próximos parágrafo:

No entanto esta falha nos ensinou uma série de coisas. A primeira delas foi a importância do efeito alavanca que os lançamentos causam sobre as vendas dos produtos mais antigos. O mercado de livros eletrônicos é bem diferente do de livros impressos, e como tal tem suas próprias vantagens e desvantagens. A principal vantagem é o fato de podermos manter um livro a venda por anos, sem nenhum custo de distribuição, estocagem e reimpressões. Sempre que um consumidor se interessar por um produto d20 sobre ninjas, o Shadows of Shinobi estará disponível para ele imediatamente por $5 dólares, o que não ocorreria, por exemplo, com um livro esgotado ou simplesmente antigo. No entanto o volume de lançamentos em sites como a RPGNow é de dezenas por semana, o que significa que os livros eletrônicos, pelo menos das editoras médias e pequenas, têm um tempo de exposição bem menor que o dos livros impressos, que ficam por meses nas prateleiras das lojas chamando a atenção de potenciais compradores.

É ai que o fluxo constante de lançamentos entra. A cada novo lançamento exposto na página principal, os outros livros da editora também ganham visibilidade, o que gera um aumento substancial de suas vendas. Na verdade, percebemos que o impacto dos lançamentos sobre as vendas dos produtos antigos é muito superior a qualquer aumento proporcionado por resenhas e anúncios.

Preferimos então tentar novamente atingir o ritmo de lançamentos que consideramos ideal, e para isso tivemos que organizar nosso processo de criação de maneira mais precisa. Atualmente a produção de um livro conta com três etapas (Design, Desenvolvimento e Editoração). Com este modelo acreditamos que seja possível coordenarmos de maneira simultânea a produção de três produtos.

Além dos já citamos Advanced Character Guide: Arcane TricksterAdvanced Character Guide: Loremaster, pretendemos lançar no primeiro semestre de 2007 o Secular Games Stat Block Recorder e a versão em inglês do Vikings: Midgard, o aclamado livro da editora Conclave, que terá seu primeiro preview disponibilizado em breve.

A produção dos livros em etapas teoricamente nos tornaria capazes de produzir vários livros ao mesmo tempo, e embora seja um ótimo modelo, não tínhamos tempo hábil para nos dedicarmos com tamanha precisão. Ainda assim 2006 foi o melhor ano para a Secular em termos de lançamentos, e embora tenhamos aprendido bastante sobre o mercado gringo e as dificuldades da produção de livros de RPG não conseguimos efetivamente transformar isso em uma melhoria em nosso fluxo de produção, não por falta de retorno ou aceitação dos produtos, mas devido a uma série de desafios profissionais e acadêmicos que enfrentávamos na época. Por isso mesmo a tentativa de utilizar escritores freelancers, como forma de otimizar nosso fluxo de lançamentos, mas que infelizmente não decolou porque nossa equipe de produção gráfica enfrentava exatamente os mesmos problemas!

Ainda assim com todos os problemas e apenas três lançamentos, conseguimos vender cerca de U$1000 de nossos produtos, com um ganho bruto (descontando a porcentagem cobrada pelas lojas virtuais) de aproximadamente U$700, o que eu não considero nada mal para uma empreitada que era organizada em nosso tempo livre como um hobbie.

Nas próximas partes da história da Secular os anos de 2007 e 2008, onde demos uma parada completa, e as idéias para um retorno em 2009. O post seguinte sobre a publicação de RPG em formato PDF será respondendo algumas das excelentes perguntas feitas por aqui!

Levantando questões sobre a publicação de RPG em PDF

Estava conversando com o Giltônio e meus outros comparsas da Secular Games sobre meu interesse em escrever uma pequena série de artigos no Área Cinza sobre a possibilidade de publicar livros de RPG em PDF, abordando em primeiro lugar nossa experiência no mercado gringo (uma versão desatualizada desta história pode ser encontrada aqui), e posteriormente algumas teorias e idéias que tenho sobre a viabilidade deste formato de publicação aqui no Brasil, inclusive conversando com quem já está fazendo isso por aqui.

Mas antes de sair escrevendo como um desvairado sobre o que eu acho que é interessante, acho que seria bacana saber de quem acompanha o blog (e claro, se interessa pelo tema) quais são as principais dúvidas, apostas e teorias sobre a publicação em PDF, seja na gringa como aqui no Brasil. Óbvio que eu não vou conseguir responder metade das perguntas, mas a idéia é justamente discutirmos juntos, pensar nos formatos atuais e no que ainda pode ser implementado, ainda mais aqui onde este tipo de iniciativa está apenas engatinhando.

Então esse não é um post típico do Área Cinza, com meus resmungos sobre as paradas. Não senhores, mais que nunca preciso dos resmungos de vocês!